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O cinema norte-americano tem mostrado atualmente um grande interesse pelo período final da escravidão, durante o século XIX. Só prestar atenção que em menos de quatro anos foram feitos “Django Livre”, “Lincoln”, “12 Anos de Escravidão”, “O Nascimento de Uma Nação” e agora é lançado “Um Estado de Liberdade” (Free State of Jones).

Mesmo a qualidade dos filmes sendo questionáveis às vezes (Lincoln), são  importantes para retratar a crueldade desse período. Dito isso, “Um Estado de Liberdade”, novo trabalho de Gary Ross (“Jogos Vorazes” e “Alma de Herói”) conta uma história muito importante, mas que por conta de alguns problemas não consegue ter a força de “12 Anos de Escravidão” ou de “Django Livre”, mas não chega a ser um filme ruim.

Durante a Guerra Civil Americana, o soldado da Confederação, Newton “Newt” Knight (Mathew McCounaughey), decide fugir da batalha após a morte do seu sobrinho, que também era soldado. Ao se tornar um desertor, Knight se esconde das tropas do exército em um pântano e nesse lugar estão escondidos outros desertores e escravos fugitivos. Sendo assim o soldado acaba criando um grupo de resistência contra a Confederação e a escravidão, se intitulando como “Os Homens Livres do Condado de Jones”.

A história retratada é muito interessante e poderosa, mas o roteiro, que é assinado por Ross, peca ao tentar ser muito abrangente, principalmente no terceiro ato. Temos ótimos personagens que contém motivações coerentes, mas quando o roteiro tenta aumentar a relevância de algum personagem, como no caso de Moses (Mahersala Ali), o longa acaba ficando mais longo do que deveria, deixando-o até sem foco. Parece que no terceiro ato, Ross quer fazer um grande painel político e social do Sul dos Estados Unidos e isso acaba enfraquecendo o filme, mesmo falando de fatos muito relevantes como: o começo da Ku Klux Khan; que a escravidão não chegou ao fim, mesmo com Lincoln decretando o seu fim com a Décima Terceira Emenda em 1865; da primeira votação em que negros libertos tinham o direito votar, etc….

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Mesmo sendo temas que precisam ser contados, dá para perceber que não eram necessários para a narrativa e isso acaba cansando o espectador. Outro ponto em que o roteiro erra é na personagem de Keri Russel, que se torna uma personagem mal explicada e sem muita função na história.

Outro problema está na montagem, assinada pela dupla Pamela Martin e Juliette Welfling, que dá um ritmo inconstante ao longa. Quando o filme fica incessante nas sequências de batalha, ele se torna morno ao retratar ao mesmo tempo um julgamento com o neto de Knight, durante a década de 1860. Essas cenas do julgamento são uma barriga a mais para a narrativa e acaba estragando o ritmo, além de dizerem coisas que ainda acontecerão na primeira linha temporária, como deixar claro que Newt vai se apaixonar por uma escrava e terá um filho, quando o primeiro acaba de conhecer a amada. E a montagem também acaba sendo um dos elementos que atrapalham a resolução do terceiro ato.

Outro fator tão inconstante quanto à montagem é a fotografia feita por Benoít Delhomme, que muda de tom, pelo menos umas quatro vezes. Se fosse apenas durante as cenas do passado e do presente, faria mais sentido. Mas ela muda a quase todo o momento. No começo, quando Newt está em batalha é uma, quando ele volta é outro tom, quando está em ambientes externos é outro e se torna outro quando ele está no pântano com os seus homens. Acaba que a fotografia acaba não tendo uma coesão. Mais fica parecendo que ela quer dizer o que espectador quer sentir naquele momento. Um trabalho, no mínimo, esquisito.

Já o elenco merece elogios, pois todos fazem muito bem o seu trabalho. O ótimo Matthew McCounaghey que cria um homem íntegro, mas que nunca se torna um herói clichê. Newt se mostra um personagem que tem motivações compreensíveis, mas erra de vez em quando. Além do ator acertar ao criar um tom de voz que não soa heroico em momento algum e ter uma ótima presença junto com um grande carisma. Nunca pensaríamos que McCounaghey iria parar de fazer o galã de comédias românticas para se tornar um dos atores mais reconhecidos da atualidade. Outro destaque fica por Mahersala Ali, que cria Moses como um personagem admirável e amável. Outro personagem que poderia cair no clichê, mas o ator consegue criar um personagem muito interessante.

Já a direção de Gary Ross se mostra segura durante boa parte do filme. O que vale destacar é que como a sua direção vai se tornando mais sutil durante o longa. No começo, Ross se mostra visceral mostrando a crueldade da guerra, com soldados sendo mortos de maneira brutal. Mas ao decorrer do longa, vai ficando cada vez mais sutil, fazendo um trabalho muito clássico, mesmo que outras vezes opta ao utilizar a câmera na mão para deixar uma sensação de naturalismo. É um trabalho muito interessante e eficiente.

“Um Estados de Liberdade” poderia ser um grande filme sobre o assunto abordado, mas por conta de problemas de ritmo e na tentativa de ser mais abrangente do que deveria ser, ele se torna um longa cansativo mais para o final. Mesmo com ótimas atuações e uma história interessante e importante, fica a sensação que poderia ser um longa melhor. Mesmo compreendendo as boas intenções de Gary Ross, não dá para negar que temos um bom filme, mas que poderia ter sido muito mais.

 

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