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Walt Disney carrega um estigma acerca de suas animações: é um lugar-comum muito errôneo acreditar que suas obras são superficiais e conversam em um nível cru com uma audiência essencialmente infanto-juvenil. De certo modo, se analisarmos suas investidas em relação aos inúmeros contos-de-fada, podemos dizer que a construção das protagonistas princesas segue um padrão até meados da década de 1990, provavelmente para se tornar mais “acessível” e seguir um estereótipo onírico que mantenha relações com o público-alvo. Entretanto, é inegável dizer que certos filmes vão muito além do que nos é mostrado e mergulham em universos complexos que falam de autoaceitação, preconceito e até mesmo realizam críticas sociais tragicômicas em meio a um escopo “feliz”, por falta de outro adjetivo.

Se Pinóquio já teve um sucesso incrível ao delinear uma história como nenhuma outra, bem como trazer uma evolução nas técnicas de animação, Dumbo consegue algo mais aplaudível em um tempo bem menor. Retornando na cadeira de direção, Ben Sharpsteen arquiteta uma narrativa que não precisa de muitas falas ou de muito tempo cênico para entregar uma mensagem atemporal e que serve cada vez mais para a sociedade contemporânea: afinal, tudo gira em torno do pequeno elefante que empresta seu nome ao título e que é entregue para uma carente e protetora mãe cuja solidão logo transforma-se em esperança. A primeira sequência nos leva às histórias que nossos pais contavam quando mais novos no melhor estilo “de onde vêm os bebês?”, mostrando uma coreografia incrível de cegonhas levando pequenos filhotes para os diversos animais em um zoológico-circo.

A Sra. Jumbo, como é chamada, sente-se decepcionada quando é a única a não receber a “entrega especial”, mas no dia seguinte é visitada por uma atrapalhada cegonha e finalmente se torna completa. Entretanto, diferente de outros da sua espécie, Dumbo tem uma pequena característica destoante: orelhas enormes e que não conversam esteticamente com o restante de seu pequenino corpo. O filhote logo se torna motivo de chacota pelo restante da manada que vive no circo e, apesar da inocência, não pode deixar de se sentir atacado por ser “diferente” – e é justamente aqui que uma simples trama começa a encontrar uma profundidade inigualável e inesperada.

Dumbo traça paralelos com os clássicos protagonistas da jornada do herói, principalmente por ser dotado de traços físicos e psicológicos que o tornam especial – e é isso que também permite que o público construa uma relação de empatia. Afinal, o longa-metragem foi arquitetado como uma representação não-convencional daquilo que grande parte das pessoas enfrenta todo dia – a necessidade de se encaixar nos padrões estabelecidos pela sociedade como forma de integração e de autoaceitação. Apesar dessa crescente imposição, o protagonista não abandona a sua fidelidade por ser a personificação de uma “criança” e não compreender porque a sua persona não é aceita dentro daquela comunidade, ainda que sua mãe repetitivamente o acolha e o acalente como um igual.

Joe Grant e Dick Huemer praticamente fazem mágica com o breve tempo de história, a qual mal chega aos sessenta minutos: mesmo com condições tão limitadoras quanto esta, ambos conseguem escolher de forma precisa o que desejam explorar mais a fundo, e é interessante analisar como cada personagem, seja com mais protagonismo ou entrando como coadjuvante, é de extrema importância para o arco de amadurecimento de Dumbo. Sua mãe, endeusada e colocada em um patamar superior a qualquer outra figura, é o arquétipo da protetora e não cede aos clichês do gênero, estando fadada a sofrer as consequências de seus atos – como destruir as instalações circenses para proteger seu filho de abusos físicos. As outras elefantes do grupo possuem poucas distinções entre si e resgatam as imagens alcoviteiras da commedia dell’arte, insurgindo como críticas ferrenhas à estética do filhote e que, como já é de esperar, provam do próprio veneno à medida que a história chega ao seu fim.

Ambos também percebem que a superexposição dialógica é um erro comum para filmes do gênero e que resolvem trazer questões pertinentes à tona. Logo, é comovente ver que nem Dumbo nem sua mãe tenham falas, optando pela utilização de expressões claras que refletem seus problemas e suas frustrações anteriores, bem como os laços afetivos que os unem. Aqueles que falam normalmente são caracterizados com personalidades frias e frívolas ou insurgem na figura de uma consciência mais humanizada. Nesta obra, tal papel é materializado pelo cômico camundongo Timothy – cuja presença já demonstra como o diretor tem afinidade para brincar com os opostos (afinal, reza a lenda que elefantes e roedores não tem uma convivência muito agradável). Tal personagem é o otimista conselheiro que acompanha o filhote em toda a sua breve jornada, encorajando-o a não se deixar levar pelas ridicularizações sem escrúpulos de seus colegas de trabalho e a acreditar em seu próprio potencial.

O time criativo por trás da obra-prima não apenas traz essas mensagens esperançosas e alegres com um desfecho satisfatório, mas aproveita o escopo para realizar diversas divagações antropológicas. Basicamente, toda a construção é uma grande metáfora para pautas como preconceito e supremacia racial: em determinado momento, perto do encerramento do segundo ato, Dumbo é forçado a trabalhar com os palhaços do circo para que tente integrar em um novo “nicho social”; ao perceberem que o maltratado elefante fez uma escolha imperdoável, as alcoviteiras se unem e decidem que ele não será mais visto como um dos seus e será para sempre um pária dentro de uma bolha extremamente intolerante e hostil. E como se não bastasse, a única figura que o aceitava como realmente é torna-se prisioneira de seu próprio amor e é enclausurada em uma prisão-solitária, além de ser tachada de louca e violenta.

Sharpsteen não poupa esforços para igualar a complexidade narrativa aos simbolismos cênicos: diversas sequências buscam referência na incrível arte do locus horrendus das escolas Romântica e Realista, principalmente em um momento crucial e divisor de águas que se desenrola ainda no ato introdutório – a construção do circo. Aqui, temos diversos trabalhadores humanos e homogêneos (uma leve inclinação para as questões de meritocracia e desigualdade social) utilizando todas as suas forças para erguerem a tenda, sendo ajudados pela resiliência da própria manada de elefantes. Além de serem acompanhados por uma profunda e ressonante canção intitulada Song of the Roustabouts, o caótico cenário é polvilhado por uma torrencial chuva, por enquadramentos e ângulos distorcidos e por uma paleta de cores fria e macabramente envolvente.

Dumbo prova que há mais coisas dentro de uma simples animação do que sonha a nossa vã percepção estigmatizada. Em poucos minutos – talvez o único problema do filme -, o público é apresentado a uma incrível e épica jornada que navega por inúmeras facetas sociais e que, eventualmente, reafirmam o status dessa narrativa como uma verdadeira obra-prima do cinema.

Dumbo (Idem, EUA – 1941)

Direção: Ben Sharpsteen
Roteiro: Joe Grant, Dick Huemer, baseado no romance de Helen Aberson e Harold Pearl
Elenco: James Baskett, Herman Bling, Mel Blanc, Billy Bletcher, Edward Brophy, Candy Candido, Jim Carmichael, Cliff Edwards
Gênero: Animação
Duração: 64 min

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