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As comédias românticas adolescentes tiveram uma importância impactante dentro da secularidade do Cinema e o modo como artistas puderam conversar com as novas gerações que passariam a consumir seus produtos. Não é nenhuma surpresa, pois, que tais histórias popularizaram-se na virada da década de 1980 para 1990 com Gatinhas e Gatões, O Clube dos Cinco e 10 Coisas que eu Odeio em Você. Com a virada do século, percebeu-se que críticas ácidas ao modelo escolar norte-americana poderia abandonar alguns trejeitos românticos demais e apostar em uma montagem muito mais contemporânea – e com isso temos outras obras-primas inesquecíveis como Garotas Malvadas e, recentemente, os incríveis A Mentira e Quase 18, que não apenas são envolventes, mas também trazem marcas aplaudíveis quanto à estética e à construção narrativa.

Essa multiplicidade de perspectivas e investidas apenas prova a plasticidade do sub-gênero, o qual talvez seja o mais moldável de todos e que consegue fugir com mais fluidez aos inúmeros convencionalismos. É claro que deslizes sempre serão cometidos, visto que as tramas partem de uma fórmula pronta de juntar os outcasts de uma padronização excessiva, colocando-os em um coming-of-age que essencialmente termina em um final feliz – porém é interessante analisar como a originalidade não está na quebra da estrutura, e sim em como utilizá-la ao seu favor. Partindo desse princípio e levando em conta até mesmo as diversas mudanças socioeconômicas, incluindo a considerável ascensão das minorias, é que Com Amor, Simon mais uma vez recuperou essa incrível subjetividade e tornou-se uma agradabilíssima ode ao amor.

Baseado no romance Simon vs. a Agenda Homo Sapiens de Becky Albertalli, a história principal gira em torno da jornada de autoaceitação do personagem-título, o qual, diferente de criações conterrâneas, já sabe de sua orientação sexual, mas não sabe como lidar com isso. Só com esse leve relance da premissa, percebemos que não estamos assistindo a um longa-metragem como qualquer outra, mas sim a uma atmosfera mais leve e definitivamente envolvente. Aqui, não se procura apenas trazer a parte trágica – que é importante, sem sombra de dúvida -, e sim combiná-la de forma equilibrada aos eventuais escapes cômicos e momentos de alegria e descontração de qualquer adolescente gay da contemporaneidade. Entretanto, nada disso seria possível sem o carisma performático de Nick Robinson como o nosso herói, cuja atuação é emocionante e muito palpável.

Seguindo o padrão arquetípico de Emma Stone e Hailee Steinfeld em suas próprias rendições, o escopo geral parte da perspectiva de Simon. Ele é o narrador-personagem analítico que não nos satura com sua presença “endeusada”, mas serve para compreendermos um ponto de vista que não seria possível entender sem essa quebra da cronologia narrativa – e, nesse quesito, a veracidade da montagem múltipla também contribui para a criação de um cosmos único, ainda que ceda à zona de conforto em sua maior parte. O protagonista tem a família perfeita – “o quarterback gostosão se casou com a oradora da turma”, ele diz -, amigos que levará para a vida inteira e um futuro brilhante à sua frente, exceto pelo fato de continuar escondendo sua sexualidade por medo e por não saber como os outros irão reagir.

Ele se sente sozinho, ainda que não tenha sido o primeiro aluno da escola a se assumir, e as coisas mudam quando uma de suas melhores amigas, Leah (Katherina Langford) o avisa de um certo site que expõe os habitantes da pequena cidade onde moram e que, aparentemente, um outro estudante também lida com esses conflitos de sexualidade. É a partir daí que o duo de roteiristas Isaac Aptaker e Elizabeth Berger busca referências nas narrativas epistolares do século XIX para vesti-las com uma roupagem contemporânea e até mesmo divertida: Simon e o garoto misterioso, apelidado de Blue, começam a se corresponder por e-mail, primeiramente apenas compartilhando sobre as angústias por que passam, mas depois desenvolvendo uma afeição que se transforma em uma crescente paixão.

Logo, Simon começa a ficar mais atento ao seu redor, tentando descobrir quem pode ser o misterioso rapaz por trás dos belíssimo e poéticos e-mails. E é claro que nem tudo seriam flores: Simon se encontra envolvido no possível relacionamento entre seus outros dois besties, Abby (Alexandra Shipp) e Nick (Jorge Lendeborg Jr.), quando seu segredo é descoberto e ele é chantageado por um “colega” que é desprezível demais para conseguir se dar bem com outras pessoas. Talvez um dos momentos consecutivos desses eventos é a revelação de sua sexualidade de forma abrupta e até mesmo cruel, a qual se espalha pela cidade como água e, ainda que não explorada de forma tão complexa, traz brechas para temas como livre-arbítrio e invasão de privacidade: esse mesmo amigo, agindo com o coração partido, expõe no mesmo site os e-mails que Simon trocava com Blue e ele se sente traído não pelo fato de todos passarem a conhecê-lo de verdade, mas sim por não escolher quando contar.

Um dos momentos mais emocionantes é a mandatória conversa sobre a orientação do protagonista com seus pais. Primeiramente, não podemos deixar de citar a incrível química de Jennifer Garner, que encarna uma psicóloga liberalista chamada Emily, e Josh Duhamel, dando vida ao sensível ex-jogador de futebol americano Jack. A dupla chega a soltar faíscas em qualquer sequência que estrelam, seja pelos diálogos divertidos e fluidos, ou até mesmo pelas expressões faciais que em momento algum inclinam-se para a canastrice. O ápice vem quando Simon e Jack finalmente ficam frente a frente para conversarem sobre a revelação e o pai não consegue impedir de se sentir culpado por não ter percebido isso antes. É claro que isso representa uma pequena parcela do que realmente acontece quando um jovem se abre para seus pais; porém, é adorável ver uma perspectiva original e comovente nas telonas, de vez em quando.

Apesar da criatividade e da lapidação de seu roteiro, o diretor Greg Berlanti não ousa tanto quanto poderia com o filme. A montagem por vezes anacrônica demonstra uma ínfima parte de seu potencial e faz algumas críticas sarcásticas para toda a ideia de aceitação por parte dos heterossexuais, e mesmo assim reverencia comédias românticas predecessoras. No geral, os planos seguem sua experiência com a televisão, principalmente o jogo campo-contracampo que pode ser visto em produções nas quais trabalhou (Arrow e Flash, por exemplo) e, ainda que seja satisfatória, jazem em uma zona de conforto excessiva.

O brilho do filme acaba se esvaindo com a resolução principal e com a revelação de real identidade de Blue. É claro que o final formulaico já era de se esperar, mas a construção cênica fica risível por se tornar um espetáculo do “abraço à comunidade LGBT+” – e é até mesmo ofensivo em certos momentos. Literalmente toda a escola permanece em uma espécie de arena improvisada observando o encontro do futuro casal, torcendo para que tudo dê certo. Tal momento seria lindo, se não fosse falso demais para ser levado a sério e se não tornasse uma atmosfera a priori intimista em uma “apresentação circense” desnecessária.

Com Amor, Simon traz de volta o doce gosto das comédias adolescentes, mantendo uma estrutura conhecida pelo público ao mesmo tempo em que aposta em novas formas de contar histórias de amor. Combine isso com um elenco admirável e inebriante e pronto: temos um produto que não apenas emociona, mas que serve como base para uma nova fase desse sub-gênero cinematográfico.

Com Amor, Simon (Love, Simon, EUA – 2018)

Direção: Greg Berlanti
Roteiro: Elizabeth Berger, Isaac Aptaker, baseado no romance de Becky Albertalli
Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynan Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr., Talitha Eliana Bateman
Gênero: Comédia Romântica
Duração: 110 min.

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