É quase uma verdade universal e incontestável dizer que a mitologia céltica configura-se como uma das mais místicas e envolventes de todos os tempos. Sua origem remonta aos primórdios da humanidade, quando os homens do neolítico ainda saudavam os supostos poderes que os raios lunares concediam às mulheres e dançavam em volta da fogueira com a criação e a sustentação do Sagrado Feminino como um símbolo imortal de poder. E era quase óbvio que American Gods não poderia desperdiçar a chance de colocar uma pitada dessa cultura milenas dentro de suas narrativas distorcidas e cativantes.

A ideia aqui era transferir o foco de uma arquitrama cronológica para uma backstory com o mesmo peso e praticamente a mesma visceralidade com a qual a série trata seus personagens. Ao contrário de quando conhecemos Laura Moon (Emily Browning) em seus anseios mais profundos, cujo episódio desenrolou-se forma monótona e arrastada, contrariando o ritmo frenético dos capítulos anteriores, aqui tudo se encaixa até mesmo com os deslizes de outrora. Mad Sweeney (Pablo Schreiber) é o escolhido da vez para ter sua personalidade complexa analisada de cabo a rabo, procurando possíveis gatilhos que justificassem os objetivos e as ações que movem o personagem no tempo presente.

Entretanto, não espere ver uma história sob os mesmos moldes que as anteriores. Em A Prayer for Mad Sweeney, as coisas entram em um quesito mais épico que nos relembra produções audiovisuais recentes movidas pela exploração do fantástico. O capítulo é inteiramente narrado por Mr. Ibis (Demore Barnes), que já sabemos ser o responsável pela análise da convergências de diversas culturas para a terra que seria mais tarde nomeada Estados Unidos da América. Diferentemente das iterações predecessoras, o sétimo episódio deixa essa participação muito mais ativa, mostrando, de fato, o relato escrito feito pelo personagem. Ele é constantemente vigiado pelo nefasto e decrépito trabalho funerário de Anubis (Chris Obi), cuja história já nos foi revelada – e cuja aparição transforma as vertentes fantasiosas em contribuições documentais para o entendimento da personalidade norte-americana.

A série parte do princípio antropológico de crença e fé. Logo, é o mínimo esperar que o estudo das múltiplas religiões que entraram em choque na América contemporânea partam de uma perspectiva individualista ou representativamente individual, por mais contraditório que isso seja – e em Prayer, isso não é diferente. Conhecemos sim a história de Mad Sweeney, um leprechaun imigrante da Escócia para a Terra Prometida. Entretanto, sua condição como criatura sobrenatural não o qualifica para representar a visão humana e falha, deixando uma brecha para a entrada de uma figura com o semblante parecido ao de Laura: Essie Macgowan (também interpretada por Browning).

Essie é a típica garota do interior escocês que luta pela busca de uma identidade espiritual que a conecte com sua família. Desde criança, conseguimos identificar sua personalidade aventureira e ao mesmo tempo cautelosa almejando pela volta do pai das guerras das terras nórdicas de modo a finalmente encontrar um pouco de paz e poder ter um “mentor” que a guie através dos fantasiosos territórios místicos que permeiam o mundo dos vivos e o plano etéreo. Entretanto, essa figura emerge com a presença da avó – ou seja, o arquétipo do ancião como guardião e protetor das almas pueris e inocentes -, a qual lhe conta diversas histórias sobre fadas, elfos, banshees, gnomos e outras criaturas próprias da cultura céltica.

A busca por uma mitologia que representasse a profusão comunitária estadunidense também talvez seja o grande tema-base para o desenrolar das histórias. Prayer é um filler, assim como a narrativa que teve enfoque em Laura, mas isso em nenhum momento tira sua necessidade para o entendimento das relações entre os personagens. Essie é uma encarnação passada da ex-mulher de Shadow (Ricky Whittle), e tal descoberta nos leva a pensar que o destino dela e de Mad Sweeney está atado de alguma forma – e que seus encontros serão eternos, ainda que não os permita ficar juntos. A personagem de Browning talvez seja a representação mais fiel da hereditariedade cultural, explanando o motivo da conexão inefável e do sentimento de proteção desenvolvido pelo leprechaun.

Essie passa por diversos obstáculos através de sua vida. Entretanto, mesmo nas situações mais difíceis, mantém-se fiel aos seus valores e crenças, disseminando as lendas que perscrutaram sua infância e a infância de seus parentes para quem quer que fosse. Em uma sociedade em constante mudança – ainda que ambientada no século XVI -, a ascensão do anglicanismo como vertente religiosa a ser adotada pelo Reino Unido transformou-se num símbolo de “salvação” frente ao caos social que se instalava no território britânico, varrendo para debaixo do tapete as fés que outrora o povoaram.

O episódio culmina em duas grandes viradas que podem não impactar tanto no contexto geral de American Gods, mas traz respostas para pontas soltas e endossa a relação de todos os personagens, incluindo as não-aparições de Wednesday (Ian McShane), Mr. World (Crispin Glover) e seu exército de deuses modernos, bem como os futuros personagens a darem as caras na season finale (cuja transmissão ocorre neste domingo, 18).

A outra grande revelação é a de que os deuses, assim como toda a gama de criaturas fantásticas que essencialmente são superiores aos erros e à própria mortalidade dos humanos, estão conectados e são dependentes de sua crença. Em outras palavras, suas criações convergem no sustentáculo para a sobrevivência e a disseminação de uma cultura. Enquanto Essie abandonou de certa forma suas origens célticas, ainda que mantivesse dentro de si uma mitologia extremamente diversificada que permitiu o contato com o mundo espiritual, e se deixou levar pela inevitabilidade do progresso, Mad Sweeney tem plena consciência de que precisa manter o misticismo vivo para o funcionamento do mundo em si.

O sétimo e penúltimo capítulo de American Gods é o mais poético da temporada. Aprofundando-se em relações interpessoais e recheado de metáforas para a própria contemporaneidade, Neil Gaiman, em conjunto com Bryan Fuller Michael Green, nos entregou mais uma pérola a ser admirada e começou a deixar um tanto quanto tristes para o grand finale.

American Gods – 01×07: A Prayer for Mad Sweeney (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: Adam Kane
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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