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Crítica | Noite Passada em Soho – Nostalgia de matar

Por algum motivo, 2021 parece ter sido o ano em que o giallo voltaria para o mainstream americano. Tecnicamente, 2020, já que os dois principais filmes que apostam nessa vertente do cinema de terror italiano acabaram adiados para este ano em decorrência da pandemia da COVID-19. Um dos mais aguardados, e que foi escolhido como um dos filmes de abertura da 45ª Mostra de Cinema de São Paulo é também uma das obras que pessoalmente eu mais aguardava desde seu anúncio: Noite Passada em Soho, novo filme original do britânico Edgar Wright. Não que eu queira propor uma competição com o outro grande giallo do ano, que é Maligno de James Wan, mas se eu estivesse… o filme de Wright não subiria no pódio com a medalha de ouro.

Completamente original, a trama nos apresenta a Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem apaixonada pela cultura dos anos 60 que se muda para Londres, onde iniciará seus estudos em uma faculdade de moda. Preferindo ficar em um quarto alugado por uma reclusa (Diana Rigg) do que em uma república, Eloise é misteriosamente transportada para a Londres dos anos 60 durante a noite, acompanhando a perspectiva da enigmática Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora que acaba amarrada à uma trama macabra envolvendo o suspeito Jack (Matt Smith). No presente, Eloise tenta ligar os pontos para descobrir o que de fato aconteceu.

Só Se Vive Duas Vezes

E se Meia Noite em Paris se cruzasse com uma história sobrenatural, basicamente. Ao lado da roteirista Krysty Wilson-Cairns (de 1917), Edgar Wright traça sua história mais madura e diferenciada, partindo para um território consideravelmente sombrio após suas investidas em comédias e filmes de ação. É uma proposta admirável, e também preciso dar créditos à dupla por apostar em um longa de gênero que parte de uma ideia original, sempre uma raridade em meio a uma indústria dominada por quadrinhos e reboots. Gosto bastante do tema central desenvolvido pela história, que brinca com os deleites (e os perigos) de uma obsessão pelo passado e um modo de vida nostálgico, beneficiando-se também de uma protagonista extremamente empática.

Meu problema, apesar de tudo isso, foi uma falta de conexão. Em seus primeiros 40 minutos, o longa se arrasta para estabelecer o tema e a dinâmica da “volta no tempo”, e brinca com os mistérios e elementos sobrenaturais de forma mais bem-sucedida visualmente (chegaremos a isso em alguns instantes). Fica difícil se apegar à figura de Sandie como algo além do que uma simples miragem, tendo seus efeitos bem melhores trabalhados na repercussão emocional em Eloise. Mas o grande problema vem mesmo com a conclusão do filme, que não detalharei para evitar spoilers, mas que significa uma inversão de expectativa interessante no papel; mas dramaticamente decepcionante.

Suspiros

Encabeçado por uma performance dupla das talentosas estrelas em ascensão Thomasin McKenzie e Anya Taylor Joy, Noite Passada em Soho definitivamente é carregado pelas duas. Joy consegue criar uma postura madura e sensual para Sadie, ao mesmo tempo em que oferece vislumbres de fragilidade e dúvida que nem o roteiro desenvolve com eficiência – além de contar com um cover marcante da canção “Downtown”, presente também no primeiro trailer do filme.

Mas o destaque é mesmo McKenzie, que desde os primeiros segundos de projeção já garante a empatia do espectador ao protagonizar uma sequência musical bem divertida – onde sua energia alegre logo se contrasta com uma recepção bem fria em Londres, na qual a atriz demonstra toda sua fragilidade e ingenuidade. Ao longo das passagens temporais, é divertido ver McKenzie adotando não apenas o visual de Joy, mas também alguns de seus trejeitos. Uma grande performance em um belo ano para a atriz, presente também em Tempo, de M. Night Shyamalan.

No geral, o elenco coadjuvante rende bons momentos, mas nada realmente notável. Matt Smith se aproveita de sua persona que sempre rende figuras de caráter questionável para criar uma figura bem unidimensional, enquanto Terence Stamp infelizmente tem um jeitão mais cool desperdiçado – assim como o bom Michael Ajao, preso com um personagem que nunca se justifica. O único outro destaque vem com Diana Rigg, em sua performance final, que encanta por um monólogo revelador em um dos pontos mais decisivos do longa.

Um cineasta amadurecido

Em quesitos técnicos, não é surpresa encontrar uma melhora considerável. Se comentei que Wright buscava por temas e desenvolvimentos mais maduros em história, o mesmo se aplica de forma admirável em sua invejável craft. Os cortes precisos e energéticos que ajudavam a dar pulso a longas agitados como Scott Pilgrim contra o Mundo e Em Ritmo de Fuga são bem mais sóbrios e precisos, com o montador Paul Machliss (agora sem o habitual parceiro Jonathan Amos) mantendo a assinatura do cineasta para sequências de passagem de tempo e transições elaboradas; mas agora raramente usando-as para humor, e sim o terror.

Nesse sentido, ainda que Wright tenha flertado com o terror na comédia Todo Mundo Quase Morto, aqui é um mergulho total. Os melhores momentos de Noite Passada em Soho são quando Wright mergulha na paranoia e no medo de Eloise. Ao lado do excelente diretor de fotografia Chung-hoon Chung (que causou muito medo também em It: A Coisa), Wright é hábil ao criar imagens fantasmagóricas que usam e abusam de luzes coloridas (neon nunca é demais!), efeitos de caleidoscópio e também efeitos visuais bem pontuais que contribuem para uma atmosfera de perseguição fortíssima. É um verdadeiro deleite visual, e onde o longa mais se aproxima das raízes do giallo que persegue no sentido estético.

A ideia de Edgar Wright fazer um terror psicológico definitivamente me fez esperar um pouco mais. Noite Passada em Soho representa um amadurecimento notável do cineasta britânico, muito mais na caprichada estética do que na história com rumos questionáveis.

Noite Passada em Soho (Last Night in Soho, Inglaterra – 2021)

Direção: Edgar Wright 
Roteiro: Edgar Wright e Krysty Wilson-Cairns
Elenco: Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Matt Smith, Diana Rigg, Terence Stamp, Michael Ajao, Sam Claflin, Rita Tushingham
Gênero: Suspense
Duração: 116 min

Acompanhe mais da nossa cobertura da 45ª Mostra Internacional de São Paulo

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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