Em sua montanha de filme dirigidos, há a carreira pós-Alien e Blade Runner de Ridley Scott. Muitos simplesmente esquecem esse período até o enorme pico de sucesso que o diretor conseguiu com Gladiador, assim perdendo décadas inteiras de trabalhos, no mínimo, interessantes. Apesar de serem filmes menos populares que os seus épicos históricos ou religiosos e suas suntuosas ficções científicas, Scott é um prolífico diretor de thrillers de crime. Filmes sobre a cidade grande e suas mazelas, de amores proibidos, roubos e assassinatos a sangue frio.

Um investimento em narrativas desse tipo tão incisivo quanto os esforços de Martin Scorsese, o diretor mais bem-sucedido nesse fascinante subgênero. Porém, ainda é um mistério a razão dos longas desse período serem tão menosprezados na carreira de Scott. O pontapé inicial de sua filmografia com os thrillers urbanos foi com Perigo na Noite, um bom filme muito esquecido em meio a tantos longas testosterona dos anos 1980.

Noir Resgatado

A história de Perigo na Noite é uma das mais simples que podemos pedir. O roteiro de Howard Franklin não toma decisões muito arriscadas para um longa que tinha apenas o ingênuo propósito de entreter e fisgar sua atenção. Visto dessa forma, até mesmo a sinopse do longa é capaz de despertar algum interesse no mais desinteressado dos espectadores.

Após Claire, uma rica socialite, testemunhar o assassinato a sangue-frio de seu melhor amigo e conseguir escapar ilesa da cena do crime, a polícia de Nova Iorque se esforça para encontrar o meliante. Porém, com a vida ameaçada, a mulher entra no programa de proteção à testemunha. Um dos policiais escalados para protege-la no turno noturno é o detetive Mike Keegan, um homem-feito, casado, pai e com oportunidades de crescimento na delegacia. Porém, conforme o tempo passa dentro de um enorme apartamento de vidas solitárias, uma crescente tensão sexual entre os dois surge, trazendo problemas para as vidas de ambos.

Apesar de hoje não parecer uma história nada original, o roteiro de Franklin resgata um tipo de conflito clássico dos filmes noir, adaptando para a época do boom de divórcios e escândalos matrimoniais dos anos 1970 – que rendeu até mesmo o clássico Kramer vs Kramer.

O roteirista apresenta boas ideias, apesar do contraste entre os dois indivíduos ser estereotipado em excesso, mas isso fazia parte das características que tornam esses filmes tão interessantes. Como de costume em filmes antigos de crime, há uma aura de mistério sobre Claire: apenas sabemos que ela é rica, culta e atraente – uma clássica femme fatale. Já com Mike, sabemos apenas o necessário para sentirmos o impacto da vindoura traição.

Scott e o roteirista investem bastante tempo para estabelecer seu núcleo: um casamento feliz com uma boa dinâmica familiar que aparentemente não pode ser arruinado por nada, além da violência que espreita o bairro do Queens, onde a família mora. Isso que torna Perigo na Noite bastante interessante: os contrastes sociais que Franklin elabora de modo bastante óbvio e eficiente.

Pelo choque de realidade com Mike explorando o apartamento de Claire, além de seu cotidiano cheio de prazeres e facilidades, Frankiln consegue tornar nosso protagonista mais complexo ao pender para a paixão com Claire: uma vida de facilidades e oportunidades que ele nunca teria, oferecendo até mesmo mais segurança para seu filho. Mas a que custo? A perda da fiel esposa que enfrenta suas próprias batalhas diárias em um bairro violento.

Já com Claire, interpretada com competência por Mimi Rogers, sentimos um vazio existencial intenso, uma artificialidade de relações movidas apenas por interesse financeiro entre desconhecidos que apenas se toleram para não virar fofoca. O roteirista consegue emplacar críticas à high society interessada em pecados frívolos e banais, completamente egocêntricos. Claire, por sua vez, possui esse sentimento de não pertencimento, de ser mais do que seus ditos amigos. É uma personagem trágica e bastante solitária que consegue fisgar nossa empatia sem qualquer esforço.

A partir disso, com dois personagens fortes e uma boa química, o conflito principal engrena com facilidade, conseguindo sustentar dois terços inteiros do filme mesmo que possua uma montanha de reviravoltas previsíveis, afinal, essa ainda é uma história de crime. E é justamente nisso que Franklin falha: o antagonista é muito mal estabelecido, genérico, além de sua sede de vingança ser patética com os planos estúpidos que arquiteta para matar Claire.

Franklin vai além e até ousa evoluir o casal protagonista nos momentos finais do filme, o que acaba sendo um erro já que a conclusão da história é precipitada, resolvendo os conflitos sem muita cerimônia ou impulso dramático – algo estranho já que o filme flerta com o melodrama. A impressão que permanece é que o próprio roteirista tenha perdido interesse na história que pretendia contar. Infelizmente, o mesmo acontece com Ridley Scott nos mesmos segmentos.

Realidade Estilizada

O mais curioso de Perigo na Noite é o fato do filme ter envelhecido bem, comprovando que até mesmo em longas menos consagrados, Ridley Scott mantém seu cuidado estético impecável. Essa seria a primeira vez que ele abordaria um filme contemporâneo, explorando sua visão sobre o urbana, o decadente e o luxo em uma obra só.

Apesar de já ter apresentada a inesquecível atmosfera urbana futurista, Scott não trouxe muito das suas influencias visuais de Blade Runner. A predileção pela noite, mais convidativa para ser estilizada, permanece. Mas o choque de realidade é grande. Não há neons, mas a forte contraluz alta, envolvendo os personagens em uma aura solitária, é presente. O mesmo acontece com uma leve adição de filtros que embaçam o mínimo para serem notados na imagem, assim como o forte grão do filme. A fumaça e os pedestres misteriosos surgem e vão tornando a atmosfera daquela Nova Iorque viva e levemente encantadora.

Sendo um filme centrado enfaticamente no cenário do apartamento de Claire, Scott brilha ao estabelecer os contrastes visuais para entendermos a fascinação da riqueza que Mike sente, além da figura atraente da socialite escondida nos cômodos da casa sempre muito escura e fria. A artificialidade que mencionei acima também é imposta pela estética de Scott em seu cuidado absurdo com os cenários.

No campo da rotina de Claire, sempre há um trabalho efusivo de cores monocromáticas e de sombras repletas em sua moradia de pouca luz. Ainda assim, com esse sentimento de abandono, todo é higienizado e organizado metodicamente, como se tudo ali fosse peça de museu, incluindo a dona da casa. O mesmo acontece com o campo sonoro do longa. Scott evita utilizar sons naturais naquele lugar recluso e isolado da realidade. Sempre que foca nesse núcleo, usa músicas clássicas, incluindo óperas, para reforçar a sensação de distanciamento e moderada alegria de viver.

Por isso que o romance dos dois funciona, já que Claire torna-se uma personagem mais colorida enquanto próxima de Mike. Sua casa é permeada de sons cotidianos, seja da rua ou de equipamentos eletrônicos. Um pequeno caos comanda a casa de Mike, sempre desorganizada, mas completamente inserida no bairro, na realidade. E, portanto, totalmente vulnerável ao perigo da violência urbana.

Isso é, obviamente, oposto ao sentimento de segurança do isolamento do apartamento de Claire. Quando invadido, novamente a casa funciona como um reduto seguro trazendo também o melhor momento de Scott na direção ao elaborar o suspense de um tiroteio em duas salas conectadas por vidros e espelhos, gerando reflexos diversos do bandido e do mocinho.

Mesmo mantendo uma rica linguagem visual e estendendo o suspense de modo eficiente, nota-se um breve esgotamento de Scott na proximidade final do filme, com usos pouco inspirados de câmera ou da própria fotografia, apesar de ter uma jogada de encenação razoável. Scott, antes, usa zooms elegantes, câmeras na mão, entre outros recursos dinâmicos, também inserindo closes nos momentos mais apropriados.

Não se trata, evidentemente, de um primor de direção cinematográfica, mas de um trabalho que revela o quanto de carinho e seriedade que Scott investiu no projeto, mesmo sabendo que trabalharia em cima de uma história tão simples e facilmente esquecível.

Ridley Scott na Cidade Grande

Perigo na Noite é um bom filme inofensivo que revela o olhar de Scott sobre a cidade grande e a contemporaneidade. O pontapé inicial que traria suas obras-primas urbanas no ápice de O Gângster por exemplo. Com um romance bom, personagens bem trabalhados e um ritmo eficiente, fica claro que se trata de um bom divertimento indicado para os fãs do trabalho do diretor obcecado pelo tratamento estético de suas obras. Uma primeira visita à cidade grande de Ridley Scott que nos deixa com vontade de voltar, futuramente, outra vez.

Perigo na Noite (Someone to Watch Over Me, EUA – 1987)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Howard Franklin
Elenco: Tom Berenger, Mimi Rogers, Lorraine Bracco, Jerry Orbach, John Rubinstein, Andreas Katsulas
Gênero: Thriller Urbano, Romance, Crime
Duração: 107 minutos.

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