Projeto que protegia jogos contra desligamento de servidores é derrotado no Senado da Califórnia
O Protect Our Games Act, que exigia que publishers mantivessem jogos jogáveis após o fim dos servidores, foi rejeitado pelo Senado
A vitória que durou um mês
Em 27 de maio de 2026, a Assembleia da Califórnia aprovou o Protect Our Games Act por 43 votos a 16, um resultado que o movimento Stop Killing Games celebrou como vitória histórica. O projeto, identificado como AB 1921 e proposto pelo deputado estadual Chris Ward, exigia que publishers de games avisassem os jogadores com 60 dias de antecedência antes de desligar servidores de jogos pagos, e oferecessem uma versão offline jogável ou reembolso integral caso isso não fosse possível.
Um mês depois, o projeto morreu no Senado estadual. Quatro democratas votaram a favor, três republicanos votaram contra, e o restante simplesmente se absteve. Como apontou um voluntário da campanha no Reddit, abstenção numa votação de comissão tem o mesmo efeito prático de um voto contrário: sem maioria de votos favoráveis, o projeto não avança.
O que o projeto exigia
Se aprovado sem alterações, o Protect Our Games Act obrigaria publishers a informar a data exata de encerramento de um jogo, quais serviços deixariam de funcionar, quais riscos de segurança poderiam surgir e como o jogador poderia continuar usando o produto ou ser reembolsado. A publisher teria então três caminhos: fornecer uma versão alternativa do jogo que não dependesse de servidor, lançar um patch que permitisse uso offline, ou reembolsar o valor total pago pelo jogador.
O caso de Babylon’s Fall, jogo de US$ 60 encerrado pela Square Enix menos de um ano após o lançamento, é exatamente o tipo de situação que o projeto pretendia evitar. MultiVersus, encerrado pela Warner Bros. em maio de 2025, foi citado como exemplo de como o processo deveria funcionar: jogadores que acessaram o jogo antes do desligamento tiveram seus arquivos de salvamento atualizados para permitir uso offline, preservando todo o conteúdo adquirido.
A acusação contra a ESA
O movimento Stop Killing Games acusou a Entertainment Software Association, a principal entidade lobista da indústria de games nos Estados Unidos, de fazer afirmações “que variaram de enganosas a completamente falsas” aos senadores durante o processo. Uma das alegações citadas foi a de que manter um servidor privado, como os que existem para Minecraft, seria ilegal sob a nova lei, o que o movimento contesta como leitura incorreta do texto.
A ESA, por sua vez, publicou um posicionamento oficial argumentando que o projeto demonstrava “uma falta fundamental de conhecimento sobre como os jogos são construídos e mantidos hoje”. Segundo a entidade, por trás de cada jogo online existe uma infraestrutura invisível e enorme, e a lei forçaria desenvolvedores a escolher entre manter servidores rodando indefinidamente, reconstruir o jogo sem suporte técnico ou reembolsar integralmente qualquer jogador, independentemente de há quanto tempo ele jogou ou quanto tempo passou no título.
Por que a derrota não significa o fim
O voluntário do Stop Killing Games que relatou a derrota no Reddit foi enfático: a tentativa aconteceu com orçamento americano de zero dólares, sem equipe paga na Califórnia, sem operação de lobby presencial e com um cronograma comprimido demais para captar recursos a tempo. “Esta foi nossa primeira tentativa, no nosso primeiro ano, nos Estados Unidos”, escreveu. O movimento prometeu retornar na próxima sessão legislativa com presença de lobby presencial, financiamento adequado e uma lista de organizações e desenvolvedores em apoio formal.
A estratégia também não se limita à Califórnia. O Stop Killing Games confirmou intenção de levar versões do projeto a outras legislaturas estaduais e está avaliando seriamente uma abordagem em nível federal. Para a ESA, segundo o próprio movimento, “está prestes a aprender como é lutar em várias frentes ao mesmo tempo”.
O contexto que torna essa derrota mais dolorosa
A votação aconteceu na mesma semana em que a Sony confirmou a remoção de 551 filmes comprados das bibliotecas digitais da PlayStation Store, e poucos dias depois da Rockstar confirmar que GTA 6 não terá versão física com disco. O debate sobre o que significa “comprar” um produto digital nunca esteve tão presente na conversa pública quanto está agora, e mesmo assim, a primeira tentativa legislativa séria de regular essa questão nos Estados Unidos não conseguiu sair do papel.
O movimento Stop Killing Games já acumulou mais de um milhão de assinaturas verificadas na Europa, mas a Comissão Europeia determinou que não pode propor obrigação legal de manter jogos jogáveis após o fim da distribuição comercial. Nos Estados Unidos, a primeira tentativa terminou em derrota na comissão do Senado da Califórnia. A próxima sessão legislativa, segundo o próprio movimento, já está sendo planejada.