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Catálogo

Crítica | Thor leva Mitologia Nórdica à Marvel Studios

Puny Gods.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
29 de junho de 2022 · 10 min de leitura
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Thor nunca foi um herói popular do universo dos quadrinhos no Brasil. Saiu com pouco destaque, quase nunca chamando atenção como o Homem-Aranha ou os X-Men. Em 2008, esse panorama mudou – Homem de Ferro fez um tremendo sucesso em crítica e público agradando todas as audiências. Downey Jr. proporcionou um carisma impressionante colocando a popularidade de Tony Stark em alta. A espera era grande e a curiosidade também a respeito da adaptação cinematográfica sobre o deus nórdico, mas ela finalmente acabou. Novamente o cinema fez um milagre com outro herói coadjuvante da Marvel.

Odin é o governante supremo de Asgard, um reino distante de Midgard – mais conhecida como Terra. Ele tem dois filhos, Loki e Thor. Um deles se tornará Rei desta terra mítica e mágica. Ambos crescem, um assume a mentira como melhor amiga enquanto o outro prefere a arrogância e o orgulho. Após uma série de problemas na terra dos Gigantes de Gelo, um povo que possui apatia com os asgardianos, Odin bane Thor de Asgard para que ele aprenda uma lição valiosa na Terra e que aprenda a ser humilde. Só assim Thor poderá assumir o trono e empunhar novamente a arma perfeita de seu povo, o Mjolnir.

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A Bifrost do cinema com os quadrinhos    

O roteiro de Ashley Miller, Zack Stentz e Don Payne segue uma linha narrativa muito parecida com a de Homem de Ferro jogando o personagem em uma confusão no início depois o apresentando para o público por meio de um longo flashback para então seguir a narrativa normalmente. O flashback é a melhor parte do roteiro mostrando a complexa e perturbada relação familiar do triangulo Thor, Loki e Odin, além de desenvolver muito bem seus personagens. Tudo é muito shakespeariano nos problemas da família de Thor e é aqui onde a escrita da história ganha seu mérito nunca desmerecendo o romancista inglês.

Portanto todo o segmento “asgardiano” de longe é o mais interessante, mas o mundo onde ele se passa é pouquíssimo desenvolvido e, portanto decepcionante. Ou seja, nunca o espectador realmente conhece Asgard, nem seu povo tampouco sua cultura e costumes. Quando, finalmente, o publico acompanha Thor na Terra, o roteiro começa a revelar seus sinais de esgotamento. O ato é extremamente rápido e minimamente desenvolvido sem atingir a importância que tinha para a narrativa.

É exatamente nesse momento em que Thor aprende uma lição valiosa e ganha a humildade. Porém, isso acontece de forma tão despreparada e ridícula que fica dificil tolerar o rápido aprendizado e fascínio do herói com os humanos. O ato somente se salva graças as piadinhas inteligentes sobre a adaptação do protagonista no estranho meio terrestre e as inúmeras referencias ao universo Marvel citando Hulk, Tony Stark e uma fantástica apresentação especial de Jeremy Renner como Gavião Arqueiro. E, claro, a sempre memorável participação de Stan Lee. Outra referencia que merece destaque é a semelhança entre a narrativa do Mjolnir – martelo de Thor – com a lendária espada do Rei Arthur.

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Outra coisa desagradável no ato que se passa na Terra é o imenso destaque que o roteiro proporciona ao par amoroso de Thor, Jane Foster. Mesmo com todo ar shakespeariano, a narrativa não consegue escapar da previsibilidade – um mal de nosso tempo. Apesar destes incômodos, o roteiro consegue surpreender com a evolução de Loki durante o longa. Ele é um dos poucos vilões que tem motivos coerentes para realizar seus atos malévolos. Assim, nunca assume diretamente o posto de antagonista detestável visto que o espectador compreende muito bem as causas que levaram o rico personagem optar pelo “mal” – esta característica é muito subjetiva na profundidade do psicológico de Loki.

Oscarizados        

O elenco do filme é de peso e tem qualidade. Chris Hemsworth proporciona um carisma muito bom ao seu Thor. O sotaque inglês arcaico criado por ele também é muito interessante de se ouvir. Além disso, suas expressões faciais de ira e ódio são muito semelhantes àquelas que se imagina quando um deus nórdico está furioso. Destaque para as proezas acrobáticas que realiza nas seletas cenas de ação. Com gestos rudes e pesados, Hemsworth consegue passar a figura de machão arrogante do personagem. Às vezes, sua atuação consegue gerar uma dramaticidade – leia-se aqui no sentido trágico – fora do comum.

Anthony Hopkins é uma surpresa neste filme. Sua atuação como Odin é memorável graças a sua pose de soberania e realeza que lhe caiu muito bem. A dicção e a entonação de sua fala são notáveis, principalmente na cena em que o conflito entre ele e Thor fica intenso. Tom Hiddleston consegue deixar Loki num patamar incrível. Sua atuação é de longe a mais profunda e complexa conseguindo superar o desafio proposto pelo roteiro, o de criar um psicológico completamente diferente com o qual estamos acostumados a ver. Sua escolha de ignorar o lado caricato e ridículo de Loki deu uma dimensão inigualável a seu quieto e sereno vilão.

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Houve muito barulho antes mesmo do filme estrear por causa da participação de Natalie Portman no filme. A verdade nua e crua é que não há nada de maravilhoso, impactante e revolucionário em sua atuação. Ela apenas fez o dever de casa, ou seja, é uma atuação aceitável nunca chegando a ser ruim. Kat Dennings dá um novo sentido de personagem apêndice neste filme. Ela é simplesmente um alívio cômico desesperado e irritante do roteiro. Idris Elba incorpora perfeitamente Heimdall, um dos personagens mais interessantes do filme. Ray Stevenson, Josh Dallas, Jaimie Alexander e Tadanobu Asano caem muito bem no papel de “quarteto fantástico” da mitologia nórdica.

Rene Russo não tem tempo em tela para mostrar sua personagem. Clark Gregg retorna como o divertido Agente Coulson. Stellan Skarsgard e Colm Feore completam o elenco.

Uma fotografia digna de heróis

A fotografia de Haris Zambarloukos consegue quebrar a barreira da mesmice visual de vários filmes sobre super-heróis. A esperta escolha de utilizar tons azuis esverdeados pálidos em Jotunheim ajuda a contextualizar o frio, a solidão e a crueldade marcada pela população. Aqui, os planos são bem abertos distanciando os personagens do espectador permitindo uma maior dimensão da hostilidade e do perigo iminente do local.  Já em Asgard, ocorre uma súbita mudança em sua palheta de cores. Lá, sua iluminação assume um tom amarelo forte que fortalece a ideia de conforto sobre a família real de Thor. Todos os planos são próximos aos personagens para devolver a sensação de segurança e invulnerabilidade.

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Haris também aproveita várias cartas que todo cinegrafista tem direito de usar em qualquer filme. Utiliza reflexos e a nevoa com muita habilidade garantindo efeitos bem legais de se ver. Fora isso, a chuva é muito importante na dramaticidade que tenta transmitir para a plateia. Este elemento misturado com uma contraluz bem expressiva ajudou, e muito, a melhorar o momento impar da atuação de Hemsworth. Zambarloukos também tem a mania de filmar várias tomadas com o chamado “plano holandês” – aquele que a imagem fica tombada na diagonal. Esse efeito é muito utilizado em filmes de terror para passar a impressão de desconforto. Entretanto, a repetição exagerada (75% do filme é filmado na diagonal) acaba pondo em cheque a escolha de usar este recurso estilístico.

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Os efeitos visuais do filme são soberbos. A concepção visual da cidade de Asgard ficou estonteante e se assemelha muito com os desenhos originais de Jack Kirby na década de 60 – Kirby foi o primeiro desenhista dos quadrinhos de Thor. Toda a destruição causada por Thor em Jotunheim é detalhada minuciosamente, praticamente perfeita. Entretanto, bem no inicio do filme, os animadores de CG deram um vacilo tremendo – é possível ver muito bem as camadas que compõem as nuvens que ficam abaixo da ponte Bifrost (também muito bem feita). Destaque para a animação do Destroyer.

A direção de arte estava inspirada enquanto compunha os vários cenários de Asgard sempre muito belos, dourados e gigantescos. Os figurinistas fizeram algo que eu julgava impossível, transformar a roupa de Thor em algo apresentável. Sabiamente, abandonaram o elmo brega do herói e colocaram mangas estilizadas em seu uniforme. O visual da roupa de Loki, Heimdall e Odin também não desaponta. As únicas peças que ficaram feias foram satirizadas pelo próprio roteiro na melhor piada do filme.

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Um herói sem tema

Patrick Doyle é o compositor da trilha original do filme e, infelizmente, a história se repete – Thor não ganhou um tema musical expressivo como o de Homem-Aranha ou Batman. Mas isto não quer dizer que a musica da obra é ruim, muito pelo contrário, é ótima! Todas as composições tem um tom épico e magistral que levam de vez em quando o animo do espectador as alturas. É incrível perceber que todas as músicas casam perfeitamente com as cenas em que foram inseridas – isso é bem difícil de encontrar atualmente.

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Muitas composições são carregadas de sentimentalismo, mas aqui não é algo ruim visto que o feeling que o compositor dedicou a elas é bem perceptível. Tentam emocionar o espectador, mas o máximo que conseguem é deixá-lo completamente imerso no filme. Os efeitos sonoros também são um espetáculo a parte e um show para seus ouvidos. Destaques para toda a barulhenta destruição de Destroyer e a sonoplastia do observatório de Heimdall.

Thor, ser ou não ser?         

Kenneth Branagh é o melhor diretor sobre Shakespeare da atualidade. Trabalhou em várias peças de teatro, já foi indicado ao Oscar como melhor ator e diretor na mesma película e atuou em vários filmes. Por exemplo, quando encarnou Gilderoy Lockhart em “Harry Potter e a Câmara Secreta”. Sua escolha como diretor do filme gerou uma polemica grande entre os fãs do herói nórdico, mas revelou-se na melhor escolha já feita pelos produtores da Marvel.

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Branagh valoriza muito a atuação – ele é responsável por todo ar de tragédia shakespeariana do filme. Então, já era de se esperar que o teatro clássico estivesse muito presente no set. Todo o segmento asgardiano do filme é baseado nos princípios de atuação do teatro clássico. Repare atentamente na movimentação de Hopkins, de Helmsworth e de Hiddleston no cenário. Hiddleston também utiliza várias poses provenientes do teatro.

O diretor também soube conduzir muito bem as poucas cenas de ação do filme. Somente a cena da batalha de Jotunheim empolga. Já aviso que a luta de Thor com o Destroyer não é nada mais do que decepcionante devido a curta duração. Graças a sua direção, a relação familiar de Thor obteve muito destaque e foi bem trabalhada.

Outro aspecto que Branagh consegue delinear muito bem foi a distinção da ciência com a magia mitológica do universo peculiar desse herói. Os picos de humor e tragédia exagerada na narrativa também, é de sua autoria – novamente a teatralidade aparece na obra. Além disso, ele arrisca inserir alguns slow motions em algumas cenas de ação, mas eles pouco aparecem.

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Thor é um filme que agradará muita gente. A história é fiel a dos quadrinhos, mas pouco explorada. Não custava deixar o filme com uma metragem um pouco maior para dar mais profundidade no universo deste herói. A pressa é inimiga da perfeição. Ele poderia ter sido de longe o melhor filme de super-herois da Marvel, mas acabou ficando ligeiramente melhor que Homem de Ferro 2. Vale a pena conferir o filme. Ele tem qualidade, é divertido, musicalmente fantástico e acima de tudo, uma aula de atuação e de direção teatral. Mas não se esqueça de conferir ate o fim dos créditos. Samuel L. Jackson dará a sinopse de Os Vingadores de presente para você. E garanto que a euforia e a expectativa será imensa.

Thor (Idem, EUA – 2011)

Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz e Don Payne
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Rene Russo, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgard, Idris Elba, Kat Dennings, Clark Gregg, Jeremy Renner, Ray Stevenson, Josh Dallas, Jaimie Alexander, Tadanobu Asano
Gênero: Aventura, Ação, Comédia
Duração: 112 min

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Tags: #Anthony Hopkins #Chris Hemsworth #Kat Dennings #Kenneth Branagh #Natalie Portman #Stan Lee #Stellan Skarsgard #Thor #Tom Hiddleston
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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