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American Horror Story chegou ao final de mais um ano, e com isso o sétimo círculo da releitura televisiva do Inferno de Dante se fecha: seguindo as teorias alimentadas pelo próprio criador da macabra antologia, Ryan Murphy, a mais nova temporada, intitulada Cult, falaria abertamente sobre o tema heresia, apresentando personagens e subtramas que conversariam de modo explícito sobre o confronto de pensamentos antagônicos dentro de uma sociedade dogmática progressista. Os dois grandes polos dessa iteração são representados por Ally (Sarah Paulson), encarnando uma empreendedora lésbica, e Kai (Evan Peters), um radical extremista líder de um culto político baseado no medo e no caos.

Essencialmente, em pleno século XXI, a submissão de uma raça à outra ou de um sexo a outro já caiu por tabela, apesar de ocorrer de forma constante em diversos aspectos do cotidiano – seja pelos crimes de ódio ou pela desigualdade de gênero no ambiente de trabalho. Entretanto, a conquista do espaço e o empoderamento das minorias sociais é algo que foi adotado pela sociedade contemporânea e que renega as bases do conservadorismo reacionário que defendem valores imorais e até mesmo desumanos. É justamente nessa perspectiva, a qual é distorcida e estabelecida por uma visão muito mais abominável e horrenda arquitetada por Kai, que a heresia se instala: um grupo, formado pelos mais diferentes indivíduos, varrendo seus ideários como forma de permitir a emergência de algo que vai além de sua própria existência.

Desde o primeiro episódio, Cult mostrou como as pessoas podem se tornar dependentes de uma ideologia, buscando incessantemente por um líder. Logo, não é nenhuma surpresa que a gangue de palhaços assassinos que assola uma pequena cidade do Michigan no período imediato após as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Se as tensões político-sociais já aumentaram com a rixa entre Hillary Clinton e Donald Trump, também é de se esperar que uma série tão crítica quanto AHS aproveite dessa situação para desenvolver as motivações de seus personagens. Kai não é um líder comum, apesar de traçar inúmeras semelhanças com outros fanáticos muito famosos – como os radicalistas Charles Manson e Valerie Solanas (que também eram opostos entre si, ainda que em época diferentes); sua personalidade movida pelo trauma e pelo desejo de “fazer do mundo um lugar melhor” é ofuscada por seus demônios internos que não suportam traição ou covardia – o que é irônico, considerando que ele trai a própria condição de família ao matar seus dois irmãos (Cheyenne Jackson e Billie Lourd).

No penúltimo episódio, Charles (Manson) in Charge), Murphy e seu time criativo recriam uma narrativa passível de ovação que remonta à época do assassinato de Sharon Tate pelo imortal assassino em série em questão. A atriz, ex-esposa do famoso diretor Roman Polanski, foi morta quando estava grávida de quase meses, sendo enforcada pelo culto de Manson como forma de espalhar uma nova ordem social a ser temida ou seguida pelos outros. A partir disso e dialogicamente de modo diabolicamente perverso com a polêmica da descriminalização do aborto, Kai decide realizar a Noite dos Mil Tates, induzindo os membros do culto a invadirem os centros de planejamento familiar, aulas de lamaze e hospitais para roubarem as listas das mulheres prestes a darem à luz e mutilá-las, transferindo a culpa para o senador candidato e concorrente ao personagem de Evans para o cargo no Congresso.

O episódio fala essencialmente sobre sacrifício. Gary Longstreet (Chaz Bono) é eventualmente morto pelos membros do clã, sendo creditado como mártir e símbolo de uma crença que logo se espalharia para os quatro cantos dos Estados Unidos e, num futuro caótico, para o mundo. Mas se o décimo capítulo nos entrega para uma séries de viradas inesperadas, o season finale aumenta ainda mais as expectativas para o futuro da série, principalmente por criar ainda mais conexões com as temporadas anteriores. Em Great Again, a concepção do episódio já começa de forma estranha, por assim dizer, mostrando Kai preso e tentando recrutar mais uma vez membros para seu culto.

Acontece que Ally, abandonando todas as suas inúmeras fobias que foram exploradas ao máximo através de tramas e subtramas, após se livrar dos obstáculos que a impediam de encher seu potencial – matando sua ex-esposa Ivy (Alison Pill), por exemplo -, entendeu que, para salvar a vida de sua família e impedir que os ideais seguidos pelo macabro grupo se disseminassem, ela deveria agir. Fingindo copiosamente que Kai era o real pai do seu filho Oz (Cooper Dodson) e mergulhando em um papel que conseguiu manter por tempo suficiente para descobrir mais sobre as intenções dos participantes, Ally fez um acordo com o FBI: em troca de imunidade, tanto para si quanto para Beverly (Adina Porter), uma mulher negra que se encontrava numa posição de subserviência para homens brancos misóginos e racistas, ela iria se infiltrar na casa do Governador Divino e conseguir o máximo de informações necessárias para deixá-los à mercê de uma punição justa.

Apesar da narrativa encontrar uma conclusão interessante e até mesmo digna, considerando os acontecimentos passados, o que rouba a atenção do público são as duas últimas cenas da temporada. Primeiro, Murphy mais uma vez consegue colocar suas referências para anos anteriores sem forçá-los a existir. Além do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), o qual serviu de base para a concepção do culto de Kai, Beverly e Ally conversam sobre uma aparição no programa de Lana Winters (jornalista interpretada por Paulson em Asylum, e que reapareceu em Roanoke), mantendo os limites do microcosmos de AHS.

Fechando com chave de ouro, Ally fala para seu filho que irá se encontrar com pessoas muito poderosas para discutir suas responsabilidades para com o povo; logo depois, ela permanece vários momentos olhando seu reflexo no espelho antes de colocar uma túnica, uma das muitas vestimentas utilizadas pelas bruxas de Coven. E isso não é tudo: na terceira temporada da série, Fiona (Jessica Lange) fala para Zoe (Taissa Farmiga) sobre a presença de feiticeiras inclusive na política dos Estados Unidos – o que nos leva a pensar que elas estavam possivelmente se referindo ao novo cargo de Ally e que as duas temporadas estão na mesma linha cronológica.

Os dois últimos episódios de Cult completam mais um ciclo de uma das antologias mais famosas da televisão contemporânea, adicionando ainda mais elementos para um complexo e assustador panteão movido pelos pecados humanos e pela rendição ao sobrenatural. Apesar das falhas visíveis na temporada em si, o sétimo ano permite que seu fiel público continue atordoado com os distorcidos personagens e histórias que assombram o próprio homem.

American Horror Story – 07×10: Charles (Manson) in Charge / 07×11: Great Again (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker, Jennifer Lynch
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk, Tim Minnear
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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