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Bambi é uma das histórias mais conhecidas do panteão Disney e talvez uma de suas mais trágicas, não pelo simples fato do diretor David D. Hand orquestrar uma bela narrativa conflituosa entre duas forças opostas e perigosas, mas também por se permitir usar e abusar de elementos um tanto quanto chocantes para o público-alvo infantil. Afinal, se pudermos recordar dos acontecimentos dentro desse longa-metragem, sabemos que a história é qualquer coisa menos superficial – ainda que peque em seus momentos finais com uma resolução doce demais para o que nos foi apresentado antes.

A trama principal gira em torno do personagem-título, um jovem cervo que nasce no ápice da primavera em uma densa floresta habitada por inúmeros animais – coelhos, corujas, pássaros, esquilos, toupeiras e muitos outros. Todos aguardavam ansiosamente o nascimento do pequeno filhote, visto que sua chegada anunciava também o sucessor do trono de Príncipe da Floresta, cujo cargo permanecia entregue a um misterioso veado intangível e imaterial, de presença quase intocável pelo próprio enigma que o cercava. Entretanto, é interessante ver como o filme se desenrola a partir da perspectiva do pequeno Bambi, o qual não entende exatamente o papel que lhe será destinado e nem as bruscas viradas que o aguardam.

De forma muito sutil, todo o escopo criado pelo novelista Felix Salten é resgatado pelo ótimo roteiro assinado pela dupla Perce Pearce e Larry Morey: se prestarmos um pouco mais de atenção à cronologia da animação, percebemos que a jornada do nosso amável herói cobre o período de um ano, iniciando-se na primavera e terminando na mesma estação. Tal investida metafórica funciona em todos os aspectos, visto que esse período normalmente é marcado pelo crescimento abundante das flores, cujo significado mais profundo conversa tanto com as ideias de renascimento e ressurreição. O primeiro aspecto emerge com a vinda do filhote ao mundo e suas descobertas acerca do vasto mundo que o cerca – e é simplesmente adorável observar o desastrado jovem finalmente desprender-se dos “braços” da mãe para experimentar coisas novas; o segundo aspecto, por sua vez, vem com a chegada do terceiro e último ato, no qual Bambi retorna para sua terra natal mais maduro e em uma idade também marcada pelas inúmeras descobertas, inclusive sexuais.

É claro que, em se tratando de uma obra infantil, explanar-se acerca de termos como “puberdade” não seria adequado moralmente, mas é impossível não traçar paralelos entre Bambi e a peça O Despertar da Primavera, assinada por Frank Wedekind no começo do século XX. Não é nenhuma surpresa que tal dramaturgia tenha entrado para a História como um marco do teatro moderno, visto que cada uma de suas composições arquetípicas conversa com uma fase tanto da infância quanto da adolescência, permitindo que seus personagens descubram a finalidade e a plasticidade dos próprios corpos de uma forma poética e envolvente. Nesta animação, o protagonista passa exatamente pelo mesmo arco, porém de forma mais romantizada e não tão explícita – tanto que, em determinado momento, ele se reencontra com uma antiga amiga chamada Faline e se apaixona por ela em sequências que traduzam os seus sentimentos mais íntimos.

O coming-of-age retratado nesta obra também alcança bastante sucesso ao não impedir-se de cometer alguns sacrifícios. Como sabemos, a vida de cada uma das pessoas é marcada por obstáculos, e a epopeia de Bambi obviamente segue esse padrão para que se aproxime de modo antropomorfizado da audiência. Com a chegada do outono, percebemos que o ainda jovem cervo, ainda que tenha aprendido algumas coisas, carrega certas dificuldades em desprender-se da mãe e percebe que aquilo que conhece na verdade é apenas a ponta do iceberg. É nesse momento que ele é apresentado também à pradaria, uma vasta planície verdejante e, ainda que represente um prospecto de independência, também o introduz aos conceitos do medo e do perigo, visto que a mesma ideia que lhe traz liberdade também lhe expõe a vulnerabilidade de elementos de força-maior – como os caçadores, nêmeses da própria organicidade da floresta.

Tal ideal encontra uma materialização ainda mais palpável com a chegada do inverno, uma estação marcada por uma atmosfera mais mortal e mais sombria. Não é à toa que é nesse momento, no final do segundo ato, que a dupla protagonista enfrente a real ameaça que outrora apenas permanecia no imaginário, com um eventual sacrifício para a sobrevivência da nova geração com a morte da mãe de Bambi. É muito difícil não se emocionar com o acontecimento, visto que Hand opta pelo foreshadowing ao invés de realmente mostrar o que aconteceu, retornando para a perspectiva ingênua, porém agora flagelada, do nosso herói, que deve trilha um caminho relativamente solitário agora que sua protetora não poderia mais estar consigo. E tudo fica ainda mais dramático nas doses certas quanto o Príncipe da Floresta emerge das sombras para dizer-lhe exatamente aquilo que não queríamos acreditar: que a resiliente corça foi assassinada.

A história também nos traz alguns dos personagens coadjuvantes mais adoráveis do universo Disney, como o elétrico coelho Tambor, que instantaneamente torna-se um dos melhores amigos do cervo, e o tímido gambá chamado Flor – cujo nome vem de uma fofa e hilária má associação feita por Bambi quando mais jovem e tentava aprender os nomes das coisas que o cercavam. Ambos permanecem como constantes catalisadores e companheiros do herói em toda a sua vida, até mesmo ao reencontrarem-se após meses separados por circunstâncias fortuitas. É interessante também perceber como o trio atinge uma fase de maturação em suas vidas ao mesmo tempo e passam pelos mesmos obstáculos juntos, incluindo aprender o que é certo e errado e como todos estão fadados a ceder aos desejos da carne e do coração – reafirmando que essas ideias são mascaradas por um véu infantilizado.

E como se não bastasse a incrível adaptação, não podemos deixar de mencionar a evolução nas técnicas animadas dentro do filme. A rotoscopia já havia sido utilizada dentro dos estúdios com Branca de Neve e os Sete Anões em 1937 e, apesar de prezar pela fluidez cênica, muitos movimentos tornavam-se floreados demais até para uma primeira tentativa. Após mais três longas-metragens, é encantador ver como o time de artistas por trás das concepções imagéticas inclina-se cada vez mais para um estudo aprofundado daqueles que desejam retratar – no caso, animais silvestres que portam-se de diferentes jeitos dentro de uma mesma ambiência. Além do inebriante cenário, cada uma das espécies é dotada de suas próprias características reais, incluindo alguns trejeitos que podem ser vistos nos seres humanos – tiques ou maneirismos, por assim dizer.

Mesmo pecando em sua resolução, Bambi é uma jornada lúdica entre a vida e a morte, passando por todas as fases do crescimento humano-animal. Através de uma travessia emocionante, este talvez seja uma das explicações mais didáticas acerca da era dos descobrimentos, principalmente ao utilizar de modo consciente as estações do ano como representação simbólica e realista do amadurecimento de cada um de seus personagens.

Bambi (Idem, EUA – 1942)

Direção: David D. Hand
Roteiro: Perce Pearce, Larry Morey, baseado no conto de Felix Salten
Elenco: Hardie Albright, Stan Alexander, Bobette Audrey, Peter Behn, Thelma Boardman, Janet Chapman, Jeanne Christy, Dolyn Bramston Cook
Gênero: Animação
Duração: 69 min

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