Retratado das mais variadas formas, com viés trágico como em Romeu e Julietaou através de abordagens mais otimistas, como as muitas comédias românticas, que por tanto tempo dominaram Hollywood, o amor sempre foi e sempre será um objeto de estudo e contemplação da arte – afinal, o que, senão o amor, pode, de fato, preencher o ser humano? Não me refiro ao sentido mais clássico do sentimento, claro, já que ele pode assumir diversas formas, indo desde a paixão ardente, que gera verdadeiras faíscas, passando pelo velho carinho em relação a alguém realmente especial, até o amor por ideias ou sonhos ainda não realizados. Essas diferentes manifestações desse poderoso sentimento é o que forma Simplesmente Amor, obra que captura, como poucas outras, a essência do que é amar.

O longa escrito e dirigido por Richard Curtis, no entanto, não se resume apenas a uma comédia romântica sobre o amor em si – trata-se de uma obra que abre o diálogo entre o amor e o Natal, unindo esses dois conceitos através de uma narrativa bastante otimista, que serve para nos lembrar que essa data não se limita à comemoração de um evento cristão e sim representa a possibilidade de deixarmos de lado toda a raiva, ou qualquer outro sentimento ruim, substituindo-os pelo que há de mais genuíno no ser humano e que, enfim, nos define como tal. Afinal, como dito nos minutos iniciais:

“Dizem que vivemos em um mundo de ódio e ganância, mas eu não vejo assim. Me parece que o amor está em toda parte, às vezes sem dignidade ou desinteressante, mas está sempre lá. Pais e filhos, mães e filhas, maridos e esposas, namorados e namoradas, velhos amigos. Quando os aviões bateram nas torres gêmeas, até onde eu saiba nenhuma das ligações dos passageiros eram mensagens de ódio ou vingança, eram todas mensagens de amor. Se você procurar, tenho um leve pressentimento que você descobrirá que o amor na verdade… está por toda parte.”

 

O amor está em toda parte

De imediato, Richard Curtis apresenta a ousadia de seu roteiro: contar nove histórias distintas, pulando de personagem em personagem, todos os quais são conectados de alguma forma – seja por amizade, família ou trabalho. Naturalmente que cada uma dessas subtramas dialogam entre si pela temática do amor e Natal e Curtis deixa bem claro a presença de inúmeras rimas narrativas, que mantém o ritmo de maneira bastante linear, com atos bem definidos e um clímax formado por todas as histórias em conjunto. A beleza do texto, porém, não está em sua construção, que é bastante burocrática – chegaremos nisso mais adiante – e sim em sua abordagem, que explora diferentes tipos de amor, todos, por si só, completamente genuínos. Isso tudo, ao longo das semanas que levam até o dia 25 de dezembro.

Simplesmente Amor está longe de ser o filme perfeito, ou até de representar a melhor obra natalina, mas o delicioso otimismo de sua narrativa é mais do que capaz de nos fazer relevar seus deslizes – seja pelos esforços de seu estelar elenco, ou pelo roteiro que não abre brechas para que sua paixão se deixe esvair.

Descompromissado, apesar da ousada proposta em dividir em tantos núcleos a história, o longa não se dedica totalmente à verossimilhança, mantendo o realismo apenas nos sentimentos existentes entre cada personagem e na forma como o amor se apresenta nas suas mais variadas formas – todo o resto é fantasia, desde as bem-humoradas performances e entrevistas de Billy Mack (Bill Nighy), até a apaixonante relação de pai e filho de Daniel (Liam Neeson) e Sam (Thomas Brodie-Sangster).

É a pluralidade de tais histórias que torna tal obra tão universal, sendo capaz de atingir desde o espectador mais jovem – apaixonado e sonhador como o pequeno Sam ou Colin (Kris Marshall) – até os mais sisudos, que já se dedicam a uma relação há anos e anos ou que foram profundamente machucados pelo amor, como Jamie (Colin Firth) e Karen (Emma Thompson). Mais do que isso, o longa faz questão de mostrar diferentes classes sociais, na concretizada esperança de mostrar que, para o amor, isso, de fato, não faz a menor diferença.

Tudo que você precisa é amor

Inicialmente, em diferentes momentos de suas vidas e situações, encontramos nossos personagens centrais. Cada um deles passando por algum problema emocional diferente. Como dito anteriormente, a rima entre cada núcleo é evidente e tais subtramas seguem de mãos dadas, apresentando a problemática central de cada uma, apresentando a possível solução, a pedra no meio do caminho e, enfim, o final feliz (ou perto disso).

Todo o otimismo presente na trama, contudo, não implica que há falta de maturidade na fita – muito pelo contrário. Embora certos arcos sejam claramente mais virados para a descompromissada fantasia, outros mais se aproximam da vida como ela é. Bom exemplo disso é a traição de Harry (vivido pelo saudoso Alan Rickman), ou a paixão secreta de Mark (Andrew Lincoln). No primeiro núcleo vemos uma abordagem bastante realista de relacionamentos  de anos e anos, mostrando o quão fácil é jogar tudo para o alto, desistindo daquele que o acompanhou por toda a vida. De maneira bastante clara, Richard Curtis evidencia que o casamento, ou união estável, requer dedicação, visto que as muitas tentações continuam lá, sendo essencial o diálogo e o reconhecimento do que efetivamente é importante. Para isso, Curtis não julga as ações de Harry, deixa isso a cargo do espectador, desmistificando a figura da traição como algo monstruoso, a favor da realidade: uma ação capaz de magoar profundamente aqueles que amamos.

Já Mark, apaixonado pela mulher de seu melhor amigo – a velha história já contada inúmeras vezes – é outra figura em profundo sofrimento. De forma silenciosa, Andrew Lincoln (o Rick de The Walking Dead) dá vida a esse homem que busca enterrar seus sentimentos, demonstrando, da forma bastante simples, o respeito que nutre pelo seu amigo, a tal ponto que o desenvolvimento desse arco não apaga esse companheirismo – suas ações, já próximas do fim do filme, são retratadas como um grande desabafo, de alguém que necessitava tirar isso do peito a fim de seguir adiante. Lincoln entrega, certamente, o melhor de si e, com isso, nos proporciona uma das melhores sequências da fita, dialogando imediatamente com todos aqueles incapazes ou impossibilitados de expressarem o que sentem, afinal, nem sempre é tão simples quanto dizer “eu te amo”.

Não podemos esquecer, claro, de Daniel e Sam, cuja trajetória consiste na superação da perda, com ambos em luto pela morte da esposa/mãe, porém sem excessos de melodramas – aliás, o texto de Curtis, surpreendentemente, dispensa tais exageros. Sem dúvidas um dos arcos mais calorosos da obra, a aproximação do padrasto com seu afilhado demonstra o poder do suporte nessas horas, utilizando, claro,  a paixão do menino como força motriz da narrativa. Ambos são “parceiros no crime” em uma história que também exibe bastante maturidade, ao passo que Daniel reconhece a dor do jovem, sempre se colocando à disposição quando necessário, entendendo desde suas desilusões amorosas, até seus incessantes treinos na bateria. Dessa forma é estabelecido o amor familiar, que independe de laços de sangue.

Isso, naturalmente, é estendido para as subtramas de Billy e de Sarah (Laura Linney), na primeira com o astro do rock reconhecendo seu produtor como “amor de sua vida” e na segunda com a irmã se colocando à disposição de seu irmão, mesmo quando está junto de seu amor platônico de muitos anos. A mensagem natalina, novamente, retorna com toda a força nesses dois lados da história – realçando a importância de deixarmos de lado o individualismo, a fim de ajudar quem realmente precisa. A velha temática de reconhecer o que, de fato, importa, claro, se faz presente – é provado, com toda a clareza do mundo, que o que mais importa, nem sempre, é o que soa mais atraente. Curtis, nessa sua mensagem, acerta em cheio.

Aliás, já falando de aparência, é importante notar como a maior parte das relações amorosas da obra se resume meramente à atração física e as que assim se configuram são justamente as que não dão em nada, como é o caso das histórias de Harry com sua funcionária, ou Sarah e o designer vivido por Rodrigo Santoro. Mais importante que beleza é como um se sente em relação ao outro, sentimentos de paz e cumplicidade surgindo nas horas mais inesperadas – vide Jamie (Colin Firth) e Aurélia (Lúcia Moniz), que mesmo sem conseguirem transmitir uma mensagem um para o outro acabam se apaixonando, tamanha a força do simples “se sentir à vontade”. Evidente que Jamie estava emocionalmente abalado pela traição de sua namorada (com seu irmão, ainda por cima), mas o texto dispensa possíveis interpretações de que isso pode ser o velho “fogo de palha” através do tempo que o personagem se dedica para aprender português (aliás, esse núcleo se torna especialmente cômico para nós que falamos tal idioma) e ela, por sua vez, inglês. Com isso, a obra demonstra bem claramente que, muitas vezes, não é preciso muita coisa para gerar aquela faísca entre duas pessoas.

O que acaba se apresentando, também, no núcleo do primeiro ministro, interpretado por Hugh Grant, que demonstra perfeitamente o quanto seu personagem não está habituado com toda aquela pompa e circunstância. Sua atração imediata por Natalie (Martine McCutcheon) é, portanto, justificada, visto que ela claramente quebra todo aquele opressor decoro, formalidade, de Downing Street. O ministro tem, através dela, a possibilidade de estar à vontade, algo que, claro, somente conquista nos minutos finais, após ser revelado da maneira menos sutil possível, para nossa surpresa e alívio cômico – não que o longa careça disso, já que Bill Nighy em sua brilhante interpretação do rock star garante tais alívios de sobra, ao lado de outros momentos que completamente quebram a nossa expectativa.

O problema do amor é

Como dito antes, no entanto, Simplesmente Amor está longe de ser um filme perfeito. Seus problemas consistem basicamente em questões estruturais da narrativa, do que dentro das histórias em si. Mais notavelmente é a presença de arcos em excesso, alguns quase que completamente desconexos do restante da trama geral, como é o caso dos personagens John (Martin Freeman) e Colin. Claro que, como falado anteriormente, eles ajudam a compor a pluralidade da obra, mas acabam dilatando a projeção por mais tempo que deveria, fazendo com que ela atinja cansativos 135 minutos – extensão essa que conseguimos sentir claramente. Certamente, com bons vinte minutos a menos, o longa funcionaria muito melhor.

Felizmente, a montagem de Nick Moore, que inicia de maneira bastante burocrática, aprende, ao longo do filme, a dispor cada sequência como deve, sabendo trabalhar certos focos por mais tempo em certos trechos, enquanto outros são encurtados a fim de manter a fluidez narrativa. Nossa percepção da obra como algo maior do que deveria ser permanece, mas, felizmente, nossa atenção é recobrada constantemente, fruto, também, claro, do trabalho de todo o elenco, que, em momento algum, desaponta.

Não podemos descartar, também, a certeira trilha sonora original de Craig Armstrong, que acerta nos tons intimistas quando necessário, mas sabe explorar o teor épico de determinados núcleos, especialmente quando nos aproximamos do clímax. PM’s Love Theme é um bom exemplo, capturando toda a ansiedade gerada pela paixão, enquanto realça o espírito natalino, tão importante para a mensagem que o longa-metragem busca transmitir. Naturalmente que as canções licenciadas não devem ser ignoradas, afinal, a versão de Love is All Around , cantada por Bill Nighy (substituindo o “Love” por “Christmas”) é um dos pontos altos da obra.

Tudo o que eu quero neste natal é você

No fim, o que permanece conosco ao término da projeção, portanto, não é o sentimento de cansaço, ou a percepção de que alguns arcos poderiam ter sido cortados e sim o espírito passado pela obra, que capta perfeitamente a atmosfera proporcionada pelo amor, que tão bem se enquadra com o verdadeiro sentido do Natal, que vai muito além de presentes, comida e afins – o sentido do Natal, por si só, é o próprio amor.

Com elenco de peso, todos dando o máximo de si e histórias que dialogam entre si, seja através da conexão entre os personagens, ou pelas situações pelas quais passam, esse longa de Richard Curtis foi feito na medida para alegrar esses tempos de festa, nos remetendo à narração do início do filme: “Se você procurar, tenho um leve pressentimento que você descobrirá que o amor na verdade… está por toda parte.”

Simplesmente Amor termina, pois, como um bom relacionamento acaba – ele pode ter seus momentos ruins e momentos cansativos, mas nos deixa, principalmente, com boas memórias e essas sim se destacam acima das outras, permanecendo apenas o carinho por algo que claramente acabou nos fazendo bem, afinal, o propósito do amor é o amor em si.

Simplesmente Amor (Love Actually – Reino Unido/ EUA/ França, 2003)

Direção: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Hugh Grant, Martine McCutcheon, Liam Neeson, Bill Nighy, Gregor Fisher, Colin Firth, Emma Thompson, Kris Marshall, Heike Makatsch, Martin Freeman, Joanna Page, Chiwetel Ejiofor, Andrew Lincoln, Keira Knightley, Laura Linney, Thomas Brodie-Sangster, Alan Rickman, Rodrigo Santoro, Billy Bob Thornton, Rowan Atkinson, January Jones, Elisha Cuthbert
Gênero: Comédia romântica
Duração: 135 min.