Pode soar um tanto presunçoso se referir à filmes desse jeito, mas quanto à inúmeros filmes de gênero dramático, ainda mais dentro da categoria de produções pequenas e independentes, Joe faz parte da parcela de merecem tanto crédito, e acima de tudo, respeito. Onde mesmo que ainda dentro de suas limitações técnicas e orçamentais, o filme nunca tenta se tornar uma suposta obra experimentalista pretensiosa para se classificar como “filme de arte”, ou recai na preguiça de uma execução de filme que seja decente.

E no entanto, se permanece fiel ao núcleo de sua narrativa, sua história e personagens, sem nunca visar altas pretensões temáticas  ou maiores significados transcendentes, tentando ser algo mais do que é. Graças isso, se resulta sua verdadeira “grandeza cinematográfica”, uma das quais é tão merecedora de um melhor reconhecimento e atenção do que têm. Nem estou falando sobre o trabalho de Nicolas Cage aqui (ainda), como sendo a principal fonte da causa para o grande feito do filme, mas também por ser dirigida por um diretor como David Gordon Green.

Na trama, seguimos o simpático jovem de 15 anos Gary (Tye Sheridan), que a fim de sustentar sua família necessitada, consegue ser contratado em um grupo de trabalhadores florestais cujo chefe é Joe (Nicolas Cage) um ex-presidiário durão conhecido por aquelas bandas por sua personalidade imprevisível e temperamento agressivo. Mas à medida que Joe se torna amigo do garoto, e cada vez mais consciente da sua vida doméstica abusiva pelo seu pai beberrão Wade (Gary Poulter), sua humanidade destrutiva entra em erupção. Bebendo e fumando incessantemente para manter-se afastado de seu temperamento volátil, até que o pai alcoólatra do menino finalmente vai longe demais e Joe finalmente resolve dar fim ao assunto com suas próprias mãos.

História familiar com certeza, mas possui todos os elementos aqui para a conta-la de forma nova e única o bastante para torná-la memorável. O primeiro felizardo disso é seu diretor, Gordon Green.

Mas com certeza se é compreensível o certo sentimento cético (ou melhor, preconceito) de alguns por ter alguém como ele dirigindo o filme, afinal ele é de certo totalmente imprevisível, tanto no que diz respeito à qualidade final de um filme quanto do tipo de filme que ele realizará. Pois quando não está fazendo deliciosas comédias dopadas e politicamente incorretas com James Franco e Danny McBride como Sua Alteza? ou “Segurando as Pontas”, ele também consegue provar sua imensa versatilidade fazendo intensos dramas íntimos como George Washington, Prova de Amor e agora Joe, facilmente um de seus melhores até hoje.

Tanto do ponto de vista técnico quanto narrativo, esse é um ótimo trabalho de direção em seu todo. Mesmo que ainda mostre sinais de traços de montagem mais experimentalista vindos de sua origem indie, como se tivesse uma metralhadora carregada de cortes rápidos e cinematografia fortemente saturada como fosse um documentário de jornal local, e seu intenso uso da câmera grudada sempre perto dos atores e raramente mostrando os arredores do território em alguma tomada mais aberta.

Mas pode-se argumentar validamente de que o diretor se usa muito desse seu estilo aqui para realmente conseguir construir a personalidade e tom caótico desse mundo em que seus dois protagonistas vivem e, literalmente, lutam todos os dias para sobreviver. E sua movimentação visual sempre em constante movimento vai e volta, tanto ajuda à despertar os sentimentos que os cenários carregam dos seus habitantes, como seu design árido e seco consegue tornar tudo eficientemente palpável.

Até no tempo em que o filme dedica quase toda sua meia hora inicial na construção dessa pequena comunidade pobre, simplesmente por demonstrar as pequenas interações cotidianas dos personagens entre si e com seu protagonista título, abraçando com força o público dentro desse mundo sujo. Revelando como as interações incrivelmente realistas e palpáveis dessas pessoas se transformam em um grande gancho envolvente e dramático, à medida que ele começa a desenvolver a relação de seu protagonista com o jovem Gary (um ótimo Tye Sheridan), e as inevitáveis consequências futuras de suas boas e más ações.

E tudo isso resulta, claro, do personagem central de Joe. Facilmente considerável como uma das melhores performances de Nicolas Cage e definitivamente um ponto de virada de mudança na sua carreira. Não que ele faça realmente algo de revolucionário aqui, ele é ainda o Nicolas Cage over-the-top que ou você ama ou odeia. Mas aqui, é como se ele, através de uma atuação tão cheia de sutilezas, estivesse fazendo da luta interna do personagem de Joe como sua própria luta para não deixar o over-the-top maníaco dentro dele sair e instalar a violência que ele tanto repreende.

Ao mesmo tempo que ele traz o melhor de cada uma dessas sutilezas, onde seu tom de voz cansado, olhos cabisbaixos e frustrados, e raros momentos dele sentindo um conforto e liberdade externa quanto interage com o personagem de Gary e ele pode ser ele mesmo, tudo carrega uma grande quantidade de sentimentos. Mostrando ter uma vida inteira realizada amarrada em suas costas, que nunca chegamos a ver, mas simplesmente a sentimos, exibida apenas por seus gestos corporais, pequenos sorrisos e suas eventuais explosões de raiva.

É o ator no topo de seu imenso talento, beneficiado por um roteiro inteligentemente escrito que não só fornece diálogos formados por um linguajar tão realista, e que também lhe dá todas as chances de fazer o melhor do protagonista pertencer a ele próprio. Interpretando um personagem complexo em camadas de sobra, contendo sua personalidade selvagem e com seu instinto violento e com um modo de sobrevivência sempre ativo, sendo um resultado do ambiente em que ele cresceu e vive.

Ao mesmo tempo que mostra guardar dentro de si um coração bom e puro, com o constante desejo de ajudar aqueles de quem ele se importa. Tanto sejam seus trabalhadores, sua amante prostituta e claro o jovem Gary, que se mostra como sendo a óbvia forma física e metafórica da própria infeliz infância de Joe, lutando pela independência e se contrapondo a perversidade quase que automática e cruel da figura de Wade, um ferozmente brilhante Gary Poulter. Embora em simultâneo à isso, ele forme uma figura inevitavelmente trágica e que fere aqueles que o amam apenas pela satisfação de seus vícios carnais.

Trágico ou irônico que o próprio Gary Poulter era um mendigo daquela região e que morreu pouco tempo depois devido à intoxicação alcoólica. Entregou uma performance assustadoramente real, ao mesmo tempo em que não esconde o retrato físico e social que o filme faz dessas regiões escassas em pobreza e afastadas de urbanismo. Um local perfeito para um estudo de personagem duro e complexo.

E o filme poderia facilmente ter se resumido a isso, um estudo da psique e da moral de seu complexo protagonista e a dura luta entre o bem e o mal em uma terra sem lei – até uma vibe Western está sutilmente presente e muito bem vinda, onde em qualquer lugar e a qualquer você pode cair morto com um tiro vindo de qualquer um. O que já tornaria o filme com certeza muito bom por si só graças ao desempenho magnético de Cage.

Mas graças ao mesmo, e também ao comando apaixonado de David Gordon Green, é também um filme que mostra ser uma dolorosa história de amadurecimento, tanto para o jovem em crescimento que luta para manter o mínimo de sua moral e decência ainda vivos, como também do homem ligado ao seu ego e orgulho individualista e que agora ver ser capaz de alcançar o melhor dentro de si. Uma história de superação pelos erros e más consequências das escolhas originadas de sentimentos destrutivos.

E também ser um retrato social digno, sem nenhuma pretensão ideológica de crítica política, mas focado sim na busca interna e humana para mostrar como, mesmo nos vastos lugares desconhecidos, desolados pela injustiça e pela violência, ainda consegue ser um lar de pessoas humildes. e para uma bondade humana tão verdadeira e talvez tão esquecida.

Joe (Joe – 2013, EUA)

Direção: David Gordon Green
Roteiro: Gary Hawkins
Elenco: Nicolas Cage, Tye Sheridan, Gary Poulter, Ronnie Gene Blevins, Adriene Mishler, Heather Kafka, Brenda Isaacs Booth, Anna Niemtschk
Gênero: Drama
Duração: 117 min

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