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Cena: dois ladrões invadem uma casa. A ideia é simples, roubar o que conseguirem sem serem pegos pelos donos, que provavelmente estão dormindo profundamente. O plano não tinha falhas, até que o telefone começa a tocar e um deles atende, esperançoso de que seja engano, mas acaba participando de um programa de perguntas e respostas no estilo Qual É a Música?. Resultado: os dois conseguem roubar cinquenta dólares e alguns objetos semi-valiosos, ao mesmo tempo em que ganham para os proprietários do sobrado um conjunto novo em folha de móveis e eletrodomésticos (uma geladeira no caso).

Woody Allen sempre teve uma mão muito boa para mexer com a comédia de costumes. Ainda que o gênero não tenha grande reconhecimento nos Estados Unidos, o modo como o cineasta consegue transformar as sequências mais cotidianas em uma pérola verborrágica é invejável, sem falar nas pequenas e ácidas críticas sociais que se escondem por trás dos trejeitos de seus personagens e do pano de fundo da narrativa principal. Logo, não é nenhuma surpresa que A Era do Rádio se inicie do modo que foi descrito no parágrafo anterior: uma esquete retirada do próprio meio teatral e inserida nas telonas de forma sutil, coesa e cômica.

O longa-metragem já traz as marcas registradas de Allen de filmes anteriores e que retornariam em outras obras futuras: a presença do narrados onisciente, o qual está a par de tudo o que acontece, tanto em seu próprio círculo quanto no círculo de personagens externos ao cosmos a que pertence; uma família ítalo-judia carregada com sotaque exagerados, trejeitos com a mão e uma paixão pela inquietação; e a presença, por mais ínfima e quase imperceptível que seja, do gângster. Apesar de parecerem destoantes entre si, cada um desses elementos contribui para a construção narrativa e para a maturação dos personagens em geral, além de permitir a existência de brechas para sátiras, ironias e alfinetadas sociais.

A trama principal gira em torno de um jovem garoto (Seth Green), cuja versão mais velha é o principal explanador e guia espiritual dentre as diversas aventuras e desventuras das outras figuras sociais. Joe, como é chamado o rapaz, relembra com carinho de sua infância, a qual foi essencialmente perscrutada pela presença de um elemento interessante e que já nos dá uma dica sobre a época na qual o filme é ambientado. Sabemos que Allen tem um apreço por narrativas históricas – e em Era do Rádio, sua investida nostálgica teria chance de maximizar o seu potencial. Aqui, o pública retorna para o início da década de 1940, momento no qual a popularidade desse meio de comunicação era inegável. Levando em consideração que o rádio era um veículo de massas, nada mais coerente permitir que a família em foco desenvolva suas relações a partir dele – tanto que cada um de seus membros não precisa necessariamente de um homem: eles representam, em forma de arquétipos sociais, pessoas normais influenciadas pela ascensão de inovações tecnológicas que transformariam irreversivelmente dinâmicas de convivência ao redor do mundo.

É claro que a escolha de um ambiente disfuncional contribui para as quebras de expectativa e para a suavização do drama – uma jogada que também já foi vista em inúmeros filmes do cineasta, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. A retratação pelo desequilíbrio psicológico não o deixa necessariamente com um apreço por essa “mazela”, mas sim permite que o roteiro seja delineado acerca de diversas figuras de linguagem que conversem de forma mais generalizada com um crescente público fanático pelas comédias dramáticas ao mesmo tempo em que cria uma conscientização que não se restringe apenas ao passado, mas permanece no presente e provavelmente será levada ao futuro. Ainda que a presença da elite seja constante, o foco reside sobre a generalidade, sobre a fusão de classes sociais distintas através de um elemento em comum.

A grande ideia aqui é que o rádio era permissivo. Em seus dias de glória, esse pequeno aparelho conseguia ao mesmo tempo expandir e comprimir núcleos sociais: a expansão ocorria ao aproximar pessoas geograficamente longe umas das outras em um mesmo canal de notícias ou de músicas, por exemplo, cuja clareza é muito bem explícita durante o bombardeio da baía de Pearl Harbor durante a II Guerra Mundial ou ao resgatar a história real de uma garota que morreu afogada num poço. A compressão, também entendida como união, é explanada de forma poética por Joe à medida em que ele associa sua bagagem cultural aos momentos em que a tia escuta às suas músicas ou quando o avô se deleita com o programa de esportes.

Além da verborragia escancarada e dos diálogos metafóricos, a estética de Allen volta a predominar com a precisão de sua direção. Em diversos momentos, os espaços claustrofóbicos (contraditoriamente até mesmo ao ar livre) são vestidos com uma fluidez muito mais ampla do que na realidade são, pelos planos sequências e pelo jogo de aproximação e distanciamento muito bem colocados. Tais construções imagéticas normalmente acompanham o arco de amadurecimento de Mia Farrow, a qual encarna uma aspirante à atriz que deseja fazer sua grande aparição na rádio local e tornar-se uma estrela. Entretanto, resgatando aspectos cômicos que nos recordam do musical Cantando na Chuva, sua personagem não se encaixa nos padrões vocais necessários e parece mergulhar em um tour de force nem um pouco convencional para alcançar seus objetivos.

A Era do Rádio não possui esse título à toa; ele remonta precisamente um tempo de glória para um dos elementos divisores de água da sociedade moderna – e Allen, utilizando-se de um grande e memorável elenco e de sua habilidade para compor narrativas coesas e envolventes, consegue nos transportar de forma instantânea para uma época que ao mesmo tempo se prova nostálgica e contemporânea, e que até hoje influencia nosso modo de pensar e de agir.

A Era do Rádio (Radio Days, Estados Unidos – 1987)

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Seth Green, Julie Kavner, Dianne West, Mia Farrow, Danny Aiello, Diane Keaton
Gênero: Comédia Dramática
Duração: 98 min.

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