» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter e fique por dentro de todas as notícias! «

Clique aqui para ler nossa crítica COM SPOILERS.

Nós vivemos numa época estranha. Hoje em dia, basta um livro, uma peça de teatro ou um filme abordar um assunto relevante para ser laureado como uma obra de arte de altíssimo valor. Não importa a qualidade artística do produto, não importa a profundidade do conteúdo transmitido, muito menos a capacidade técnica dos envolvidos. Se está tocando numa questão importante, já merece entrar para os anais da história das Artes. É como se os artistas tivessem encontrado uma maneira de salvaguardar a recepção positiva às suas obras, ou seja, tudo o que precisam fazer para serem elogiados pela crítica especializada é “discutir” um tópico pertinente.

Se você tem isso em mente, o sucesso avassalador de um filme como Corra! deixa de parecer algo incompreensível e se torna um claro sintoma dos tempos modernos. É evidente que o longa do diretor Jordan Peele coloca o dedo em uma ferida cultural, sociológica e econômica que assola o Ocidente há séculos, no entanto, não adianta nada se a embalagem artística do filme e a profundidade intelectual do comentário proposto pela história não impressionam. Se fosse para ver e ouvir algo cru sobre o racismo da supremacia branca, eu assistiria a um discurso de Barack Obama. Na sala de Cinema, sempre espero presenciar coisas mais artísticas.

Escrito pelo próprio diretor, o roteiro de Corra! é uma mistura ineficaz de Adivinhe Quem Vem Para Jantar e o gênero horror. Na história, Chris Washington (Daniel Kaluuya) é um jovem fotógrafo receoso de conhecer os pais da sua namorada, Rose Armitage (Allison Williams). Ele é negro, ela e eles são brancos de classe média. Chegando na residência destes, que está localizada em uma cidadezinha interiorana, o rapaz logo percebe que os empregados que trabalham na casa – todos também negros – se comportam de uma maneira robótica. Enquanto permanece lá, uma série de eventos estranhos começam a acontecer.

O filme até começa bem, com um longo plano que é bem realizado e rapidamente suga o espectador para a história, porém, depois dessa espécie de prólogo, passamos a acompanhar a apresentação dos personagens e o estabelecimento do mistério principal (que, aliás, é previsível desde o momento inicial), e, numa espiral de decadência, o filme atinge níveis cada vez maiores de superficialidade, nunca chegando a desenvolver a situação na qual eles se encontram e a temática do racismo de uma maneira satisfatória. Tudo gira em torno da seguinte chave: “o racismo contra os negros ainda existe”.

Ora, o público sabe disso. Testemunhamos essa realidade todos os dias nas ruas e nos noticiários, mas esperamos que, em um filme, esse assunto seja tratado com mais perspicácia, nos mostrando elementos que desconhecemos ou com os quais não temos muito contato. A única característica que salta aos olhos diz respeito ao fato dos pais da garota, que são interpretados por Bradley Whitford e Catherine Keener, não serem os típicos americanos sulistas, e sim progressistas e democratas que moram em estados azuis. De fato, isso não é algo comum de ser visto. Porém, a ousadia e a coragem se restringem somente a essa característica.

No restante do filme, somos obrigados a acompanhar clichés comuns em obras do gênero, como um cervo atravessando na frente de um carro e, de certa maneira, anunciado o que está por vir, jump scares descarados sendo empregados indiscriminadamente, alívios humorísticos (o personagem interpretado por Li Rel Rowelry) cuja comicidade não faz feio quando comparada com os filmes de “comediantes” como Tina Fey, Amy Poehler e outros tão ruins quanto elas, plot twists manjados e furos visíveis de roteiro (quando o grande segredo do filme é revelado, criam-se várias inconsistências narrativas, umas chegando até a colocar a crítica ao racismo em xeque, o que leva o espectador a se perguntar se o que está acontecendo não podia ocorrer de uma maneira completamente diferente e ainda assim funcionar). Inclusive, tire a denúncia que o longa faz, e o que se tem é uma obra genérica que, em qualquer outra situação, seria rapidamente desprezada.

No entanto, nenhuma dessas falhas consegue superar a falta de ética do filme na hora de tratar os personagens brancos. Na história, todos que possuem a pele clara são hipócritas, superficiais, mentirosos, opressores, ruins e invejosos (quem ver o filme entenderá este último adjetivo). Ou seja, para empoderar uma raça, Peele precisa maldizer completamente a outra. Portanto, daí é possível concluir que, em vez de um diálogo cultural entre os brancos e os negros, ele está querendo indicar que estes, na verdade, são superiores àqueles e, além disso, devem pagar a violência que sofreram na mesma moeda.

(Aos que não viram o filme, recomendo que pulem o próximo parágrafo e retomem a leitura no seguinte)

Aliás, o ato final, que tenho certeza que muitos aplaudirão após terem torcido para que acontecesse exatamente o que ocorre (ah, como a humanidade está perdida…), é pretendido como um evento catártico, porém, acaba se mostrando assustadoramente desumano. Só mesmo na cabeça doentia de um humorista inconsequente o que acontece nos minutos finais seria concebido como algo libertador e crítico. 

Um terror que não amedronta, uma sátira que não faz rir e uma denúncia que não gera reflexão, Corra! é a péssima estreia de Jordan Peele na direção de um longa metragem. Sei que serei um dos poucos a fazer essa declaração. Em quase todos os outros lugares, vocês lerão que o seu nome é um dos mais promissores e que o seu filme é um dos melhores do ano. Balela. Isso é medo de criticar uma obra que é ruim, mas toca em um assunto espinhoso, no qual as pessoas caminham sobre um campo minado quando o discutem. Aqui não há nada disso. O racismo é uma questão séria que merece ser discutida e solucionada em qualquer sociedade civilizada. Mas não é filmes como Corra! que nos ajudarão a trilhar esse caminho. No longa de Peele, só há ódio acumulado.

Corra! (Get Out, EUA – 2017)

Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Li Rel Howery, Stephen Root
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 104 min

Comente!