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Após Game of Thrones atingir seu ápice na excepcional 4ª temporada, eis que somos brindados com uma 5ª morna e arrastada recheada de fillers, cliffhangers e exibição do chocante somente por seu efeito que não soube administrar bem trama e relevância de seus muitos personagens, só ganhando força em seus 3 últimos capítulos (sendo o do meio, irregular).

A 6ª temporada começa com The Red Woman em mais um péssimo exemplo de como a série pode soar desgovernada com a falta de foco, mais como um complemento do episódio final da temporada passada que não foi exibido no momento adequado. Uma mudança no status quo de Dorne acontece, somente para voltarmos a esse núcleo no último episódio. Sansa e Theon se separam, com Sansa indo para o extremo Norte acompanhada de Brienne e Podrick e Theon indo para as Ilhas de Ferro encontrar com sua irmã. Na Muralha, Davos se lamenta pela morte de Snow enquanto se rebela contra a patrulha e Melisandre surge abalada com a falha das suas previsões (esta fecha o capítulo com uma reviravolta inútil dentro da temporada).

Jon Snow ressuscita através da feitiçaria de Melisandre no cliffhanger do segundo capítulo. A decisão de reviver personagens importantes após suas respectivas mortes geralmente não me agrada em séries como essa, me fazendo encarar como covardia por parte dos showrunners. Porém aqui, como se tratou de uma situação resolvida de imediato e que não foi responsável por gerar enrolação, eu relevo, vulgo os planos maiores reservados para o personagem de Kit Harrington. Sansa e Brienne chegam na Muralha, gerando momentos com decupagens mais simbólicas por parte da direção no reencontro entre Sansa e Jon Snow e são ameaçados de uma guerra por Ramsay (responsável pela morte de Osha, outra personagem esquecida da série) que exige o retorno de Sansa e usa Rickon como trunfo. Bons momentos também são vistos nos diálogos entre Sansa e Mindinho, mostrando o amadurecimento da personagem.

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Um humor raro na série marca presença entre os olhares de Brienne e Tormmund em uma cena organicamente inserida na Muralha. A futura guerra que viria acontecer no episódio 9 é então construída com a partida de Snow e Sansa de Castle Black para buscar aliados (o encontro com Lady Mormont vale ser ressaltado por nos permitir observar a inexperiência de Jon Snow, a experiência de Daavos e a atuação de Bella Ramsay durante um diálogo, gerando um bom jogo de contrastes).

Em Braavos, Arya, agora cega, entra em uma nova etapa de seu treinamento, somente para, em seguida, voltar a enxergar tirando o peso da corajosa decisão do final da 5ª temporada. Após ser dada uma segunda chance para provar sua lealdade matando uma atriz (que rende boas cenas em encenações teatrais dos acontecimentos pregressos da série em King’s Landing), acompanhamos ela realizar o oposto resultando em sua perseguição pela Waif que esfaqueia a pequena Stark. Sua relação com Lady Crane, a atriz, é bem executada e trata-se algo bem-vindo na série. Uma pena que já sabíamos como iria acabar visto que todas as regras estabelecidas pela série foram seguidas…. Ao menos, o arco de Arya em Braavos é encerrado de forma satisfatória deixando algumas dúvidas sobre as intenções de Jaq’har, porém fica evidente de que poderia ter sido resolvido de forma mais dinâmica do que em 2 temporadas. A ausência de uma mudança forte na personagem foi sentida (fora algumas novas habilidades aprendidas, o que realmente mudou em Arya desde que chegou em Braavos e o que de relevante realmente aconteceu?).

Bran dá início a uma nova tendência filler da temporada ao mostrar flashbacks de seu pai nas proximidades da Torre da Alegria (a história que se desenvolve nesse segmento até a bombástica revelação no episódio final poderia muito bem ter sido contada em apenas 1 episódio). Durante uma de suas sessões, ele faz uma descoberta relevante em que mostra que os Caminhantes Brancos foram criados pelos Filhos da Floresta para se protegerem dos Primeiros Homens, revelando sua localização no processo, resultando na morte do Corvo de Três Olhos (mais uma ponta de luxo de Max Von Sydow, ator subaproveitado), dos Filhos da Floresta que estavam ao lado, de Verão e de Hodor que se despede da série com intenção honrosa mas de forma extremamente decepcionante visto que seu sacrifício para nada serviu se analisarmos melhor, enquanto paralelamente flashbacks são mostrados com sua versão mais jovem gritando a já antológica frase “Hold The Door” fechando sua história de maneira circular. O ataque dos White Walkers é efetivo em sua execução ao criar tensão, urgência e senso de ameaça que marcaram presença em suas outras aparições. Durante a fuga, Bran e Meera são auxiliados pelo tio de Bran, Benjen Stark (um mero fanservice), ex-patrulheiro de Castle Black.

Daenerys que aparentava estar pertencendo a outro arco forçado que iria durar mais do que deveria presencia no 4º episódio um dos melhores momentos da temporada ao assassinar Khal Moro e os outros Khals botando seu templo em chamas enquanto ela nua e pura consegue atravessá-las emergindo ilesa fazendo com que os Dothraki se curvem perante ela e apoiem sua causa, aumentando seu já numeroso exército. Também observamos aqui uma correta conclusão provisória da trama de Jorah Mormont que parte em busca de uma cura para o problema mal resolvido da 5ª temporada. Depois que Drogon (com um excelente CG diga-se de passagem) a encontra no caminho de volta para Meeren, só voltamos a vê-la no final do 8º episódio.

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Enquanto isso, em Meeren, Tyrion negocia com os mestres dos escravos gerando conflitos superficiais entre ele e Missande e Verme Cinzento que são facilmente superados. Por mais que, em uma cena, a dinâmica entre os três é divertidamente mostrada através do conto de piadas durante uma bebedeira, é perceptível que houve um mal-uso tanto de Tyrion quanto de Varys durante toda a temporada pela falta de ações relevantes para serem resolvidas. Uma grande pena e um desperdício de talento. Lembram do “Eu sou culpado por ser um anão” na quarta temporada? Pois é… Não bastasse isso, ainda entra na história uma outra feiticeira vermelha que logo desaparece. Mais uma personagem inútil até então.

Euron retorna para as Ilhas de Ferro assassinando seu irmão, Balon, e ganhando a assembleia do Kinsmoot para governar o local (mesmo admitindo o feito que deu fim ao impopular rei), causando a fuga de Yara e Theon para Meeren. Uma parada desses dois no meio do caminho apenas para exibir de forma clichê e repetitiva o trauma e as condições de Theon é forçada e não serviu para manutenção de um drama competente com o personagem de Alfie Allen.

Em King’s Landing, o julgamento de Cersei e Loras se aproxima enquanto algumas reviravoltas acontecem. Jaime, acompanhado de sua guarda, em uma medida desesperadora pede ao Alto Pardal que entregue a Rainha Margaery apenas para ser surpreendido com uma aliança entre Tommem e a Fé Militante, que mais tarde proíbem o julgamento por combate. Lenna Headey prova que ainda é a melhor atriz da série e em cada aparição de Cersei somos catapultados para dentro da personagem tamanha sapiência em atuar no limiar do pesar, da raiva, da dúvida, da imprevisibilidade e da arrogância em diferentes passagens. O personagem de Nikolaj Coster-Waldau sofre aqui do mesmo mal que lhe acometeu durante a quinta temporada, Jaime fica perdido dentro dos grandes eventos. Todo o arco envolvendo Blackfish e Edmure em Riverrun é fraco e blasé (não fosse pela aparição de Brienne, teria sido um completo desastre). Note que Blackfish, rondado por uma fama e perfil que flertam com o antológico, é reduzido a apenas mais um personagem de uma nota só que morre momentos depois de sua aparição sem ter proferido um único diálogo sequer que foge do básico, dando mais um exemplo do que a série tem de pior a oferecer.

Sem dúvida, um dos arcos mais jogados foi o que envolveu o retorno de Sandor Clegane, o Cão de Caça. Por ser um personagem do qual possuo bastante apreço, embora tenha ficado feliz com o seu retorno, não pude deixar de me incomodar com a história clichê e avulsa que lhe envolveu com a pequena vila de Ian McShane apenas para mostrar a velha máxima “o homem tenta deixar a violência, mas a violência não deixa o homem, que não consegue fugir de seu passado” de forma banal e deslocada da trama em geral. Seu encontro com a Irmandade Sem Bandeiras é uma ideia interessante de ser explorada (e que rendeu ótimos diálogos irônicos e farpados de Rory McCann) requerendo um certo peso e relevância ausentes nessa temporada.

Com péssimo início e um meio que oscila entre o bom, o ótimo, o aceitável e o medíocre, a série mostra que talvez, sem um material base para seguir, estará fadada a decadência com uma crise de criatividade e administração dos jogadores em campo. Entretanto, devido aos dois episódios finais, que valem uma análise separada, confesso que fiquei na dúvida se isso será realmente um obstáculo no futuro ou se osshowrunners sabem o que fazer e como fazer.

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The Battle of Bastards nos trouxe o previsível retorno de Daenarys a Meeren em uma ótima cena de destruição da frota dos mestres dos escravos com os dragões que nos remeteu aos bons momentos com a Khaleessi das temporadas anteriores em situações parecidas. Uma aliança com Yara e Theon é formada e acompanhamos um bom diálogo envolvendo o passado dos pais desses três personagens e as memórias de Tyrion sobre um mudado Theon, mostrando que tradicionalmente, na série, toda atitude além de gerar consequências, será lembrada. O enquadramento da conversa é esperto em contribuir com a ansiedade do espectador em ver o acordo ser realizado enquanto pequenas farpas são trocadas, gerando dúvidas. O sorriso de Daenarys é um alívio e a atuação dos envolvidos é certeira.

Mas o destaque do episódio definitivamente não se trata do núcleo de Meeren e sim da tão alardeada e esperada Batalha dos Bastardos, que corresponde a todas as expectativas formadas.

Antes do confronto, vemos um encontro entre Snow, Sansa e Ramsay que contribui para a expectativa do que virá e Davos achando um pequeno artefato em madeira queimada. Quando os exércitos são postos à frente, tudo o que público pode fazer é impacientemente esperar a tragédia. O diretor Miguel Sapochnick entende isso e recompensa o espectador com uma angustiante condução da correria e morte de Rickon, no enquadramento Jon Snow vs todos, em planos mais longos durante a primeira etapa da batalha, a montagem acelerada (às vezes em demasia) e a claustrofobia do cerco…

De fato, a guerra e o pânico são sentidos e muito bem decupados com direito a montanha de corpos e um Jon Snow pisoteado. Eis que Mindinho chega (também previsivelmente) com seu exército do Ninho da Águia para salvar o dia revelando sua aliança com Sansa. Ver Ramsay Bolton recuando para tentar evitar a morte somente para tomar uma leva de socos de Jon Snow é algo gratificante. Mais ainda é vê-lo sendo devorado por seus cães famintos enquanto Sansa o observa.

Se o episódio não trouxe grandes reviravoltas e seguiu pelo caminho esperado, ao menos o fez com maestria. No entanto, senti falta de um crescimento em relação ao personagem de Kit Harrington durante o confronto, algo que o engrandecesse. Ou pelo menos algum fato que me surpreendesse a ponto de aplaudir, como houve com Tyrion em Blackwater. Um excelente, porém, não perfeito episódio.

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Mas Miguel Sapochnick não para por aí e encerra temporada com seu melhor episódio que converge as tramas contribuindo para uma circularidade com a primeira temporada e desfaz alguns núcleos, comanda de início uma sequência memorável em que o julgamento de Loras e Cersei (este último nem chegando a ser iniciado) é interrompido por uma explosão com Wildfire do Septo de Baelor matando o Alto Pardal, Margaery (que revela seu acordo com o fanático), Loras, Mace, Lancel e Kevan Lannister e toda a fé militante em uma tacada só. Toda a condução da espera até a explosão é realizada praticamente de forma exemplar em combinação com uma inquietante trilha musical.

Quando o público se dá conta do que virá, Margaery e o Pardal também notam que algo está errado, enquanto ela tenta esvaziar o local urgentemente, o outro permanece sem reação, em dúvida, pensativo e agitado ao mesmo tempo. Nunca havíamos visto o Pardal dessa forma e só devemos aplaudir o excepcional trabalho de atuação de Jonathan Pryce que deixará saudades. Um momento que certamente entra para a lista dos melhores de toda a série. Por consequência do explosivo acontecimento, vemos Tommen se jogar para a morte após perceber sua falha e o feito da mãe (que acompanhou tudo de longe, sorridente), concretizando mais uma parte da profecia proferida por Maggy.

Em Dorne, Olenna Tyrrel e Ellaria Sand formam uma aliança contra os Lannisters até Varys aparecer e nos revelar que a aliança também envolve Daenerys. Davos confronta Melisandre a respeito do amuleto que encontrara no episódio anterior nos entregando uma atuação inspirada de Liam Cunningham e fazendo com que Jon Snow bana a feiticeira de Winterfell. Ainda nesse núcleo, Jon Snow é aceito como novo Rei do Norte com os selvagens, os cavaleiros do Vale e as casas sobreviventes jurando lealdade a sua pessoa (após um diálogo um tanto forçado de Lady Mormont), terminando com uma dúvida estabelecida entre os olhares de Sansa e Mindinho.

Sam e Gilly chegam na Citadela em Oldtown. Por mais que seja um local bonito e inédito, é errado pôr neste último capítulo a conclusão de um núcleo tão deslocado da temporada como um todo. Se Sam ainda irá continuar relevante ou não, tudo vai depender da passagem de tempo…

Jaime após um banquete com Walder Frey, contando alguns diálogos ácidos e outros engraçados, retorna para King’s Landing apenas para encontrar o Septo de Baelor destruído e Cersei sendo coroada rainha. Seu olhar receoso revela que bons momentos podem surgir entre a relação dos dois. Torcemos para que seja melhor utilizado nas temporadas seguintes.

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Arya, voltando para Westeros, é responsável por um surpreendente e catártico momento onde, usando os truques que aprendeu em seu tempo na Casa do Preto e Branco, assassina Walder Frey após revelar que havia feito o mesmo com seus filhos se vingando do ocorrido no Casamento Vermelho. Bran se despede de seu tio e tem uma visão de dentro da Torre da Alegria onde é confirmado a teoria de que Jon Snow é, de fato, um Targaryen e sua mãe é a irmã de Ned, Lyanna Stark. Já Daenerys, enfim, navega com sua enorme frota e dragões para Westeros. Pois é, depois de 6 temporadas… O fim definitivamente está próximo.

Com altíssimos valores técnicos de produção, figurinos, CG, coreografias e atuações, mas possuindo sérios problemas de ritmo, montagem e de condução de tramas, o sexto ano de Game of Thrones não é o melhor exemplo do que a série tem a oferecer durante uma temporada que, assim como a quinta, não somente ganha força no final como depende da mesma para fazer os 10 episódios terem valido a pena serem assistidos. Espero, sinceramente, que as duas últimas temporadas (com número de episódios reduzido), não concentrem o potencial da série apenas nos momentos finais e que os showrunners saibam equilibrar e utilizar melhor a passagem de tempo, não apressando e nem enrolando demais as principais tramas, sabendo dar relevância a cada núcleo. Afinal, o inverno chegou e não há mais volta para ninguém. Valar Morghulis!

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