» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

É notável a evolução de American Horror Story entre os anos de 2017 e 2018. Cult mostrou-se como uma tentativa falha de conversar com assuntos contemporâneos, tangenciando o terror e logo depois afastando-se para narrativas sem nexo que se baseavam apenas no gore e na explicitação desnecessária. Apocalypse, desde sua prematura concepção, buscava retornar para as glórias da antologia, com tramas complexas fazendo parte de uma nova perspectiva para o gênero. É claro que, considerando o enorme sucesso desde seu lançamento, renovar a si própria era um trabalho complicado e que poderia representar um fracasso iminente; logo, repaginar algo que funcionou no passado era uma jogada mais interessante e produtiva para os produtores.

E foi assim que a oitava temporada nasceu e, mesmo com seu morno começo, encontrou território fértil que culminou em um assustador e maravilhoso crescendo até chegar ao sexto episódio. Em Return to the Murder House, Ryan Murphy não apenas buscava fechar questões abertas e sanar inúmeras dúvidas nesse hiato, mas também desejava dar um voto de confiança para uma das colaboradoras mais fervorosas de sua equipe. Posso dizer com a consciência limpa que Sarah Paulson, tomando as rédeas da iteração, fez um incrível trabalho mimético que recuperou transgressões fílmicas próprias do próprio cosmos AHS.

Uma coisa é fato: a série criou um universo paralelo recheado com personagens marcantes que mereciam mais tempo nos holofotes. E logo nos primeiros minutos, vemos Madison (Emma Roberts) e Chablis (Billy Porter) reabrindo os portões do imenso casarão e adentrando os claustrofóbicos corredores em busca de respostas sobre a natureza duvidosa de Michael Langdon (Cody Fern). Para isso, ambos lançam um feitiço para convocar os espíritos e conversar com cada um deles, numa tentativa de extrair a maior quantidade de informações possível. E é aqui que tudo fica ainda mais interessante; afinal, logo de cara revemos os rostos imutáveis do conturbado psicólogo Ben Harmon (Dylan McDermott) e Tate (Evan Peters) em mais uma de suas sessões eternas.

Para aqueles que não se recordam, Tate é pai de Michael e foi responsável por concebê-lo ao corpo de Violet Harmon (Connie Britton). O ato originou o Anticristo, que já prenunciava o fim do mundo, mas não da forma aterradora como a que aconteceu. É justamente por isso que cada um dos coadjuvantes que dão novamente as caras aqui saem de um simples arco filler para um papel importantíssimo – e o paradoxo jaze exatamente aqui: ao mesmo tempo em que cada informação é valioso, o episódio em si parece um spin-off alheio à própria temporada, incluindo nos quesitos técnicos e artísticos.

Mais do que nunca, os maneirismos de Murphy são encarnados nas construções imagéticas. Inúmeras sequências coreografadas por Paulson fazem uso de cortes bruscos, de planos-detalhe e de angulações distorcidas, até mesmo reconstruindo momentos de Murder House que são inesquecíveis de aplaudíveis. A fotografia escura também é recuperada, porém sem os floreios dos bunkers pós-apocalípticos: até mesmo a iluminação que transparece as janelas cerradas não se difunde, permanecendo focada nos personagens como forma de trazer-lhes mais relevância. Isso acontece em grande parte, apesar de algumas falhas, das quais falarei em breve.

Porém, não podemos negar que o momento de maior enriquecimento narrativo e choque insurge na aguardada aparição de Jessica Lange como Constance Langdon, guardiã de Michael. O simples sorriso cínico da atriz já é nostálgico, quanto mais sua incrível performance: além de praticamente carregar todo o peso dramático da iteração, ela se rende a um complexo de emoções difícil de não cair na canastrice excessiva, deixando de lado a compulsoriedade do overacting para demonstrar verdade. Constance tenta levar uma vida normal, encobrindo os eventos mais estranhos protagonizados pelo neto com um falso moralismo digno de repulsa e que logo é jogado no lixo por sua clara falta de forças para continuar. Não é à toa que, eventualmente, ela se rende às perdições da ruína e passa a fazer parte da única família que sempre a acolheu: “E Michael? Eu nunca mais o quero ver na vida”, ela diz.

Infelizmente, há algumas lapidações a serem feitas. Crystal Liu, principal responsável pelo roteiro, parece ter recebido ordens de Murphy para resolver tudo em quase uma hora de duração. Logo, é natural que algumas subtramas sejam mais frenéticas – mas o problema aqui é que quase nenhum coadjuvante tem a resolução que merece. Moira (Frances Conroy) finalmente se reúne com sua mãe e é libertada das prisões da casa. Entretanto, a lacuna entre o antes e o depois é bem perceptível: tudo acontece de modo ocasional, sem a profundidade que se tornou característica da antologia. Isso sem falar na forçada conciliação entre Tate e Violet (Taissa Farmiga), uma decisão de última hora para dar uma elevada na tensa atmosfera da temporada e que não é explorada do jeito que deveria.

De qualquer forma, Return to the Murder House, ainda que manchada com alguns deslizes, é mais uma ótima entrada para Apocalypse. Além de mostrar uma habilidade escondida de Paulson, que emerge como um competente nome atrás das câmeras também, as revelações cruciais para a continuação da narrativa principal são bem envolventes e nos preparam para um finale trágico e aterrador.

American Horror Story – 08×06: Return to the Murder House (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Sarah Paulson
Roteiro: Crystal Liu
Elenco: Sarah Paulson, Connie Britton, Dylan McDermott, Jessica Lange, Emma Roberts, Frances Conroy, Billy Porter, Evan Peters, Taissa Farmiga, Cody Fern
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Comente!