“Quando você percebeu que era talentoso?”, perguntou a jornalista Katie Roiphe a Gay Talese, em entrevista para a The Paris Review no ano de 2009. “Nunca”, respondeu. “Tudo o que eu tenho é uma curiosidade intensa. Eu me interesso muito por outras pessoas e, igualmente importante, eu tenho paciência ficar perto delas.” O que se percebe ao ler sua coletânea Fama e Anonimato, também, é a atenção e o respeito do jornalista com suas fontes de carne e osso – o que não está nos mandamentos dos viciados repórteres-técnicos. Pai primordial ou não do Novo Jornalismo norte-americano, importa é que Talese manifestou em seus trabalhos as características sensíveis de um repórter-escritor. Ou até mais a segunda nomeação, vide o título de sua autobiografia (Vida de escritor, 2006).

Hoje, aos 84 anos, Talese continua uma figura chamativa, ainda mais nesse ano, com o lançamento de seu novo livro-reportagem, O Voyeur – lançado em julho no Estados Unidos e lançado na última semana de setembro no Brasil. A edição brasileira, inclusive, traz como posfácio a entrevista supracitada. A história, dessa vez, retoma de maneira espantosa, o tema da sexualidade – de maneira menos abrangente do que em A mulher do próximo (1981) -, a partir das histórias de Gerald Foos, “um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente”. Este novo trabalho e recentes declarações polêmicas evidenciaram o jornalista em veículos pelo mundo todo, colocando em xeque a validade do novo material. Após investigação do The Washington Post, que desqualificou a confiabilidade da fonte de Talese, o próprio escritor decidiu não mais promover sua nova reportagem – cotada, antes, para ser uma das melhores do ano. O caso, no entanto, não abala sua significância histórica, revela a (re)leitura do versátil compêndio Fama e Anonimato.

As minas do acaso

O fenômeno das cidades é estudado por diversas escolas de antropologia e sociologia desde seu surgimento, seja de pontos de vista patológicos ou neomarxistas. O papel da comunicação na formação dos centros urbanos e de seus cidadãos foi matricial para sistematizar o caos que a modernidade social carregou consigo. E suas consequências até hoje são latentes no cotidiano do nosso século. A jornada de um serendipitoso, primeira parte do livro, permanece inoxidável. Nada preocupado com as temperaturas elevadas do factual, Talese, garimpeiro do acaso, encontra ouro pelos paralelepípedos de Nova York. Uma centena de páginas com histórias do dia-a-dia e uma verborragia de informações isoladamente inúteis que podem ser lidas fora de ordem, funcionando em conjunto, assim como uma metrópole. Talese articula uma narrativa com várias perspectivas em um ambiente já múltiplo em si, cheio de dicotomias e paralelos. Não é, no entanto, o engenho, a maquinação, a secura dos aspectos objetivos que interessam ao escritor, mas a sua subjetividade e a dos seus personagens, sejam humanos ou construções.

Para isso, apela para uma meticulosidade cômica, mesmo que o autor confirme incessantes e árduas investigações. Quando são anunciados números precisos, como por exemplo a quantidade de pombos em Nova York, ou os 34 km diários de fio dental que a população de Nova York utiliza, o autor traz à tona um positivismo contrastante com seu próprio impressionismo. Destaque para a história de Edward Carmel, morador do Bronx, homem mais alto de Nova York e que “come feito um cavalo”. Por todo o segmento do livro abundam os adjetivos. Talese sabe que um perfil da cidade está no ambiente mais frio da caverna das pautas frequentada todos os dias por jornalistas desesperados. No entanto, o dândi encarna um monge capaz de meditar acerca das forças recíprocas entre o ambiente e seus habitantes. Os valores-notícia ultrapassam o sistema factual e chegam ao status de espelho.

Com altas doses de ironia, são analisadas mais do que histórias notáveis que passam despercebidas, mas também, em especial, a frieza do contato entre as pessoas – ou o porquê de existirem histórias “notáveis”. Incessante, a sociedade não possui tempo de se organizar ou passar da fatal função fática da linguagem. Talese nomeia: “a cidade da Conversa sobre o Clima”. Um dos poucos momentos de respiro, executado de supetão, descreve o cenário de um blecaute. Nessa situação, “só os cegos continuaram sua rotina normalmente”.

O acaso nada tem de útil. Por essa esquiva à instrumentalidade, A jornada de um serendipitoso é, além de um trabalho exemplar da literatura de não-ficção, um exercício estético engendrado com êxito.

A insustentável brevidade do ser

A história da engenharia é tão antiga quanto a história da humanidade. O progresso técnico e a ascensão da raça humana caminham juntos. No âmbito da engenharia civil, as pontes são um dos elementos mais recorrentes e importantes desse desenvolvimento. O que, primeiramente, a própria natureza revelou ao homem através de troncos caídos conectando as duas margens de um rio, tornaram-se colossos. Quantas pontes não são, só nos Estados Unidos, por exemplo, alvos de turistas e filmes-desastre?

Acompanhando a construção da Verrazano-Narrows, ponte suspensa que ligou o Brooklyn à Staten Island em Nova York, Talese evidenciou os limites da humanidade e de seus feitos. A figura dos boomers, ou seja, os trabalhadores responsáveis por erguer as pontes, não poderiam ter apelido melhor. Homens unem tudo, “menos as próprias vidas”. A ironia, que em poucas páginas poderia ser sutil, no entanto, é trabalhada extensivamente, até se tornar trágica. A fábula desses operários de diversas etnias (índios, brancos, negros), vindos de diversas partes do país e do mundo, em nenhum momento passivos ou despercebidos, evidencia a estreita relação do homem e seu trabalho.

Além de narrar as sagas, por vezes, muito ligadas a trajetórias familiares, desses homens brutos, sensibiliza a ponte, no caso, de tal forma, que quando um cabo se parte e uma importante peça cai na água, o peso e o desespero narrativo é o mesmo da perda de uma vida humana. A tensão dessa passagem em específico espelha-se a outra em que um boomer dirige embriagado em alta velocidade em seu caminho para casa: são ambos trechos detalhistas cuidadosamente lapidados, detalhistas.

Se em seu primeiro movimento Talese submerge no desconhecido e no imperceptível do dia-a-dia, em A ponte oferece uma interpretação epistemológica do jornalismo, das sinonímia das atividades, e dá um primeiro passo em direção a um aspecto mais conhecido da vida dos habitantes da região – a própria construção -, mas ainda reafirma a importância do processo, do como e do quem fez. Ciente do seu poder de fala, como construtor de narrativas, o próprio jornalista e suas frases transmutam-se em ponte de conexões atemporais. “Posteridade” seja, talvez, a palavra definitiva desta parte do livro. Assim como Talese enxerga sua arte cautelosa, baseada na checagem, na busca por uma verdade, como uma ferramenta para imortalidade, ironicamente, os boomers dispostos a arriscar suas vidas, confiantes no vigor e na força de seus corpos, buscam na ponte o pós-morte – já não mais como os escravos responsáveis pelas pirâmides, mas, em tom épico comparável, como filhos dessa América que ajudaram a erguer. Para isso, as duas partes, assim como qualquer verdadeiro jornalista e sua fonte, devem ser inseparáveis. Inclusive, a edição da Companhia das Letras, traz no apêndice o registro de Talese ao voltar para a Verrazano-Narrows 40 anos depois da conclusão da reportagem.

After the Party, Andy Warhol (1979)

Por baixo das togas

L’Esprit du Temps de Morin, publicado em 1962, é lido até hoje para estudar a cultura de massas do século XX. No terceiro parágrafo do primeiro texto de Excursão ao interior, Talese começa desconstruindo as figuras que Morin definiu como olimpianos. O próprio título, Frank Sinatra está resfriado, linguisticamente simples, é carregado de semântica. Os vírus que impediriam um jornalista comum de fazer uma superficial entrevista com a celebridade foram a ferramenta do mais famoso texto de Talese. “Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior”. A partir dessa fraqueza aquiliana, as entrevistas com pessoas que rondavam Sinatra (amigos, familiares, produtores…) possibilitaram ver o que estava debaixo das togas, inclusive das escondidas pelos holofotes artísticos. Togas vestidas não por Frank Sinatra, mas por il Padrone. Um descendente, assim como Talese, de italianos. Essa coincidência, também, o ajuda a expor os trejeitos, manias, a fúria em suas decisões. O perfil da estrela evidencia, no contexto dos guetos estadunidenses, os mitos de autorrealização da vida privada que seriam desenvolvidos em tantas peças artísticas a partir da década de 70. Todo o processo, por sua vez, é explanado no apêndice (Como não entrevistar Frank Sinatra), com muitos detalhes.

Produtos similares, metodologicamente próximos, são o recheio dessa terceira parte de Fama. No geral, são contos jornalísticos mesclados com elementos típicos de crônicas, como a inclusão de elementos que evidenciam a presença pessoal de Talese, na maioria dos textos, curtas passagens em primeira pessoa. Floyd Patterson, a redação da revista Vogue, Peter O’Toole – o ator que viveu T.E. Lawrence no épico de 1962; Joe DiMaggio, casado com Marilyn Monroe antes dela trocá-lo pelo autor de As Bruxas de Salem, Arthur Miller. Enfim, toda uma série de demolições da parede que separa o público e o privado. Esteticamente, porém, A festa acabou é uma crônica totalmente pessoal que traz uma perspectiva ácida de uma festa de Andy Warhol: “Nada está acontecendo. É um momento sem significado para a história”.  No meia da efervescência contra-cultural, críticos dançam com hippies, honkies, garotas de minissaia. “Amanhã, em sua coluna, Lerner fará declarações pomposas sobre de Gaule e sobre o Vietnã, ou sobre a questão do poder, mas esta noite ele está numa festa de Warhol, dançando de olhos fechados”. Na última linha do parágrafo seguinte, mais didático, a expressão reverbera: “Os críticos dançam de olhos fechados”. Sintético e afiado.

E para fechar esse segmento que em conjunto talvez seja o menos interessante, uma investigação sobre o responsável pelos obituários do The New York Times, Alden Whitman. Talese encontra nesta figura perfeccionista o seu duplo diretamente relacionado à morte (epigrafada por um trecho do drama histórico Ricardo II). O sr. Más Notícias está sempre antenado, catalogando fatos importantes das figuras públicas porque, no final, sobra para ele. Nada mais justo, pensa ele, que fazer um último retrato sensível e completo na medida do possível. Igualmente, nada mais justo que colher do anônimo o reconhecimento merecido, e, da fama, a trivialidade invisível.

Fama e Anonimato (Fame and Obscurity, 1970)
Autor: Gay Talese
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 536

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