No meio de tantas obras sobre retratos humanos, Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo talvez seja o trabalha mais complicado que Peter Weir assumiu em toda sua carreira como diretor. Buscando adaptar uma série com vinte livres finalizados escritos por Patrick O’Brian totalmente fora do gosto popular literário brasileiro, não é de ficar surpreso que o filme não foi lá muito memorável durante seu período de estreia em 2003.

Com outros blockbusters de aventura dominando o ano, como O Retorno do Rei e a estreia da franquia Piratas do Caribe, O Mestre dos Mares rapidamente se tornou o “Mestre do Ostracismo” apesar de ter sido indicado a dez Oscar em 2004. Tendo passado praticamente quinze anos desde seu lançamento, finalmente tomei vergonha na cara e assisti ao primeiro e único blockbusters da carreira de um dos meus diretores favoritos. E o resultado disso tudo foi bastante misto.

As Aventuras de Jack Aubrey

É necessária boa vontade do espectador para conseguir embarcar no estilo narrativo que Peter Weir empregou no roteiro de Mestre dos Mares. Ao mesmo tempo que não se trata de um filme episódico, reunindo diversas pequenas aventuras tiradas do livro, também não é uma clássica narrativa convencional com uma distinta e categórica definição de atos e uma evolução bem delineada de seus personagens. Weir simplesmente decide trazer uma história que observa os personagens em meio a uma estranha perseguição.

Sem muito classicismo como geralmente gosta de trabalhar visto os inícios enigmáticos de seus filmes como Sem Medo de Viver, Sociedade dos Poetas Mortos ou A Testemunha, Weir não busca estabelecer nada seus personagens para então jogá-los na ação. O filme já começa definindo o conflito majoritário dentro do cenário proposto: as guerras náuticas entre Inglaterra e França em 1805 no Oceano Atlântico, mais especificamente na costa nordeste do Brasil. Nesse cenário histórico do século XIX, vemos um enorme navio de guerra francês, o Acheron, perseguindo incessantemente a ligeira fragata do sortudo capitão inglês Jack Aubrey (Russell Crowe em uma de suas melhores performances) e sua fiel tripulação.

Apesar do começo ligeiro, é bastante nítido que o estúdio depositava uma grande fé que Mestre dos Mares seria um grande sucesso que renderia uma franquia, afinal temos o arquétipo bastante simples de um herói destemido e superficial, assim como o glorificado Indiana Jones ou o atrapalhado Jack Sparrow.

Aubrey é um personagem de pouquíssimas camadas, mas traz as características certas de um herói: é destemido, carismático, tem forte senso de liderança e autoridade, companheiro e bastante esperto, além de ter um fiel escudeiro e melhor amigo. No caso, o papel é do médico da embarcação, Stephen Maturin (trazido por Paul Bettany e toda sua simpatia). Apesar de compartilhar da coragem e sangue-frio que o protagonista carrega, o bom doutor Maturin, como todo bom “escudeiro”, é um contrapeso e conselheiro do herói principal o auxiliando e criticando em momentos delicados.

Momentos esses que Weir simplesmente adora encaixar enquanto as múltiplas sequências de perseguição e batalha naval dão uma sucinta pausa. Nisso, Weir além de respeitar a obra original mantendo uma série de situações bem fidelizadas e lotadas de referências, gosta de ater sua obra no maior antro realista possível. Esqueça o glamour aventureiro de Piratas do Caribe, pois Mestre dos Mares é uma obra centrada em trazer um valioso retrato sobre a vida em um navio de guerra navegando meses a fio. Logo, em uma decisão acertada, não temos um único núcleo de romance – algo raríssimo para produções hollywoodianas.

Problemáticas sobre clima, a total imprevisibilidade da natureza, desafios éticos e morais com a tripulação, crescente paranoia com alguns indivíduos desequilibrados, entre outros temas surgem e somem com pouca sutileza. Como as situações são tão diversas e pouco conectadas, é um tanto difícil sentir algum apego pelos personagens, principalmente pelo protagonista moderadamente inconsistente.

Algumas ações que Aubrey toma não tem um resquício de consequência com a tripulação, sua obsessão com o Acheron é some tão subitamente como uma monomania e seu contato com outros integrantes do alto comando da embarcação soa bastante superficial, afinal não vemos essa amizade ser construída. Felizmente, também por um surgimento súbito, descobrimos que Maturin aspira ser um naturalista, biólogo, e quer aproveitar a passagem nas ilhas de Galápagos para poder descobrir novas espécies.

Isso suscita em um conflito bastante genuíno para Aubrey que se vê em um dilema delicado: manter uma promessa a seu melhor amigo ou continuar sua perseguição insana para destruir a nau francesa? Mesmo muito concentrado no alto-mar e no navio, Weir se preocupa em manter uma cadência saudável de reviravoltas para nos manter interessados – o problema reside mesmo na enorme confusão entre trocentos personagens coadjuvantes que você não dá a menor importância.

Apenas o pequeno Blakeney, um aspirante a marinheiro, desperta nosso interesse pela peculiaridade de sua situação física debilitada logo no início do longa e da crescente amizade que surge entre ele e Maturin, compartilhando o mesmo interesse pela descoberta de novas espécies no Novo Mundo. A dupla confere mais leveza ao filme e, admito, seu núcleo da busca por fauna e flora em Galápagos renderia um filme mais interessante do que a narrativa da perseguição proposta.

É notável, porém, os esforços que Weir se dedica em tornar todo esse ambiente do navio como uma própria cidadela com sua respectiva sociedade. São diversas vidas e histórias que temos alguns vislumbres. Talvez, em sua tentativa de abraçar o mundo dos livros de O’Brian construiu ao longo de vinte romances, Weir tenha tropeçado na própria ambição.

Mas é inegável que o tratamento com diálogos localizados ao inglês levemente arcaico, as múltiplas estratégias fenomenais que Aubrey adota para superar um inimigo mais poderoso, além de uma reviravolta final que propõe o tom sempre aventureiro da história, sejam características que ajudam a tornar Mestre dos Mares em uma experiência verdadeiramente única.

Mestre da Técnica

Acredito que Mestre dos Mares tenha marcado a primeira vez que Peter Weir tenha se aventurado a filmar em cinemascope, um formato que permite maior abrangência horizontal dos enquadramentos. Logo, em seu primeiro blockbuster, Weir finalmente explora o poderio visual de seus planos em uma parceria tão valiosa com o diretor de fotografia Russell Boyd que acabou rendendo o Oscar de Melhor Fotografia naquele ano.

De fato, o filme é um deleite visual e muito bem adequado ao espaço diegético de 1805. Boyd aproveita ao máximo a abordagem naturalista nas externas diurnas enquanto traz o mais belo barroco da iluminação que simula a luz de velas, criando uma atmosfera misteriosa e claustrofóbica para as entranhas do H.M.S. Surprise, navio de Aubrey.

Como de costume, Weir se dá ao luxo de fazer algumas sequências em montagem para mostrar a dinâmica do navio, dos afazeres da tripulação, além de valorizar o incrível design de produção que simplesmente fizeram uma réplica de uma nau inglesa do século XIX. É um resultado espetacular conseguindo se livrar daquela distrativa impressão das cenas noturnas geralmente realizadas em estúdio.

Weir foi decidido em trazer o maior grau de realismo para um filme de aventura marítima até então. Testando o limite de sua competência, o diretor realmente traz um trabalho técnico excepcional a fim de injetar a maior quantidade de vida em sua encenação limitada pelo espaço físico da embarcação.

Mas o que mais surpreende no trabalho de Weir é o domínio apresentado nas complexas sequências de ação. Apesar de termos apenas três, sendo que uma envolve apenas manobras em uma tempestade, a realização é espetacular. Weir confere identidades únicas e apresenta novos elementos para conferir diferentes dinâmicas em cada cena de ação, nunca repetindo situações ou enquadramentos.

Para um diretor que raramente se arriscava com cenas frenéticas, é bastante inspirador o jeito que Weir encarou um desafio que daria medo em qualquer um. O único porém dessas sequências talvez seja o ritmo exagerado da montagem. Apesar de Weir dar respiros mais que suficientes para acompanharmos as coreografias, existem momentos que tudo desanda com picotadas ligeiras quase incompreensíveis.

Aliás, ritmo problemático é uma constante em Mestre dos Mares. Algumas das histórias que Weir traz rendem cenas bastante tediosas que prejudicam ativamente a progressão do filme que logo se torna arrastado, cansando o espectador. Mesmo em seu penúltimo filme, Weir ainda não consegue usar a montagem de modo menos quadrado para injetar vitalidade no filme.

Por outro lado, há tanto cuidado com o visual, os figurinos e até mesmo com a trilha musical que transformam completamente a imersão de assistir a esse filme.

A Aventura Esquecida

Apesar de o fracasso de Mestre dos Mares ter sido expressivo enterrando de vez qualquer chance de termos uma franquia de aventuras marítimas fidedignas ao cenário histórico, o filme ainda é simplesmente único. Com certeza se trata de uma obra bastante esquisita, com pouca preocupação sobre o formalismo narrativo que estamos tão acostumados em filmes de aventura.

Se o espectador tiver apenas um pouco de paciência e aceitar o convite de Peter Weir em embarcar nessa enorme aventura desconexa, mas bastante atraente, com certeza encontrará diversos tesouros que compensarão os trechos mais monótonos da jornada.

Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (Master and Commander: The Far Side of the World, EUA – 2003)

Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir, John Collee, Patrick O’Brian
Elenco: Russell Crowe, Paul Bettany, James D’Arcy, Chris Larkin, Max Pirkis, Billy Boyd
Gênero: Aventura
Duração: 138 minutos.