Solasta II: Evolução ou mais um RPG preso às suas limitações?
Solasta II é a sequência de Solasta: Crown of the Magister. O novo jogo é desenvolvido pela Tactical Adventures e publicado pela Kepler Interactive. O jogo trata-se de um CRPG, gênero de jogos que busca emular a jogabilidade de um RPG de mesa, no caso deste Dungeons & Dragons 5th Edition (D&D 5e). Por enquanto, […]
Solasta II é a sequência de Solasta: Crown of the Magister. O novo jogo é desenvolvido pela Tactical Adventures e publicado pela Kepler Interactive. O jogo trata-se de um CRPG, gênero de jogos que busca emular a jogabilidade de um RPG de mesa, no caso deste Dungeons & Dragons 5th Edition (D&D 5e). Por enquanto, Solasta II ainda se encontra em acesso antecipado
O primeiro Solasta saiu ainda em 2021 e os jogos desse gênero ainda pertenciam a um nicho bastante limitado. De lá pra cá, um jogo do gênero furou a bolha de maneira massiva, tornando-se um dos RPGs mais populares de todos os tempos, trata-se de Baldur’s Gate 3 da Larian Games. Será que Solasta 2 é um jogo à altura de seu antecessor e de outros excelentes jogos do gênero? Isso é que vamos analisar aqui.
Sistema Sólido e Limitações Técnicas

A proposta de Solasta II é se afirmar como um CRPG fiel às raízes do gênero, sua jogabilidade deixa isso claro desde os primeiros minutos. O jogo não tenta esconder suas inspirações nem simplificar demais seus sistemas para agradar um público mais amplo; ao contrário, ele abraça com convicção a estrutura de Dungeons & Dragons 5ª edição, transformando suas regras em base direta para praticamente todas as decisões mecânicas.
Isso significa que estamos diante de um jogo onde posicionamento, rolagens de dados, economia de ações e leitura de cenário são mais importantes do que reflexos rápidos ou execução precisa.
O combate por turnos é, sem dúvida, o coração da experiência. Cada personagem possui um conjunto de ações bem definidas, movimento, ação principal, ação bônus e reação. Entender como extrair o máximo valor de cada turno é essencial. Sendo necessário não apenas atacar o inimigo mais próximo, mas pensar em termos de sinergia entre habilidades, controle de campo e antecipação de movimentos adversários. O jogo recompensa o jogador que observa, planeja e adapta sua estratégia conforme a situação.
Um dos pontos mais interessantes é como o jogo utiliza o ambiente como parte ativa do combate. Altura, iluminação e linha de visão não são apenas detalhes estéticos; eles influenciam diretamente as chances de acerto, a eficácia de habilidades e até a sobrevivência do grupo.
Atacar de uma posição elevada pode garantir vantagem, enquanto lutar na escuridão sem a preparação adequada pode ser um erro fatal. Esse tipo de sistema reforça a sensação de estar participando de uma campanha de RPG de mesa, onde o cenário é tão importante quanto os personagens.
A composição da party também desempenha um papel fundamental. Diferente de muitos CRPGs onde os personagens podem ser muito parecidos, aqui cada membro do grupo possui uma função clara dentro do combate. Tanques absorvem dano e controlam o espaço, conjuradores manipulam o campo de batalha com magias, enquanto personagens mais ágeis exploram oportunidades e causam dano pontual.
Essa divisão de papéis funciona bem e incentiva o jogador a pensar no grupo como um conjunto coeso, e não apenas como indivíduos isolados.
A progressão segue a lógica clássica de D&D: ganho de níveis, escolha de habilidades, especializações e evolução gradual das capacidades do grupo. Mesmo no estado de acesso antecipado, já é possível perceber que o sistema foi bem implementado.
As habilidades fazem sentido dentro do contexto das classes, e a progressão oferece escolhas relevantes, evitando aquela sensação de evolução automática sem impacto real.
No entanto, essa fidelidade ao sistema também traz um efeito colateral: a curva de aprendizado pode ser um pouco íngreme, especialmente para quem não está familiarizado com D&D. O jogo não faz muitos esforços para simplificar suas mecânicas, e isso pode afastar jogadores menos experientes.Por outro lado, para quem já conhece o sistema, ou está disposto a aprender, essa complexidade é justamente o que torna a experiência mais rica
.
Comparado ao primeiro jogo, há uma sensação clara de refinamento. A interface está mais limpa, os comandos são mais intuitivos e a leitura das ações em combate é mais clara. Ainda assim, por se tratar de um acesso antecipado, nem tudo funciona com a fluidez ideal. Alguns menus ainda parecem pouco responsivos, e certas interações poderiam ser mais bem explicadas. São problemas pequenos, mas que se acumulam ao longo do tempo.
E isso nos leva a um ponto importante: os aspectos técnicos. Muitos jogos desenvolvidos na Unreal Engine acabam apresentando problemas de estabilidade ou bugs, especialmente em fases iniciais. No caso de Solasta 2, isso também observamos isso, embora de forma relativamente controlada.
Durante a experiência, é possível encontrar pequenos glitches visuais, animações que não se encaixam perfeitamente e, ocasionalmente, comportamentos estranhos de inimigos ou aliados em combate.
Nada disso chega a quebrar o jogo, mas é suficiente para lembrar constantemente que estamos lidando com uma versão ainda em desenvolvimento. Em alguns momentos, a imersão pode ser levemente afetada, especialmente quando uma animação não executa como deveria ou quando um personagem parece “travar” por um instante durante o turno. Ainda assim, o mais importante, o funcionamento do sistema de combate, se mantém sólido.
E esse é talvez o maior mérito da jogabilidade de Solasta 2: mesmo com imperfeições técnicas, o núcleo da experiência funciona muito bem. O combate é satisfatório, as decisões têm peso e o jogador sente que está no controle das situações, mesmo quando as coisas dão errado por conta de uma rolagem de dados desfavorável, o que, de certa forma, faz parte da proposta.
Outro aspecto interessante é como o jogo lida com escolhas fora do combate. Testes de habilidade em diálogos, decisões que podem abrir ou fechar caminhos e interações com o mundo ajudam a reforçar a ideia de que estamos em um RPG de mesa digital. Não basta vencer batalhas, mas também construir sua jornada. Esse tipo de abordagem aproxima o jogo de experiências mais recentes do gênero, como Baldur’s Gate 3, ainda que em uma escala mais contida.
A exploração também segue essa lógica. O jogo incentiva a observação do ambiente, o uso de habilidades específicas para acessar novas áreas e a atenção a detalhes que podem passar despercebidos. Não se trata de um mundo totalmente aberto, mas sim de áreas bem construídas, onde cada espaço parece ter um propósito dentro da experiência.
Por outro lado, ainda há espaço para melhorias. A inteligência artificial dos inimigos, por exemplo, nem sempre toma as decisões mais interessantes. Em alguns combates, é possível perceber padrões previsíveis, o que pode reduzir o desafio em determinadas situações.
Além disso, a falta de polimento em certos momentos pode quebrar o ritmo, especialmente quando o jogo demora a responder a comandos ou apresentar pequenas inconsistências.
Ainda assim, é importante reforçar o contexto: estamos falando de um jogo em acesso antecipado. Muitas dessas questões provavelmente serão ajustadas ao longo do desenvolvimento. O que importa, neste estágio, é avaliar se a base está bem construída e, nesse sentido, Solasta 2 mostra um potencial bastante sólido.
No fim das contas, a jogabilidade do jogo consegue cumprir aquilo que se propõe: entregar uma experiência fiel ao espírito de D&D, com combates táticos profundos e decisões significativas. Não é um jogo que tenta competir diretamente em termos de espetáculo ou escala com os maiores nomes do gênero, mas sim um título que aposta na consistência de seus sistemas e na autenticidade de sua proposta.
Se conseguir polir seus aspectos técnicos e expandir suas possibilidades ao longo do desenvolvimento, Solasta 2 tem tudo para se consolidar como uma das experiências mais interessantes dentro do nicho de CRPGs modernos. Por enquanto, o que temos é um sistema que já funciona bem, mesmo que ainda precise de ajustes e isso, para um jogo em acesso antecipado, já é um ótimo sinal.
Entre o íntimo e o épico

A jogabilidade de Solasta II aposta na fidelidade às regras de mesa, sua narrativa tenta dar um passo além do que vimos em Solasta: Crown of the Magister: construir uma história mais centrada em personagens e em conflitos emocionais. A campanha da família Colwall é o principal indicativo dessa mudança de direção.
Em vez de um grupo de aventureiros relativamente genéricos enfrentando uma ameaça maior, temos aqui um núcleo familiar com passado compartilhado, traumas e responsabilidades que moldam diretamente o desenrolar da trama.Cada membro da família Colwall apresenta traços distintos, tanto em suas falas quanto em suas reações aos eventos. Há diferenças claras de temperamento, valores e forma de encarar o legado da mãe.
Alguns personagens são mais pragmáticos, outros mais idealistas, e isso se reflete nas interações e nos diálogos. Esse cuidado já representa um avanço significativo em relação ao primeiro jogo, onde os personagens funcionavam mais como arquétipos de classe do que como indivíduos com identidade forte.
No entanto, é importante reconhecer que essa construção ainda não atingiu o nível de profundidade visto em títulos como Baldur’s Gate 3, onde cada personagem possui camadas complexas, conflitos internos bem desenvolvidos e arcos narrativos que evoluem de forma mais orgânica. Em Solasta 2, há uma base interessante, os personagens são mais vivos, mais presentes, mas ainda falta aquele refinamento que transforma bons personagens em memoráveis.
Dito isso, o jogo acerta ao colocar a família no centro da narrativa. O tema do legado é explorado de forma consistente: a morte da matriarca não é apenas um evento inicial, mas uma força motriz que permeia toda a campanha. O passado não é algo distante, mas algo que constantemente interfere nas decisões do presente.
Segredos deixados para trás, alianças mal explicadas e consequências de escolhas antigas criam uma sensação de continuidade histórica que funciona bem dentro da proposta.
Esse tipo de abordagem dialoga diretamente com um dos temas mais interessantes do jogo: o fardo geracional. Os protagonistas não estão apenas vivendo suas próprias histórias, mas lidando com algo que foi herdado. Existe uma tensão constante entre aceitar esse legado ou questioná-lo.
E, embora o jogo ainda não explore todas as implicações desse conflito de forma profunda, novamente, por conta do estado de acesso antecipado, a intenção é clara e promissora.
Outro ponto positivo está nos ganchos narrativos. A história sabe plantar dúvidas e criar mistérios que incentivam o jogador a seguir em frente. O pacto deixado pela mãe, os eventos que levaram à sua morte e as forças maiores que parecem estar em movimento no mundo são elementos que funcionam como motores narrativos eficazes.
Essa não é uma trama que entrega tudo de imediato; ela prefere sugerir, construir lentamente, deixando lacunas que o jogador vai preenchendo ao longo da jornada.
Esse tipo de construção lembra bastante campanhas de RPG de mesa, onde o mestre apresenta peças do quebra-cabeça aos poucos.
E isso é, de certa forma, coerente com a proposta do jogo. No entanto, essa abordagem também pode gerar um efeito colateral: o ritmo da narrativa nem sempre é consistente. Há momentos em que a história avança de forma interessante, seguidos por trechos mais lentos, onde o jogador pode sentir falta de eventos mais impactantes.
Comparando com Solasta: Crown of the Magister, a evolução é evidente no foco narrativo. O primeiro jogo tinha uma história funcional, mas raramente memorável. Era um veículo para o sistema de combate, não o seu complemento. Já Solasta 2 tenta equilibrar melhor esses dois aspectos. A história aqui não é apenas um pano de fundo; ela busca ter relevância própria. Mesmo que ainda não atinja todo o seu potencial, já é possível perceber uma ambição maior.
Quando colocamos o jogo lado a lado com outros CRPGs contemporâneos, especialmente Baldur’s Gate 3, as diferenças ficam mais claras. O título da Larian eleva o padrão do gênero em termos de narrativa, oferecendo uma experiência altamente reativa, com escolhas que impactam profundamente o mundo e personagens extremamente bem desenvolvidos.
Solasta 2, por sua vez, ainda opera em uma escala mais modesta. Suas escolhas existem, mas suas consequências ainda não têm o mesmo peso ou complexidade,pelo menos no estágio atual.
Isso não significa que o jogo falhe em sua proposta, mas sim que ele ocupa um espaço diferente dentro do gênero. Enquanto Baldur’s Gate 3 busca ser uma experiência cinematográfica e expansiva, Solasta 2 parece mais interessado em recriar a sensação de uma campanha de RPG de mesa mais tradicional.
E, nesse sentido, sua narrativa funciona melhor quando analisada dentro desse contexto, e não necessariamente em comparação direta com os maiores nomes do gênero.
Um aspecto que merece destaque é a consistência temática. O jogo mantém seu foco em família, legado e consequências do passado ao longo de toda a experiência disponível. Não há uma tentativa de abraçar muitos temas ao mesmo tempo; pelo contrário, há uma certa contenção que ajuda a dar coesão à narrativa. Isso pode fazer com que a história pareça menos grandiosa em alguns momentos, mas também evita que ela se torne dispersa.
Ainda assim, nem tudo funciona perfeitamente. Alguns diálogos carecem de maior impacto, e certas situações poderiam ser exploradas com mais profundidade emocional. Há momentos em que o jogo parece “passar rápido demais” por eventos que mereceriam mais atenção. Isso é particularmente perceptível em interações que deveriam ter maior peso dramático, mas acabam sendo resolvidas de forma relativamente simples.
Também vale mencionar que o estado de acesso antecipado influencia diretamente essa percepção. Muitos arcos ainda não estão completos, e algumas decisões provavelmente terão consequências mais claras na versão final. Por enquanto, o que temos é um esqueleto narrativo bem estruturado, mas que ainda precisa de mais conteúdo e refinamento para atingir todo o seu potencial.
No fim das contas, a história de Solasta 2 é, acima de tudo, promissora. Ela apresenta personagens com identidade própria, constrói ganchos interessantes e aborda temas relevantes dentro de sua proposta. Não chega ao nível dos melhores exemplos do gênero, mas também não se limita ao básico como seu antecessor. Existe aqui uma evolução clara e, talvez mais importante, uma direção definida.
Se conseguir aprofundar seus personagens, desenvolver melhor as consequências das escolhas e dar mais peso emocional aos seus momentos-chave, o jogo tem tudo para se tornar uma experiência narrativa muito mais marcante. Por enquanto, ele se posiciona como um CRPG que entende a importância da história, mas que ainda está no processo de aprender a explorá-la em sua totalidade.