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Crítica | Tenet – A guerra quântica de Christopher Nolan

Não é preciso ir muito a fundo na carreira de Christopher Nolan para perceber que todos os seus filmes parecem explorar variações do mesmo tema: o tempo. Seja nos elementos do roteiro ou na forma como as ferramentas do Cinema são capazes de explorar essas facetas: a dilatação temporal dos sonhos em A Origem, o uso da relatividade do tempo para explorar narrativas em Interestelar, a estrutura peculiar dos pontos de vista aos eventos de Dunkirk e o próprio uso intenso da montagem paralela na trilogia Cavaleiro das Trevas.

Com seu mais novo filme de ficção científica original, Tenet, Nolan volta a uma das primeiras imagens de sua filmografia: a cena invertida onde Guy Pearce revela uma fotografia “ao contrário” em Amnésia, um dispositivo que se torna parte central do roteiro de seu novo filme, que – representando perfeitamente a trajetória do cineasta britânico em Hollywood – transporta um conceito rebuscado para um cenário de blockbuster grandiloquente. E o resultado é bem positivo.

A trama nos apresenta ao misterioso Protagonista (John David Washington), um agente da CIA que é recrutado por uma agência nebulosa que pretende evitar a Terceira Guerra Mundial. Ao lado do carismático Neil (Robert Pattinson), o Protagonista usa de uma tecnologia de inversão temporal complexa para se aproximar de um comerciantes de armas russo (Kenneth Branagh), figura diretamente ligada com essa ameaça quântica.

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No atual cenário de Hollywood, não há nenhum nome como o de Christopher Nolan. É o único cineasta capaz de vender um projeto apenas com a força de seu nome, e trata-se justamente um diretor capaz de atingir as grandes massas e provocar um impacto cultural, e ainda fazendo-o com algo cada vez mais raro na indústria: roteiros originais, que não são baseados em nenhuma propriedade existente. Tenet é mais um exemplo sólido desse tipo de cinema, e agora abordando outra grande paixão do cineasta: os filmes de James Bond.

Por mais que Tenet esteja sendo vendido em cima de seu artifício temporal, e que naturalmente nos faz associá-lo ao nome de Nolan, grande porção de sua narrativa são dedicadas a um filme de espionagem raiz. Diversos “tropes” do gênero, como a atenção aos ternos charmosos, a aproximação do agente com a esposa do vilão (aqui, a deslumbrante Elizabeth Debicki) e toda uma porção da narrativa onde o Protagonista precisa agir como um infiltrado. É uma fórmula funcional (principalmente pelo charme e presença de John David Washington) e que, novamente, demonstra que Nolan está doido para dirigir um filme da franquia 007, mas aqui também herda o “plano maquiavélico” de vilão que assombrou a maior parte dos filmes de Bond, e que soa um tanto cartunesco aqui, apesar da força berrante de Branagh no papel antagonista.

Isso também garante um direcionamento aparentemente simples da história, mas assim que Tenet começa a mergulhar em seus elementos de ficção científica, levando a uma virada chave na metade da projeção, é quando realmente temos o “filme de espião de Christopher Nolan”, onde a paciência e concentração do espectador serão testadas o tempo todo, em uma garantia de gerar artigos e posts do tipo “final explicado” por toda a internet. Mas, sinceramente, esse é um daqueles filmes que realmente precisa de uma revisita para ter todo o seu conteúdo absorvido.

 

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Em um nível técnico, temos mais uma adição exemplar à carreira de Christopher Nolan. Todas as cenas de ação têm um caráter realista e palpável, sem qualquer resquício aparente de computação gráfica, optando por acrobacias impressionantes envolvendo “saltos invertidos” de prédios, perseguições de carro alucinantes e a espetacular batida de um gigantesco avião 747 em um hangar. Tudo captado pelas câmeras IMAX, que o fotógrafo Hoyte Van Hoytema aproveita para criar belíssimas imagens – com uma paleta muito mais saturada e quente do que estamos acostumados a ver nos filmes do Nolan, uma decisão acertada pelo caráter nuclear da trama.

O grande efeito visual é mesmo o efeito de “inversão” da imagem, algo que literalmente qualquer um é capaz de fazer em um programa edição de vídeo simples ou até mesmo um smartphone, mas que é usado com uma invejável criatividade nas cenas de ação. O momento em que Washington enfrenta um inimigo misterioso que defere todos os seus golpes com a entropia invertida garante um misto de estranheza e até amedrontamento, ao passo em que Nolan testa os limites da temperatura do seu cérebro ao montar o palco para uma grande sequência envolvendo dois times atuando em direções temporais opostas – ao mesmo tempo. São trucagens aparentemente simples, mas que com certeza oferecem um deleite visual incomparável.

Porém, Tenet traz duas mudanças significativas no “time Nolan”, já que dois de seus mais importantes colaboradores não estão presentes. Ocupado com o trabalho nos vindouros Duna e Mulher-Maravilha 1984, o compositor Hans Zimmer não pôde oferecer sua barulheira para o thriller de espionagem, passando a função para as mãos mais do que capazes de Ludwig Goransson, oscarizado por Pantera Negra. A troca dá certo, já que Goransson traz todas as batidas e percussões ritmadas com as quais Nolan sempre preenche sua atmosfera sonora, mas acrescentando um trap eletrônico vibrante e até mesmo uma canção de rap do artista Travis Scott.

A outra mudança na estrutura é mais sentida, e talvez seja a falha mais grave de Tenet: a montagem. Sai Lee Smith (que na época estava ocupado com 1917, um filme que ironicamente esconde seus cortes) e entra a talentosa Jennifer Lame (que realiza um trabalho fantástico no terror Hereditário), mas que nitidamente tem problemas em organizar o liquidificador temporal da trama. As sequências de ação em montagem paralela estão aqui como sempre, mas dada a complexidade de alguns conceitos (como a pinça temporal descrita acima), é muito fácil se perder em meio às múltiplas informações, personagens e narrativas correndo em paralelo – tudo com uma grande trilha sonora valorizada pela mixagem de som.

Palíndromos

Obviamente, o lançamento de Tenet vem carregado com um gigante asterisco: é um dos únicos filmes grandes que realmente foram lançados no cinema durante a pandemia do COVID-19. Uma aposta arriscada e que certamente vai limitar o potencial de sua experiência, além dos lucros da Warner Bros, o que é uma pena. Tenet é um daqueles filmes que, como foi A Origem em 2010, merecia um aproveitamento coletivo e embasbacador, gerando teorias e discussões produtivas sobre os poderes da história.

Para ser descoberto e redescoberto incontáveis vezes.

Tenet (EUA, Reino Unido – 2020)

Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: John David Washington, Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Kenneth Branagh, Aaron Taylor-Johnson, Clémence Poesy, Himesh Patel, Dimple Kapadia, Michael Caine
Gênero: Ação, Ficção Científica
Duração: 150 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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