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Crítica | Neruda

Um experimento interessante de linguagem e investigação histórica.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
15 de dezembro de 2016 · 3 min de leitura
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Acho que o primeiro ponto que pode ser dito sobre Neruda é que não é uma cinebiografia do poeta chileno. O filme do diretor Pablo Larraín (No e O Clube) funciona mais como um thriller político que comenta o momento do Chile, pouco antes de ter uma das ditaduras mais cruéis da América Latina. Ao mesmo tempo, o diretor quer fazer uma série de experimentos de linguagem. Funciona? De certa maneira.

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O longa se passa no final dos anos 40, quando Pablo Neruda (Luis Gnecco) já havia ganhado o Prêmio Nobel de Literatura e era senador do Chile. Como era de extrema esquerda e a situação política do país estava efervescendo, o poeta foi declarado criminoso. Para ir atrás dele é escolhido o inspetor Óscar Poluchonneau (Gael Garcia Bernal), um policial dedicado que acredita vir de uma linhagem de oficiais honrados.

O aspecto mais interessante de Neruda está na direção de Larráin, que consegue fazer essa mistura de maneira bem eficiente. Dá para perceber que o diretor está fazendo um comentário político sobre o seu país, mostrando que como a guerra ideológica acabou destruindo o Chile. Larráin também mostra não seguir bandeiras, pois culpa tanto a esquerda quanto a direita pelo que aconteceu. É interessante quando um diretor decide recontar ou investigar a história do próprio país, e Neruda faz um belo trabalho ao mostrar essa história. Outro fator interessante é que não há um olhar divino quanto ao personagem título: o Pablo Neruda mostrado no filme é um cidadão comum, com suas virtudes e defeitos. Vemos que era uma pessoa muito fiel a sua ideologia, mas também um infiel quanto a esposa e muitas vezes egoísta, é importante esse olhar do cineasta que faz com que o espectador crie uma identificação com o poeta.

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Outro ponto forte de Larráin consiste na estilização do filme. Parece que o cineasta quis brincar de cinema e utilizar todos os tipos de filmagem que havia disponível em seu arsenal. Há referências que vão desde o cinema noir, principalmente nas cenas com Gael Garcia Bernal, até o cinema pós-moderno. Só ver como o diretor junto com o seu diretor de fotografia brincam com ângulos curiosos e lentes eye-fish, que distorcem as laterais da imagem. Além dos ângulos, há a mudança de iluminação, que de tão forte soa artificial. Há até excesso de flaires na lente. Por mais que haja esse experimento durante todo o longa, ele acaba cansando em certos momentos. Por boa parte o espectador aceita como uma parte da gramática visual do longa e o talento de Larraín funciona, mas lá pelo meio acaba a piada. Além dessa canseira da estética de “Neruda”, parece que o filme não sabe para onde vai e o que ele quer pelo meio do filme, diria que é o principal defeito do longa é essa aparente falta de objetivo durante o meio da projeção.

O elenco está muito bem, principalmente os dois protagonistas. Eles chagam a atenção por serem opostos em composição: enquanto o Neruda de Luis Gnecco é um personagem humano e complexo, enquanto o inspetor de Gael Garcia Bernal é um personagem frio e distante que realmente aparece um personagem criado de um livro de ficção. Não só mostram que os personagens se completam, mas acaba criando uma relação muito interessante entre os personagens.

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Neruda não é um grande filme, mas merece ser visto em tela grande. Por mais que o longa tenha esses problemas que foram ditos, merece ser visto pela experiência audiovisual que ele propõe e para entendermos como foi semeado o golpe de estado que fez o Chile sofrer por anos.

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Tags: #Gael García Bernal #Luis Gnecco #Pablo Larraín
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