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Crítica | Uma Rua Chamada Pecado – A Completa Destruição do Romance Hollywoodiano

STELLA!

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
8 de maio de 2018 · 8 min de leitura
Crítica | Uma Rua Chamada Pecado  – A Completa Destruição do Romance Hollywoodiano

Elia Kazan era um diretor intrinsecamente ligado ao sistema hollywoodiano. Entretanto, foi apenas em 1950 que conseguiu criar duas de suas maiores obras-primas: Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões. Apesar de serem filmes completamente opostos, os dois são bandeiras que refletem o estranho dessabor que a indústria passava em meados dos anos 1950.

Não é preciso vasculhar a fundo para qualquer leitor compreender o temor que os produtores estavam sentindo nessa pós-morte da Era de Ouro Hollywoodiana tanto pelos estragos da Segunda Guerra Mundial e também do papel político do Cinema dos anos 1940. Porém, pior ainda, era que nessa mesma década a indústria seria enfrentada por seu pior rival – uma crise que evolui até hoje: o surgimento da televisão.

Com o desafio de tirar as pessoas do conforto de seus lares, tiros foram disparados para todos os lados e no meio disso tudo, alguma liberdade criativa que permitia revoluções cadenciadas, também surgiu. Trazendo esse amargor interno de uma crise sem precedentes para a indústria cinematográfica, Kazan simplesmente trouxe histórias mais próximas ao drama da vida real americana, se valendo de inspirações tiradas diretamente do Neorrealismo Italiano, mas ignorando toda a proposta estética mais “rudimentar”.

A Bondade dos Outros

Não há dúvidas que assistir a Uma Rua Chamada Pecado é uma tarefa difícil e até mesmo estranha se formos ver o caráter mais expansivo do cinema hollywoodiano de 1950, afinal o longa inteiro praticamente se passa apenas em pouco mais de cinco cenários, além de sofrer pesadamente com a censura americana rigorosa.

O texto é essencialmente teatral e Kazan filma toda a história em um nível de linguagem visual bastante próximo ao do teatro, sustentando planos por longos períodos para discorrer até mesmo cenas inteiras – aqui, impressiona o domínio técnico impecável sobre a câmera e a iluminação para manter a ação fluída conforme os enquadramentos são alterados em tempo real.

Nessa questão de se aproximar do espectador comum, nada melhor do que procurar ótimas histórias escritas para a dramaturgia. É exatamente este o caso que temos aqui. A peça de Tennessee Williams e adaptada por ele próprio e também por Oscar Saul. Preservando praticamente a peça inteira, o filme só tinha a dependência de funcionar com a performance imortal de seu elenco de alto escalão contando com Marlon Brando, Vivian Leigh e Kim Hunter.

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A narrativa é concentrada no súbito aparecimento de madame Blanche DuBois (Leigh) na casa de sua irmã recém-casada, Stella (Hunter). Esperando um lugar confortável e modicamente luxuoso para comportar suas necessidades de alto padrão, Blanche se depara com um pequeno apartamento de dois cômodos em um cortiço movimentado em Nova Orleans. Nervoso com a chegada dessa convidada cafona e extremamente falsa, Stanley (Brando), se dedica a investigar o passado da cunhada para logo desacreditá-la e ser ver livre de sua presença. Embora os métodos que o faça não sejam nada agradáveis ou justos.

Williams discute diversos temas centrais em pauta da narrativa, obviamente, verborrágica e regada de monólogos repletos de exposição – uma consequência natural da transposição do texto teatral. Através da repetição confortável em situações diferentes, vemos como há a valorização sobre a bondade, honestidade e força. A graça é que o roteirista se preocupa em trazer esses diálogos que tangem os temas idealizados enquanto Kazan encena verdadeiros caos violentos que ocorrem na casa de Stella.

Por ser um “anti-romance”, Williams visa subverter os valores empregados anteriormente pelo cinema clássico de Hollywood trazendo figuras descontruídas sobre o Marido, a Esposa e a Donzela em Perigo. A começar pelos mais fáceis, Stanley é completo oposto do pai de família do sonho americano, afinal ele é negligente, violento contra a própria esposa grávida e beberrão, apesar de bancar o estilo de vida quase subsistente que Stella e a irmã se acostumam a viver.

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A Brutalidade do Querer

Stanley é o personagem mais simples, mas também o mais verdadeiro, pois nunca trai sua palavra, apesar de ser um refém das próprias paixões. O homem não raciocina nem por meio segundo antes de praticar violência doméstica a uma mulher que, apesar de tudo, ele ama verdadeiramente. A crítica de Williams cai diretamente sobre os casamentos apressados e frustrados que marcaram o baby boom dos anos posteriores a Guerra, além de levar a uma taxa tão expressiva quanto de divórcios nos anos 1960.

Já Stella é a frustração completa da esposa do sonho americano. Ela não é subserviente ao marido em integralidade e o confronta diversas vezes para defender Blanche. Igualmente, não há felicidade verdadeira neste casamento marcado por brigas e constantes abusos, mas como ela está grávida, acaba se tornando prisioneira de um bruto apaixonante, mas totalmente perigoso. Como ela é uma das personagens menos expressivas, basicamente se colocando como o fiel da balança entre os conflitos de Stanley e Blanche, acaba se tornando relativamente apagada, apesar de protagonizar uma das cenas mais inesquecíveis da obra.

Já Blanche é a mais complexa e intrigante dos três. Vivian Leigh simplesmente oferece um espetáculo em sua atuação que adora contradizer as palavras elegantes e o estilo pomposo cafona da personagem. De primeiro momento já é possível perceber que há algo muito errado com a mulher, já que tudo soa ser falso, desde suas histórias até ao modo de se vestir. Toda a narrativa é centrada nela e nas surpresas inglórias de seu passado que é revelado camada a camada.

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A trágica personagem recebe uma roupagem irônica de “donzela em perigo” aguardando por seu salvador na casa tenebrosa de sua irmã. Ela molda a realidade conforme seus desejos e pela proeza dos diálogos ardilosos, acaba até mesmo conquistando o espectador pelo magnetismo inegável tanto do talento de Leigh quanto da escrita exemplar para ela. É simplesmente fascinante.

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Com isso, Williams, pouco a pouco, subverte tudo: a personagem, seu passado nada honroso, seu novo relacionamento amoroso com Mitch (que logo se revela um verdadeiro hipócrita) até a culminação de seu destino infeliz. A única coisa que Williams preserva é o abuso constante de Stanley, totalmente obstinado em fazer da mulher, uma verdadeira louca. Isso cobre muito de Blanche, mas não o total. A personagem incômoda tem muito a oferecer para qualquer espectador que nunca tenha visto essa obra-prima de Kazan.

O Desafio Cinematográfico

Por se tratar de uma narrativa escrita propriamente para o teatro, é de se indagar como Elia Kazan faz da Segunda Arte, a Sétima Arte. Apesar de preservar muito da beleza cênica do Teatro, priorizando sempre a movimentação dos atores ante a movimentação da câmera, há momentos verdadeiramente cinematográficos em Uma Rua Chamada Pecado. Um dos primeiros e, talvez, o mais memorável, se concentra na primeira briga feia de Stanley com Stella.

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Ao buscar refúgio na vizinha de cima, Stella escuta os berros de Stanley a chamando, clamando para que volte a casa, volte para ele. Kazan filma essa pequena cena de modo tão apaixonado, colocando Brando com roupas rasgadas e com cara de choro enquanto Stella desse as escadas a passos lentos portando uma expressão nada amigável. A cena impacta tanto pelo suspense por conta desse ser realmente o único momento que a personagem tem algum poder sobre seu marido, mas descarta ao perdoá-lo.

Já em diversas outras ocasiões, vemos como Kazan e seu diretor de fotografia operam a iluminação, tornando a casa de Stella cada vez mais sombria através de pequenos feixes de luz até chegar a um ápice assustador quando Blanche tem seu diálogo derradeiro com Mitch. Kazan até mesmo faz uma tirada irônica ao envolver a personagem sempre em luzes difusas com um quê das femme fatales do Cinema Noir, reforçando a mensagem exposta em diálogo sobre as suas verdadeiras intenções.

O mesmo ocorre com a extensão do cenário principal. A cada cena, conforme Blanche se sente cada vez mais encurralada, o cenário diminui fisicamente ficando mais apertado. É um belo truque para refletir o desespero interno da personagem. Além disso, o apreço pelo realismo é demarcado pela encenação em camadas feita por Kazan, procurando sempre utilizar a profundidade de campo para mostrar transeuntes através da janela. A mesma atenção aos detalhes é demarcada na trilha musical sempre presente que por diversas vezes pontua as viradas mais dramáticas da obra.

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Campos Elíseos

Mesmo sob pesada censura que deixa as maiores violências de Uma Rua Chamado Pecado apenas na sugestão, Elia Kazan, seu elenco magistral e o roteiro praticamente impecável de Williams, tornaram essa obra em um marco do cinema americano por ousar quebrar paradigmas a ponto de ser relembrado até mesmo em novas produções totalmente inspiradas por ele como foi o caso de Blue Jasmine. Nessa rua de desejos, o sonho de ser um campo elísio sempre está distante, intangível e cruel. Assim como uma miragem.

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, EUA – 1951)

Direção: Elia Kazan
Roteiro: Oscar Saul, baseado na obra de Tennessee Williams
Elenco: Vivian Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond, Richard Garrick
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos.

Tags: #Elia Kazan #Karl Malden #Kim Hunter #Marlon Brando
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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