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Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra

Raramente inicio um texto desse modo. Mas há momentos em que vale a pena quebrar as convenções de uma introdução. Planeta dos Macacos: A Guerra é um desses casos por um motivo muito simples: esse filme está além da cortina de incertezas para afirmar, desde já, que se trata de uma das obras mais memoráveis que já surgiram na Sétima Arte.

Conheço os riscos de afirmar algo assim tão prematuramente. Filmes históricos demoraram décadas para serem reconhecidos e verdadeiramente apreciados, como foram os casos de Blade Runner e Cidadão Kane. Em termos de História recente, digo que a obra-prima de Matt Reeves é o blockbuster mais relevante de um estúdio desde 2008, quando a Warner e Christopher Nolan lançavam o majestoso O Cavaleiro das Trevas, um filme que é praticamente uma unanimidade quando analisado e já concretizado como um dos pilares da cinematografia americana do novo milênio.

O mesmo deve acontecer com a parte final da trilogia excepcional que a Fox e Matt Reeves construíram ao longo desses anos. O motivo desse filme quebrar a banca é muito simples: coragem e audácia. Coisas que raramente vemos em grandes produções hollywoodianas mais acostumadas a convenções narrativas fracas e obras mastigadas atualmente. Aliás, esse é o destaque da 20th Century Fox como um todo nesse ano imbatível. Mesmo com obras muito polêmicas, o estúdio cavou um caminho interessante com narrativas pouco convencionais como A Cura, Logan e Alien: Covenant.

Com segurança, Planeta dos Macacos: A Guerra faz parte dessa linha de pensamento do estúdio, embora nenhum outro lançamento chegue perto da qualidade indubitável que Matt Reeves apresenta nesse que, até então, considero como o segundo melhor filme desse ano.

A Origem do Confronto de uma Guerra

É curioso notar que o nome de Matt Reeves não está dentre os produtores do filme. Parece que houve uma junção criativa sem igual para preservar uma narrativa que, apesar de bastante comunicativa e clara para o público, é tão rara para um filme desse porte. O momento que Guerra aborda também pode ter propiciado uma virada tão favorável ao que é visto em tela: silêncio, contemplação, psicopatia e espírito humano.

Pela primeira vez em anos e na franquia, Matt Reeves assina o roteiro da obra, em conjunto com Mark Bomback. Para encaminhar essa história, Reeves opta por oferecer uma introdução similar a que havíamos visto em Confronto, porém, de abordagem mais sutil, retomando a história da trilogia através de curtos parágrafos.

Neles, também há uma pequena sinopse que oferecerei aqui: César e sua comunidade vivem em isolamento na floresta. Porém, um general veterano caça seu grupo. Apenas o extermínio é desejado. Através dessa violência, com perdas de ambos os lados, César terá que lidar com os seus piores sentimentos que motivam uma jornada pessoal por vingança e morte.

E é somente isso que ofereço sobre Guerra. Essa é uma daquelas produções que quanto menos souber, melhor ela fica. Justamente por isso, usarei a abordagem que mais odeio nesse texto: ser consideravelmente vago até que o filme estreie e toda a análise seja aprofundada com a abordagem analítica que merece.

O que mais impressiona dentro do texto de Guerra é quão impossível é dissociar a narrativa da estupenda direção de Matt Reeves. Isso é fato por conta do caráter extremamente silencioso da obra. É uma progressão natural dentro da trilogia que passou a ver cada vez menos falas. Dessa vez, não há núcleos humanos. Reeves opta em oferecer um estudo de personagem rico para César quase nunca abandonando o ponto de vista do protagonista.

As únicas vezes que isso ocorre, é para justificar algum ponto narrativo que terá influência importantíssima em uma resolução de arco no futuro. Mesmo com poucas palavras, Reeves delineia um desenvolvimento nítido para César com reviravoltas surpreendentes que tocam temas sensíveis em paralelo a História da humanidade. A jornada por vingança não entra em clichês de filmes de ação. Na verdade, o que ocorre aqui, é uma desconstrução de convenções narrativas do gênero.

Não serão raras as vezes que o diretor subverterá as expectativas do público. Isso toca até mesmo a própria premissa do filme em uma jogada muito audaciosa do estúdio. Porém, não se trata de uma enganação. O payoff explosivo está lá para os apreciadores de boa ação, mas Guerra é muito mais do que algumas setpieces caríssimas e bem dirigidas.

Pela performance excepcional de Andy Serkis como César auxiliada sempre pela encenação poderosíssima, raramente os roteiristas precisam recorrer a cenas que jorram exposição na cara – há somente uma, mas excelente. Isso ocorre por conta de Reeves tratar a trilogia inteira como uma unidade. Nós já sabemos quem é César e a filosofia que predomina em sua sociedade primitiva: macaco não mata macaco e macacos são fortes unidos.

Em Confronto, essa filosofia foi posta à prova, explorando o pior que a psique dos primatas ofereciam, de modo similar ao pior do pensamento humano. Aqui é o contrário com César flertando com a autoridade para proteger seu grupo mesmo que isso custe seus princípios. Então temos mais um filme que o conflito externo se trata de uma enorme alegoria para a guerra interna moral que César sofre em sua jornada.

O estopim inicial que dá origem a essa narrativa é consequência do filme anterior, reforçando o elo forte entre os filmes – no caso, deste com o segundo. Mas a preocupação do roteirista não é apenas com César. Os coadjuvantes, entre novos e antigos personagens, tem funções específicas para auxiliar no desenvolvimento do protagonista, pois sem alguns dos conflitos intelectuais apresentados aqui, as ações de César não seriam tão sentidas como são.

O destaque continua para Maurice, o orangotango de olhos gentis, a muda garotinha sem nome e para o Bad Ape, o único alívio cômico de toda a narrativa que surge apenas no final do segundo ato. Cada um tem o propósito específico de resgatar a luz no coração do protagonista cada vez mais tentado para a escuridão e infelicidade – isso é muito bem justificado na história.

Com começo e miolo praticamente sem falas devido à falta de humanos e de outros símios que conseguem se comunicar verbalmente – apenas César fala perfeitamente e Bad Ape constrói algumas frases, resta ao final a maior quantidade de bons diálogos. É nele que temos enfim a apresentação do antagonista principal, o Coronel interpretado no tom certo por Woody Harrelson.

Aliás, essa é uma das grandes marcas do roteiro de Guerra: o núcleo humano apenas no tempo necessário. Isso é um grande acerto. Mesmo gostando dos personagens de Confronto, muitas vezes o filme caia em clichês típicos para provocar tensão. Agora com um mundo muito mais deserto, selvagem e sem leis, o personagem do Coronel e sua tirania caem como uma luva. Em apenas uma cena, Reeves e Bomback conseguem delinear todo um passado crível, estabelecer uma nova ameaça, motivar genuinamente o vilão, além de sugerir uma enorme subversão de expectativa – um pedigree dessa franquia. Ao fim, o terceiro inteiro torna-se outra alegoria bebendo na fonte bíblica do Livro de Êxodo. Sim, é sensacional a esse ponto.

A Consagração de um novo Mestre

A trajetória profissional de Matt Reeves é inspiradora. Mesmo fracassando horrivelmente em sua estreia na comédia romântica O Primeiro Amor de um Homem, Reeves não se deu por vencido. Ainda orbitou a indústria dirigindo pouquíssimos episódios de seriados. O ponto da virada foi mesmo com Felicity, seriado que criou com o amigo J.J. Abrams em 1998. Bom, na verdade seria a origem do ponto da virada.

Com o parceiro J.J. Abrams crescendo na indústria com sua produtora Bad Robot, Reeves viu a chance de ouro bater à sua porta quando convidado para dirigir o ótimo Cloverfield: Monstro em 2008. Com o sucesso do found footage, não demorou nada para ser convidado a um novo projeto de terror: Deixe-Me Entrar em 2010, remake do sueco sensação Deixe Ela Entrar.

Novamente, outro filmaço. Somente em 2014 que teríamos um novo filme do curioso diretor: sua primeira incursão na franquia Planeta dos Macacos. Como um bom amigo sempre fala, o segredo da boa direção está no planejamento. E isso leva muito tempo. Consequentemente, por filmar muito pouco, Reeves tem um aproveitamento invejável se colocarmos seus longas na balança.

Com 3 anos de hiato, a aguardada consagração vem com a obra-prima que é a parte final dessa trilogia. Reeves caminha na contramão das tendências estilísticas adotadas por inúmeros diretores de blockbusters de verão. Guerra tem toda a roupagem de um filme do Cinema Clássico, mas com um ritmo de narrativa mais acostumado a filmes indies e, talvez, até arthouses. Mas não se engane, ainda se trata da boa e velha narrativa clássica, mesmo que bastante calada.

O trabalho de câmera é sucinto, opta sempre por grandes profundidades de campo – menos em cenas tensas nas quais o grupo passa por algum perigo, movimentos lentos, passagens de foco elegantes. É a direção spielbergiana Chapman crane que tanta gente adora. Com tudo tão elegante e poderoso, o magnetismo visual da obra e tremendo mesmo sem recorrer a contrastes coloridos saturados. Saímos do verde para o ocre terminando com o branco azulado de um inverno deprimente ao longo de toda a viagem com César.

Tudo isso é o visual contando uma história por si só. Para delinear o ódio de César com o Coronel, temos o primeiro encontro poderosíssimo dessas duas figuras. Ali, é explicita a homenagem de Reeves ao cinema western e samurai com os enquadramentos dos olhos de ambas as figuras preenchendo toda a tela. O ódio pulsa e a montagem responde com trocas lógicas de planos estabelecendo uma estrutura clássica dos impasses entre o herói e o opressor nos duelos finais de tantos faroestes americanos. Evidentemente, por essa situação acontecer no início do filme, há essa subversão do próprio uso da linguagem. É belo.

Outro ponto que entre em força plena durante a viagem é o olhar do cineasta para conferir o realismo de um mundo humano que já virara história. O cenário pós-apocalíptico entra no embate clássico de civilização vs. natureza com esta já conquistando e enterrando tudo o que o homem já amou um dia. São pinceladas inorgânicas dentro de uma paisagem exuberante que só afirmam o quão desconexo é o homem perante esse ponto sem volta. Isso rende imagens melancólicas, mas profundamente belas que tocam o nível de reflexão sem precisar proferir palavra alguma. É a valorização do sentido mais valioso do Cinema: a visão.

E isso é afirmado por sucessivas vezes pelo diretor. O olhar é sempre muito valorizado como já dito pelo jogo de plano/contraplano com César e o Coronel. O outro momento desse tipo é justamente o oposto do mencionado focado em ódio. Neste, com Maurice conquistando a confiança da menininha amedrontada. São olhares que começam discrepantes: um de curiosidade e outro de medo. Mas que, aos poucos, se alinham até atingir olhares de compaixão e confiança.

É por conta justamente dessa transmissão tão pura de sentimentos que também se deve muitos parabéns para a Weta que se superou com o trabalho de animação e texturas para os macacos. Há sim momentos de CGI medíocre, mas em grande maioria, a riqueza de detalhes deixa qualquer um embasbacado.

Há mais por trás da direção de Reeves que merece ser levantado sim, mas isso toca o cerne dos spoilers da obra. Uma das coisas mais legais de ver, é a valorização do trabalho de iluminação a ponto de fazer parte de uma das sequências-chave da obra tornando a fotografia uma peça ativa da narrativa – isso é algo que Reeves preserva desde Cloverfield.

Algo também bastante clássico na sua encenação é o uso da trilha musical soberba de Michal Giacchino que merece uma indicação ao Oscar pelo trabalho. O uso de instrumentos de percussão, obviamente, marca a trilha inteira, porém, além de preencher o vazio deixado pelos poucos diálogos, a música pontua a encenação.

Geralmente, isso é visto com maus olhos pela crítica, pois se trata de uma guia muito poderosa de sentimentos. Mas nem com isso é possível criticar a fantástica direção de Matt Reeves. Tudo ocorre de modo muito orgânico e, quando acontece explicitamente, você já está tão mergulhado na obra que praticamente não se importa.

Experiência Cinematográfica

A experiência de imersão cinematográfica mais competente do ano até agora está centrada nesse excelente filme. Planeta dos Macacos: A Guerra já se trata de uma das obras marco já trazidas pelo blockbuster americano. Com proposta bem interessante, narrativa corajosa, ritmo contemplativo e subversão de expectativas enraizadas por grandes produções menos audaciosas, Guerra triunfa em todos os sentidos. Mas o principal vencedor, como em todo grande filme, é o espectador.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, EUA – 2017)

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, Mark Bomback
Elenco: Andy Serkis, Toby Kebbell, Judy Greer, Woody Harrelson, Steve Zahn, Ty Olsson, Amiah Miller, Karin Konoval
Gênero: Ficção Científica, Drama, Thriller
Duração: 130 minutos

 

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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