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Eu me recuso a aceitar Daniel Craig como James Bond.

Foi assim que o meu eu de 11 anos reagiu à notícia do novo casting para 007 – Cassino Royale, filme que reformularia toda a franquia do agente secreto e apresentaria algo novo após alguns anos de desgaste. Acostumado com toda a presença e charme da era Pierce Brosnan, assim como todos os outros Bonds do passado, a troca bruta de perfil foi algo que não bateu fácil para mim, e também para a maioria do público – que usou o pouco de internet disponível na época para lançar uma campanha negativa contra a escalação do ator.

Tamanha minha teimosia e preconceito com o ator loiro de olhos azuis, que acabei recusando o convite de meu tio para assistir ao filme nos cinemas. James Bond havia morrido para mim. Porém, quando a curiosidade enfim bateu e acabei assistindo o filme em casa, percebi que havia cometido um dos maiores erros de minha vida em não assistir Cassino Royale nos cinemas. Havia perdido a chance de contemplar não só o melhor filme de 007 de todos os tempos, mas também a estreia do Bond definitivo do século XXI.

Depois de um bom tempo criando histórias inéditas para o personagem, a dupla de roteiristas Neil Purvis e Robert Wade voltou para a gênese de Bond ao propor uma adaptação livre do primeiríssimo livro de Ian Fleming, Cassino Royale. Partindo daí, vemos o início da carreira de James Bond (Craig) na agência do MI6 e como conseguiu sua famosa licença para matar, tendo realizado dois assassinatos com execução profissional. Sua primeira missão oficial é a de neutralizar o misterioso Le Chiffre (Mads Mikkelsen), um banqueiro de terroristas que planeja encher a mão em um jogo de pôquer de alto valor no cassino titular. Contando com a ajuda da bela analista Vesper Lynd (Eva Green), Bond precisará ganhar o jogo para capturar o terrorista.

A Supremacia Bond

É aí que você pensa no absurdo da premissa: a missão de Bond é ganhar um mísero jogo de cartas? Ironicamente, uma promessa tão inofensiva acaba revelando desdobramentos impressionantes, mas também ganha um revestimento muito denso graças ao roteiro de Wade, Purvis e a revisão de Paul Haggis. Com o jogo ficando apenas para o segundo ato, acompanhamos a investigação pessoal de Bond nos núcleos iniciais, e é maravilhoso ver como a dupla trabalha muito bem a escalação dos eventos; com pequenas pistas nos levando a acontecimento maiores, usando bem o artifício de uma mensagem críptica que aparece nos celulares de todos os antagonistas que o protagonista acaba perseguindo. É um recurso batido, claro, mas sua execução é eficiente e ajuda a manter as engrenagens da história movendo-se para frente, e evitando uma exposição muito verborrágica – vale notar como o primeiro ato do longa é muito mais silencioso e pautado no suspense, tal como um longa de espionagem deveria ser.

O universo do vilão também é uma das criações mais acertadas e relevantes da dupla, sendo algo que é digno de um antagonista de Bond, mas que também insere-se de forma crível e realista dentro do mundo real. Le Chiffre consegue seus lucros ao apostar contra ações de empresas em alta, orquestrando então ataques terroristas a estas a fim de garantir um retorno financeiro maior. É um plano muito engenhoso e que funciona por sua lógica, como muitíssimo bem expresso pela M de Judi Dench: “No 11 de Setembro tivemos um atentado, mas no dia 12 alguém ficou rico”. É uma ameaça inteligente e que faz sentido para o Bond moderno, e o fato de Le Chiffre ser um sujeito frágil, vulnerável e que está sendo mais pressionado por sua “clientela peculiar” do que pelo serviço secreto o tornam ainda mais fascinante – com a presença daquela cicatriz no olho que é a piscadela – sem trocadilhos – ao clássico vilão Bond dos anos 60. Um desempenho formidável de Mads Mikkelsen.

Para esse universo moderno e perigoso, um novo Bond era crucial para o funcionamento de Cassino Royale. E é aqui onde eu desejaria ter uma máquina do tempo para retornar ao passado e arrastar minha versão juvenil para os cinemas e estapeá-la pela falta de fé, já que a performance de Daniel Craig como James Bond é nada menos do que sensacional. Inclusive, acredito que Craig seja o ator que entregou a melhor atuação dentre todos os outros, sendo eficiente ao transmitir toda a variedade emocional do personagem, e seu crescimento como um sujeito frio e ríspido para um homem perdidamente apaixonado, apenas para enfrentar um trauma que enfim molda sua persona definitiva. O ator traz todo o sarcasmo e egocentrismo que o papel requer, especialmente em sua ótima dinâmica com Eva Green.

A fisicalidade de Craig também é um ponto de destaque, visto que realiza algumas cenas de ação diante da câmera, uma exigência do ator de forma a rebater toda a negatividade circundando seu casting. Porém, é na dolorosa cena da tortura, com Bond nu e amarrado a uma cadeira retalhada, onde o ator definitivamente brilha. Com o sádico Le Chiffre esmurrando seus genitais com uma corda de tapete, vemos no rosto do ator o maior esforço do personagem, ao tentar dominar a situação mesmo sem qualquer tipo de vantagem – literalmente despido de qualquer oportunidade. A forma como Craig apela para o absurdo e o humor é simplesmente sensacional, provocando o vilão ao lhe pedir que cuide de sua “coceira” nos países baixos, rendendo uma das frases mais impagáveis do filme: “Agora o mundo inteiro vai saber que você morreu coçando meu saco!”.

Como podemos ver, Craig era a melhor escolha para esse Bond reinventado. Inclusive, os roteiristas enxergam diversas oportunidades para brincar com a mitologia do personagem, apresentando-nos aos elementos que vão lentamente construindo sua figura icônica. Por exemplo, este é o primeiro filme da série a não se iniciar com a famosa vinheta do cano da arma, que é brilhantemente incorporada à história durante uma sequência do filme, – servindo como um elegante gancho para os créditos de abertura, que trocam as silhuetas de mulheres voluptuosas por assassinos e cartas de baralho, além da radical canção “You Know My Name”, do grande Chris Cornell. Aliás, ainda sobre essa sequência, temos o incrível plano onde Daniel Craig caminha em direção à câmera, e olha diretamente para ela enquanto a música vai encerrando-se, em uma decisão ousada e que praticamente olha na cara de todos aqueles que questionaram sua escalação: sim, eu sou o James Bond.

Outros elementos certeiros vão aparecendo ao longo da projeção. Vemos Bond ganhando o famoso Aston Martin DB5 durante um jogo de cartas no primeiro ato da narrativa, uma tomada que leva seu tempo e paciência para esbanjar a primeira vez que o vemos usando um luxuoso smoking que tornaria-se uma de suas marcas registradas e até o primeiro encontro com Felix Leiter (Jeffrey Wright), um agente da CIA que sempre fora conhecido como um dos aliados do personagem nos longas anteriores, e também a criação de seu martini especial – com a genial resposta à pergunta “batido ou mexido?”. Porém, é com a cena final que realmente sentimos o arrepio. A sensação de estar vendo um mito nascer, quando o protagonista olha para outro personagem – e através dele, à câmera – e pela primeira vez solta o famoso “Bond, James Bond”, precedendo a entrada do antológico tema musical de John Barry. Nesse momento, Bond renascia.

O Orgulho de Buster Keaton

Mas claro, James Bond não é James Bond sem suas cenas de ação. Felizmente, a maestria do roteiro adulto e sólido vem acompanhada de uma direção igualmente forte e memorável, com o diretor Martin Campbell retornando à franquia após sua ótima introdução de Pierce Brosnan com GoldenEye, em 1995. Aqui, Campbell revela-se ainda mais amadurecido e ambicioso, já revertendo a expectativa do público ao trocar a “cena grandiosa de abertura” por um segmento quieto, silencioso e brutal, ao retratar o primeiro assassinato de Bond com uma briga violenta, física e desajeitada; acompanhando bem o fato de que o protagonista estar cometendo seu primeiro homicídio ali. A escolha de Phil Meheux de dois filtros na fotografia também é certeira, com a luta no banheiro ganhando um preto e branco mais contrastado e com um grão sujo e incômodo – exacerbado pela câmera na mão -, enquanto sua segunda execução ganha um P/B mais clean e equilibrado nos níveis de preto, e mais elegante graças aos planos fixos. Em outras palavras, só pela fotografia já observamos a evolução de Bond de matador bruto a executor calculista e certeiro.

Porém, quando pensamos na ação de Cassino Royale, é uma cena específica que vem à mente de todos nós: a perseguição de parkour em Madagascar. Se Campbell ousou em começar o longa de forma contida, ele oferece uma sequência absurdamente espetacular alguns minutos depois, quando Bond persegue a pé um fabricante de bombas pela cidade africana, atravessando uma floresta, um canteiro de obras e uma embaixada internacional. É uma sequência que impressiona pelo realismo e a nítida percepção de não termos efeitos visuais envolvidos em peso, como se enxerga nas acrobacias inacreditáveis do free runner Sebastien Foucain, que escala paredes, pula de guindastes e outras manobras que eu nem saberia como descrever, sendo a antítese perfeita para a brutalidade de Bond: quando o bandido passa pelo buraco de uma parede de drywall, Bond simplesmente a atravessa.

É importante também como a câmera de Campbell, ainda que captando todos esses eventos espetaculares, jamais perde o foco de Bond, e em sua evolução como personagem ali; sendo justamente esse um dos melhores atributos dessa cena (e também das outras sequências de ação do longa). Antes de pular de um guindaste para o outro, há dois curtos planos em que Bond observa com um certo medo a distância entre os dois pontos, e é isso tipo de humanidade que investe o espectador na ação, que além de tudo é bem orquestrada, montada e distribuída, além da trilha sonora de David Arnold ser arrasadora em seu uso dos tambores africanos. É um atestado muito arriscado de se fazer, mas eu não acho um absurdo declarar esta como a melhor cena de ação de todos os tempos. É uma aula em todos os quesitos imagináveis.

Com uma cena dessas, é muito difícil para qualquer diretor se superar com as 2h de projeção restantes, mas Campbell não deixa a bola cair. Uma tensa cena de stalking que é movida apenas pela trilha de Arnold desenrola-se quando Bond segue um potencial terrorista dentro de uma exposição do corpo humano até um lotado aeroporto de Miami, desembarcando em uma excepcional perseguição de carros pela pista do aeroporto, contando com uma ótima iluminação noturna. A terceira grande set piece é praticamente o oposto ao trocar as sombras da noite pelas vibrantes e saturadas cores de Viena, onde Bond literalmente desaba um prédio em Viena durante um conflito com criminosos no clíamx do longa, em uma imagem altamente simbólica ao trazer Vesper “enjaulada” em um elevador que segue em direção às águas que vão engolindo a estrutura. Ambas as sequências seguem o mesmo nível técnico da perseguição em Madagascar, sempre mostrando Bond se machucando, se esforçando e até falhando miseravelmente em certas ações.

Os Brutos também amam

Campbell certamente sabe lidar com o espetáculo, mas também fico impressionado com seus momentos de sutileza. A começar pelo jogo de cartas em si, que no papel é um evento sem a menor empolgação ou valor cinematográfico, já que são apenas… pessoas jogando cartas, e não há diálogos para movimentar suas ações – além do Mathis de Giancarlo Giannini agindo como o “coral grego” ao explicar para o público o que movimento e jogada significa. Felizmente, o diretor sabe como tornar o jogo dinâmico, ao estabelecer um verdadeiro duelo de olhares entre Bond e Le Chiffre, constantemente trazendo enquadramentos em close do rosto dos dois, sabendo também como valorizar a chamativa cicatriz do vilão. A trilha de Arnold novamente torna-se fundamental, com as batidas incessantes das cenas de ação dando espaço para cordas lentíssimas e misteriosas, além da montagem de Stuart Baird ser muito precisa ao utilizar fusões para demarcar a passagem de tempo – visto que a duração do jogo estende-se por diversas noites.

Como um jogo de pôquer não é capaz de sustentar uns bons 30 minutos de projeção, por mais bem executado que seja, o longa é sábio em oferecer diversas situações e imprevistos ao longo da jogatina. Por exemplo, quando Bond é derrotado por Le Chiffre, Campbell oferece um plano estático onde todos os jogadores vão lentamente saindo da mesa, com Bond praticamente colado à cadeira enquanto observa as fichas à sua frente, como se tentasse entender o que diabos aconteceu; uma cena muito reminiscente de um dos planos finais de O Poderoso Chefão Parte II, onde Francis Ford Coppola retratara o isolamento de Michael Corleone de forma similar. Em um exemplo mais agressivo, temos a intensa sequência onde Bond é envenenado por Le Chiffre, e a fotografia opta por lentes grande angulares que exacerbam o desespero do personagem ao buscar ajuda para livrar-se da substância. É uma amostra de como o estilo de Campbell, assim como Bond na primeira cena, varia entre o operático e o claustrofóbico, vide a brutal cena de luta de Bond contra dois assassinos em uma escadaria, que termina com uma execução extremamente ousada para um filme de censura PG-13.

Então, paralelamente ao jogo de pôquer mais empolgante do mundo, temos duas cenas que nunca antes poderíamos imaginar em um filme de James Bond. A primeira é logo após a intensa briga do protagonista pelas escadas do cassino, com Bond limpando seus ferimentos e o sangue escorrendo por sua testa em frente a um espelho. É um momento de extrema vulnerabilidade que o personagem poucas vezes havia tido, e a câmera na mão que quase despenca enquanto Campbell foca nos olhos cansados de Craig só auxilia para criar esse desconforto e aproximação com o agente secreto. A segunda vem pouco tempo depois, trazendo uma delicadez ímpar ao mostrar Bond abrindo a porta de sua suíte apenas para encontrar Vesper sentada no box do banheiro, com o chuveiro ligado encharcando seu belo vestido. O protagonista então se junta à ela, abraçando-a a e confortando-a após a violência que os dois foram forçados a encarar durante a briga nas escadas. Em um único plano longo, Campbell acaba criando uma cena tão íntima e delicada que merece ser colocada como um dos melhores momentos de toda a franquia.

E é dessa cena que o romance entre Bond e Vesper é finalmente iniciado, e graças ao ótimo texto do trio e a performance enigmática de Eva Green, temos um arco amoroso que oferece muito mais do que se aparenta. A lição final de Bond lhe é dada da forma mais impiedosa, com a lealdade de Vesper sendo colocada em dúvida durante o terceiro ato, e ainda que esta porção do filme aparentemente seja arrastada, é crucial na intenção de criar uma falsa fantasia e a esperança fraudulenta de que Bond poderia ter uma vida normal ao lado de sua amada.

Cassino Royale é um grande filme. Não só o melhor exemplar dos 24 filmes de James Bond, mas também uma das melhores obras de ação e espionagem já produzidas no cinema recente, com Daniel Craig liderando uma reinvenção pesada e brutal para o agente secreto mais famoso da História, contando com um roteiro magistral e uma direção que oferece o melhor que o gênero de ação tem a oferecer. Uma carta vencedora.

007 – Cassino Royale (Casino Royale, Reino Unido – 2006)

Direção: Martin Campbell
Roteiro: Neil Purvis, Robert Wade e Paul Haggis
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Jesper Christensen, Sebastien Foucan
Gênero: Ação
Duração: 144 min

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