Estava eu no cinema, juntamente com um grupo de amigos, ansiosamente esperando pela estreia de Coringa (confira a nossa crítica aqui ), algumas semanas atrás em uma cinema quase lotado no centro de Blumenau. Estávamos animados para ver todas as nuances do ator Joaquin Phoenix na sua interpretação do famoso palhaço do crime.

A sua confusão, violência e, principalmente, a sua risada maquiavélica eram coisas que discutimos e imaginamos como seria. Quando surge a primeira cena, no entanto, uma péssima surpresa para todos dentro da sala: o filme estava dublado (apesar da sessão ser legendada). Houve um pânico misto de raiva da plateia. Gritos de vaia, pessoas se levantando berrando com o projetista da sala, outros saindo do cinema chamando a senhora que estava cuidando da entrada… Um caos digno do filme a que assistíamos. Eu também fiquei irritado, confesso.

Era um absurdo que colocaram o filme ou o arquivo errado para tocar. No entanto, algo me chamou a atenção em meio a confusão: cada vez que o Coringa falava algo em português, as pessoas manifestavam maior frustração. Era como se como se elas estivessem sendo golpeadas a cada palavra. Foi então que eu cheguei, por completo, à conclusão: filmes dublados são, indiscutivelmente, uma droga.

Eu sei, eu sei. Você já pode estar rilhando os dentes lembrando de várias coisas para falar ou me considerando um troll por fazer tal afirmação. Mas permita-me me explicar, caro leitor.

Dubladores e seus personagens

Claramente, um dos maiores motivos para todos se exaltarem durante as falas do Coringa em português é que, assim como eu, estavam todos esperando pela voz do ator, Joaquim Phoenix. No entanto, quando este mexeu a boca, a voz do Lóide é que foi ouvida. Isso porque o mesmo dublador de Débi e Lóide (com certeza, se você nasceu nos anos 90, já assistiu esse filme em alguma sessão da tarde) foi escolhido para dublar o Coringa. E de forma alguma eu diminuo aqui Hélio Ribeiro, um dos maiores dubladores brasileiros (eu respeito a profissão apesar de não aprecia-la em certos momentos).

Isso destaca com caneta marca texto cor neon a ineficiência de termos poucos dubladores para uma miríade de personagens, mesmo que eles sejam excelentes profissionais. É fácil reconhecer as suas vozes em outros filmes, desenhos, jogos ou animações. Para este caso, a voz do Coringa nos cinemas é a mesma voz de The Rock em Bem Vindo à Selva, Bruce Willys em Looper e Colossus em Deadpool. Isso nos remove totalmente do filme e nos impede de ver o trabalho em sua originalidade, como foi concebido. O que me leva ao segundo ponto:

Agora imagina isso dublado dentro de um estúdio……

A voz é parte do ator

Antes da estreia de Coringa nos cinemas, tivemos diversas notícias a respeito de como o ator havia se entregado ao papel. De como ele havia lutado para desenvolver uma risada para o personagem que fosse apropriada, icônica, memorável. Nós vimos o ator perder impressionantes 23 quilos para o filme. Houveram informações e rumores a respeito de como ele se portava no set de filmagens e todos acreditamos e confiamos que Phoenix estaria entregando uma atuação digna de Oscar. Ademais, todo o envolvimento e esmero que Todd Phillips (o diretor) entregou durante a produção do filme, capturando os efeitos sonoros da cidade, a estética de Gotham e as nuances do personagem.

Sejam elas um chorinho, um berro, a entonação das frases. Quando você remove a voz de um ator que estava na filmagem, que estava emocionalmente apegado ao projeto, que respirava o dia a dia da produção e vivia literalmente dentro do personagem você remove a alma de sua interpretação. Novamente, respeitando o excelente trabalho do dublador e de diversos outros grandes dubladores da história brasileira mas eles simplesmente não vão conseguir replicar ou incorporar o sentimento que Joaquin Phoenix e outros atores e atrizes incríveis demonstram em sua carreira. E o espectador perde. Até porque no próprio processo de dublagem outros efeitos sonoros perdem a qualidade e o filme, que é uma arte áudio visual, fica “reembalado” para consumo. E isso que estamos falando somente dos aspectos de interpretação e percepção do filme. No que diz respeito à tradução, temos outras grandes barbáries.

A Tradução é Limitada

É claro, a voz do dublador e a mensagem precisam estar de acordo com o que está sendo visto na tela. Se o ator do filme move a boca em um “Yes, of course” (Sim, é claro) o dublador não pode falar “Mas com certeza meu querido!”. É necessário sincronia, algo que a legenda possui vantagem. A mensagem, mesmo que em legenda exista um limitador de caracteres, pode ser exibida de forma mais livre. Não precisa sofrer adaptação para se encaixar aos movimentos da boca. Ela no máximo sofre com uma abreviação da fala para que sejamos capazes de ler. Ou seja, além de você ouvir a voz do ator ainda tem maior pureza na transmissão da informação. Ao assistir um filme legendado, você o recebe da forma mais próxima a que o diretor visionou para você. E sobre ler em português e ouvir em inglês?

Ok, eu posso ter exagerado um pouco, filmes legendados não te tornam um gênio em física

Filmes Legendados Facilitam Compreensão do Inglês

Eu nunca fiz um curso sequer de inglês. Mas consegui passar numa prova para faculdade nos EUA onde precisei demonstrar proficiência o suficiente na língua para estudar junto com os americanos naturais de lá. E eu devo isso inteiramente à filmes legendados. É claro, eles não ensinam regras gramaticais e muitas vezes você pode aprender o inglês mais coloquial e menos formal (Friends, estou olhando pra você).

No entanto, ao receber a mensagem em inglês nos ouvidos e ler ela em português, simultaneamente, o cérebro vai aprendendo a assimilar melhor a língua. E acredite, isso funciona. Ao trabalhar como professor de inglês por um tempo, era visível a diferença entre os alunos que tinham por hábito ver filmes e séries legendadas e os alunos que optavam pelo dublado. Mas é claro, o comentário mais comum que surge é:

Se ver legendado te dá sono, talvez seja melhor assistir um filme quando você não está com sono, como uma pessoa normal

Vejo Dublado para Conseguir Ver o Filme

E, na minha opinião, este seria o melhor argumento para ver um filme dublado. Queremos ver as expressões, os cenários, as cenas de ação e combate e as legendas muitas vezes são um impedimento a isso. E posso afirmar que sim, no início, antes de se acostumar, isso se torna um problema. As legendas passam rápido, nem toda a mensagem é captada, perde-se um olhar ou uma dúvida.

Mas é só no início. Com dublagens, por outro lado, não só você não consegue pegar a informação 100% acurada devido à limitação de sincronia, como também fica sem entender falas devido a barulhos que ocorrem dentro do filme. Ou pior, os sons naturais do filme são reduzidos para que você possa ouvir a voz da dublagem sem saber se é o Homem de Ferro ou o Xerife Woody. Claramente, outra vitória para legendas.

Ou seja…

Filmes legendados são sem dúvida a melhor opção para assistir um filme do modo em que seu criador quis que ele fosse assistido. Com áudios e vozes que mantém a criação em seu estado original sem nos causar confusão e legendas para que possamos compreender toda a mensagem do filme em sua essência e ainda aprender inglês, não é mais desculpa dizer que ler dá sono ou impede de “ver o filme”. Deixa a preguiça de lado e vai curtir a risada icônica (e original) do palhaço do crime.