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Crítica | A Trama – Um filme sem julgamentos prévios

A Trama, o novo longa-metragem de Laurent Cantet, podia facilmente desembocar nos julgamentos reducionistas e nas críticas histéricas.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
4 de novembro de 2017 · 3 min de leitura
Crítica | A Trama – Um filme sem julgamentos prévios

*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

A Trama, o novo longa-metragem de Laurent Cantet, podia facilmente desembocar nos julgamentos reducionistas e nas críticas histéricas. Abordando temas delicados, como imigração e a crise política europeia, a história tinha tudo para se juntar a tantas outras que enxergam situações complexas de uma maneira simplista e politicamente enviesada. No entanto, ao sentar e ouvir – literalmente – os conflitos internos de um garoto que seria ignorado por muitos e que, possivelmente, estaria do lado errado de algum ato violento, o diretor realizou uma obra madura, séria e profundamente otimista.

Para Cantet, é evidente que julgar prematuramente um sujeito por sua conduta e hostilidade é contribuir indiretamente para a sua perdição. Antoine (Matthieu Lucci), o protagonista, foi abandonado por todos: os pais desistiram de tentar compreendê-lo, o Estado delegou a responsabilidade a outros e os colegas da oficina de escrita criativa não enxergam nada além de um jovem raivoso, altamente propenso a passar os seus próximos anos dentro de uma prisão. A única que percebe as inúmeras vulnerabilidades por trás da postura defensiva é a escritora/professora Olivia Dejazet (Marina Foïs), uma mulher de meia-idade acostumada ao olhar empático e compreensivo.

Assim, será na dinâmica estabelecida entre os dois que passaremos a saber que, por motivos desconhecidos (pode ser algum trauma infantil, os conflitos inerentes à adolescência, opressão sexual ou a solidão inexplicável da existência humana), Antoine acumula uma dor que clama por se expressar. Durante um tempo, isso se deu através dos jogos de videogame (as cenas digitais recriam simbolicamente os sentimentos e parte da trajetória do protagonista). Posteriormente, ele começou a flertar com armas de fogo e discursos políticos extremos. Todavia, nada disso diz muito sobre a sua personalidade, uma vez que, no fundo, essas coisas são apenas formas de legitimar uma possível expiação violenta.

O fato de Cantet transmitir esse conteúdo denso sem nenhum julgamento e investindo em uma forte tensão sexual fascina ainda mais, além de ser um atestado de sua competência como realizador. Sob o comando de alguém menos talentoso, uma abordagem poderia diluir a outra, fazendo com que a mensagem de otimismo se perdesse diante das variações de gênero ou que estas se opusessem ao conteúdo. Sob a régia do experiente cineasta francês, se tornou uma experiência hipnótica, da qual é impossível desgrudar os olhos. Nem os falsos finais do último ato (são dois) conseguem diminuir o impacto deste filme.

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A Trama (L’atelier, França – 2017)

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Direção: Laurent Cantet
Roteiro: Laurent Cantet e Robin Campillo
Elenco: Marina Foïs, Matthieu Lucci, Florian Beaujean, Mamadou Doumbia, Mélissa Guilbert
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 113 min

Tags: #41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #Cinema #crítica #Filme
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