A Netflix encontrou na franquia Narcos, algo que vem trabalhando bastante em suas produções, que é a de contar histórias que se aproximem da realidade. Séries como Black Mirror e 13 Reasons Why tem como objetivo tratar de assuntos bastante discutidos na sociedade. E a primeira temporada de Narcos: México é o tipo de série interessante e que deve ser assistida por todos, justamente por tratar de uma questão tão relevante quanto é o tráfico de drogas.

A série original de Narcos e que deu origem a este spin-off, em que Pablo Escobar reinava, falava sobre o início dos cartéis colombianos, sobre o domínio do tráfico de drogas na região e do início da rota das drogas em direção aos EUA. Já a primeira temporada de Narcos: México acompanha os passos de Miguel Ángel Félix Gallardo (Diego Luna), um pequeno traficante de maconha que atua na cidade de Sinaloa a mando de um quartel regional.

De forma bem trabalhada vão acompanhando e explorando mais a respeito do traficante, que com uma simples idéia acaba organizando o tráfico regional, ao fazer acordo com os chamados ‘praças’. A série vai mais além, não apenas mostrando como ele conseguiu o monopólio das drogas no México, mas também como começou a explorar o lucrativo mercado da cocaína, um produto até então quase que exclusivo dos colombianos.

É um acerto da equipe de roteiro apresentar as estratégias criadas pelo por Miguel Ángel para conseguir criar um verdadeiro monopólio do tráfico. Tais estratégias são apresentadas aos poucos, de forma intrigante, segurando o telespectador em frente a tela e contando, de forma didática, o início da escalada de terror e que futuramente ficaria ainda pior no país latino. É um assunto delicado, se trabalhado de forma errada pode dar outro tom a um tema que envolve não apenas a vontade de pessoas em vender droga e de ficarem milionárias, mas também em corromper todo um sistema, que vai desde políticos a militares.

Outro grande acerto foi o de mostrar a origem dos cartéis mexicanos e da escalada de horror que só foi crescendo com o tempo. O tráfico de drogas, principalmente o de cocaína, é tema recorrente em Hollywood, filmes como Scarface (Brian De Palma) e Os Bons Companheiros (Martin Scorsese) já tocaram nesse tema, assim como a premiada série Breaking Bad, que toca mais no caso das drogas sintéticas, mas mesmo assim aborda o tema sobre o tráfico. Só que são poucas as produções que realmente falaram das origens do tráfico mexicano, quem eram seus líderes e como surgiu a escalada recente de violência. Por si só a série já se mostra importante somente de abordar esse assunto.

A narrativa trabalha mesclando imagens de arquivos com a da encenação dos personagens, ensinam didaticamente a história do país, das corporações policiais e outras questões, mas sempre com uma narração de fundo, ao estilo do que foi popularizado e muito bem trabalhado por José Padilha em Narcos. O roteiro segue duas linhas narrativas, a primeira mostrando o policial e sua investigação particular e a segunda em que Miguel Ángel tenta criar sua rede de criação e distribuição de maconha no México, contando com a ajuda de policiais e políticos. E a partir daí vão mostrando ele subindo de patamar degrau por degrau.

Não há agilidade em apresentar os fatos, pelo contrário, tudo é mostrado de forma bem lenta, ao mesmo estilo da série original que mostra o tráfico na Colômbia. Não pulam períodos para mostrar mudanças de personagens ou mostrar a mudança da região. A narração é um ótimo artifício para dar agilidade à trama, mas apenas em alguns momentos interessantes isso ocorre e de forma rápida.

Perdem tempo com subtramas chatas, como as envolvendo o irmão de Miguel Ángel, um homem que age por instinto e que sempre coloca tudo a perder. Tal fato é explorado ao limite na série, chega um momento que se torna chato de tantas vezes que esse irmão aparece fazendo bobagem. Perde-se tempo também com outras vinganças menores feitas por outros personagens, são partes importantes da série, mas que só estão ali presentes para demonstrar como a região é violenta.

Em alguns momentos, Narcos: México soa bastante repetitivo. Parece querer a todo o momento dizer que o tráfico é poderoso, que foi criado um sindicato do crime, que policiais e políticos são corruptos, fatos já mostrados e que hora ou outra aparecem novamente para lembrar o telespectador. Essa repetição não tem efeito prático, já que não acrescenta nada de novo para a história, além de só ficar dando voltas e enrolando. 

No México, diferente do que ocorria na Colômbia, não havia uma figura importante no tráfico que centralizava toda a organização como era o caso de Escobar. Nesse cenário, a série, não demora a apresentar o antagonista Félix (Diego Luna) que irá chamar todos os representantes de cada região do México para criar uma central do tráfico e assim unir toda a operação em um só líder.

Diego Luna um personagem interessante de início, mas que vai perdendo seu brilho com o tempo, não pelo fato do antagonista ser mal retratado na produção, mas sim por causa da interpretação sofrível de Diego Luna (Star Wars: Rogue One), que não consegue segurar a série, algo que não ocorre com o protagonista, interpretado pelo ator Michael Peña e que tem talento de sobre para tirar tudo e mais um pouco de seu personagem. Diego Luna interpreta um vilão canastrão com ares novelescos, não convence no papel. Fica evidente como o ator não deu conta do antagonista quando há o encontro entre Diego Luna e Escobar, interpretado magistralmente por Wagner Moura. A cena é curta, mas a diferença fica nítida na atuação dos dois, Wagner Moura se impõe facilmente frente a Luna.

A primeira temporada de Narcos: México, em sua totalidade, é um excelente exemplar de série que mesmo com seus defeitos consegue contar a origem de algo tão cruel quanto é o tráfico de drogas. Um trabalho feito de uma maneira séria, abrangente e sem deixar nós solto, pois tudo o que foi apresentado durante a trama fez sentido ao final. Que a Netflix continue produzindo outras ótimas séries nesse estilo.

Narcos: México – 1ª Temporada (idem, EUA, México – 2018)

Direção: Andrés Baiz, Amat Escalante, Alonso Ruizpalacios, Josef Kubota Wladyka
Roteiro: Carlo Bernard, Chris Brancato, Doug Miro, Clayton Trussell, Andrew Black, Ashley Lyle, Eric Newman, Bart Nickerson, Jessie Nickson-Lopez, Scott Teems
Elenco: Diego Luna, Michael Peña, Alyssa Diaz, Scoot McNairy, Teresa Ruiz, Horacio Garcia Rojas, Tenoch Huerta, Joaquín Cosio, José María Yazpik, Matt Letscher, Fernanda Urrejola, Tessa Ia, Mike Doyle, Jackie Earle Haley, Wagner Moura, Fernanda Urrejola
Gênero: Policial, thriller
Duração: 50 (cada episódio)

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