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Levando em consideração de que a transmissão de Deus Salve o Rei ocorre de segunda a sábado, é natural que as coisas se movam de um jeito mais devagar e sutil. E para uma narrativa épica como esta, a Rede Globo resolveu até mesmo investir esforços diferentes para manter o arco de seus protagonistas em uma crescente constância, até mesmo para reafirmar o estilo da série na qual se inspirou – e mesmo assim, essa voracidade com a qual algumas resoluções estão caminhando chega a ser estranha a um público acostumada com a lenta progressão dos acontecimentos. Mas não se preocupem: o oitavo capítulo representa um retorno quase definitivo às raízes das soap operas – e isso não necessariamente significa uma coisa.

As tramas às quais já fomos apresentados continuam a manter-se em uma zona de conforto que começa a ficar saturada e mais previsível do que antes. Amália (Marina Ruy Barbosa) e Afonso (Rômulo Estrela) permanecem em um “relacionamento” à distância, visto que a camponesa ainda aguarda o retorno de seu amado das terras de Montemor, enquanto o príncipe, que preferiu esconder sua identidade como ferreiro, permanece enclausurado nas fortificadas paredes de seu Castelo enquanto lida com uma crescente bola de neve de obstáculos e problemas a serem resolvidos. E é basicamente isso que temos nesse mais novo episódio: individualmente, ambos os personagens não têm quase nenhum desenvolvimento, e seus momentos em cena são acompanhados por expressões reflexivas e reafirmadas por uma trilha sonora melodramática ao extremo.

Felizmente, os pontos altos dessa narrativa finalmente encontraram uma brecha para a Princesa Catarina (Bruna Marquezine) e seus laços de aliança com o Duque Constantino (José Fidalgo). É claro que a atriz ainda não encontrou o tom certo para compor sua personagem, preferindo manter o alcance vocal em uma modalidade linear e com tentativas falhas de demonstrar sua frieza perante aqueles que a rodeiam, mas ao menos seu arco começou a tomar mais forma: sabemos que ela não mede esforços para conseguir o que quer, e agora ela adota sua sedução para se afastar ainda mais dos ideais pacifistas de seu pai (interpretado pelo marcante Marco Nanini) e arquitetar um plano de autodefesa bélico muito intenso. Entretanto, conforme dito no primeiro parágrafo, a novela decide investir em seu lado mais pessoal e individualista em detrimento de prezar pelo escopo medieval e fantasioso, resgatando elementos de outras produções de época e que já se tornaram previsíveis para a emissora.

Um dos pontos altos é a introdução definitiva de novos personagens: nos capítulos anteriores, a ambiência da cozinha era utilizada como uma representação das alcoviteiras da commedia dell’arte, ou seja, um prólogo ou uma transição para o público compreender e ter noção do que esperar. Mas agora, esse mero artifício narrativo encontra um pouco mais de protagonismo com a entrada da jovem Selena (Marina Moschen), figura que não se sente pertencente ao cosmos ao qual foi designada. Em se tratando de uma produção que remonta aos tempos da Idade Média, é necessário levar em conta que o sangue era a principal diferença de classes dentro da sociedade da época, e a ideia de ascensão econômica praticamente não existia. Entretanto, Selena não aceita sua condição e seu destino endossado de trabalhar como cozinheira da Família Real, repetindo para sua mãe e para todos que desejam ouvir que ela ainda não começou a viver e que não deseja ficar presa a uma profissão para a qual não leva jeito.

A introdução de tal personagem também chama pela primeira aparição do filho do treinador Romero (Marcello Airoldi), Ulisses (Giovanni De Lorenzi). Sua condição familiar premedita uma afeição natural pela guerra e pela aspiração ao mesmo status que o patriarca de sua família – e não podemos dizer que ele não tenta o seu melhor. Mas assim como Selena, ele não tem aptidão para o campo de batalha e prefere muito mais permanecer em sua casa e demonstrar suas habilidades com a cozinha. É interessante notar que as duas figuras eventualmente cruzam caminho e premeditam um romance a longo prazo, mas isso tomando como verdade universal o convencionalismo novelesco; entretanto, a reação de Romero durante determinada sequência em que vê seu filho conversando com o amigo pode nos levar a outros caminhos e outros temas que conversem com as polêmicas atuais, principalmente de orientação sexual.

Todo esse potencial e esse escasso brilho logo é apagado pelas incessantes e extravagantes investidas cômicas com o irmão de Afonso, o príncipe Rodolfo (Johnny Massaro) não definitivamente permanece como o palhaço de um circo que não existe. Ele não é capaz de abrir a boca sem entrar em contradição ou sem se perder em devaneios ilógicos – e tudo bem, isso é engraçado até certo ponto, mas tornou-se tão saturado que seus enfoques mais dramáticos e austeros não funcionam.

Deus Salve o Rei abraçou as fórmulas tão recicladas pela Globo nesse último capítulo de forma tão assustadora que fica difícil imaginar se a novela terá alguns momentos de pura entrega a uma nova perspectiva para as endossadas produções brasileiras televisivas. É claro que o episódio, de forma isolada, não é ruim, mas representa um retrocesso palpável – principalmente para uma obra com tamanho investimento artístico e orçamentário.

Deus Salve o Rei – Capítulo 08 (idem – Brasil, 17 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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