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Harry Potter e a Câmara Secreta carregava consigo um grande fardo: como resgatar todo o gostinho do encantador e do novo na continuação do que viria a ser uma das maiores franquias de ficção fantástica da história? Afinal, A Pedra Filosofal nos introduziu ao universo mágico de Hogwarts, mostrando-nos perigos a serem enfrentados, poções a serem feitas e balaços a serem rebatidos. As paredes já não são tão brilhantes assim e se perder nos corredores não é mais uma aventura.

Duas coisas poderiam ter acontecido: o tiro sair pela culatra ou não. Para a alegria de todos, Christopher Columbus, Stuart Craig, Steve Kloves e o restante de sua equipe conseguiram mais uma vez criar uma belíssima adaptação da obra homônima escrita por J.K. Rowling, encantando fãs ao redor do mundo – e de alguma forma, com execução evoluída quando comparado ao primeiro longa-metragem.

Alguns meses se passaram desde que Harry (Daniel Radcliffe) voltou para sua casa na Rua dos Alfeneiros, nº 4 – não mais para um armário embaixo da escada, e sim para um cubículo no segundo andar que costumava servir como quarto de brinquedos de seu primo Duda (Harry Melling) -, vendo o que parecia ser um sonho se despedaçando ao ouvir os mesmos xingamentos e reclamações de seus tios trouxas, Válter (Richard Griffiths) e Petúnia (Fiona Shaw) Dursley. Seus sentimentos são idênticos a quando se tira um doce de uma criança: angústia e ressentimento. E já nos primeiros minutos de narrativa, lidamos com uma crise interna do protagonista: a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts é o seu real lar, mas como ele pode negar sua própria história quando laços sanguíneos o tornam um prisioneiro de sua própria família? Afinal, Petúnia sempre será irmã de sua mãe, e não há nada no mundo que apague isso. Ele pode até considerar a escola seu lar, mas não há nada que negue sua relação com os tios. Além disso, ele se sente isolado, e seu vazio apenas aumenta ao recordar constantemente das cartas nunca respondidas que enviara a seus amigos.

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Como toda boa jornada do herói, temos um incidente incitante. E em A Câmara Secreta, ele vem na forma de Dobby (dublado originalmente por Toby Jones), um elfo doméstico atrapalhado e constantemente em culpa que aparece em seu quarto de forma inesperada. Ele está lá para impedir Harry de voltar para Hogwarts, pois coisas terríveis estão prestes a acontecer entre suas paredes. É bem fácil deduzir o que ocorre depois – principalmente porque, se Harry lhe desse ouvidos, não haveria história: Dobby, na verdade, já havia arquitetado um plano para mantê-lo longa da escola, interceptando as cartas que enviava aos seus colegas e alimentando um sentimento de solidão cruel dentro do protagonista. E numa sequência bem equilibrada entre tragédia e comédia, as intervenções da criaturinha acabam por deixá-lo literalmente preso entre as grades.

Dias depois, Harry é resgatado por Rony (Rupert Grint) e seus irmãos gêmeos Fred e Jorge (James e Oliver Phelps, respectivamente), os quais vão buscá-lo num Ford Anglia azul-turquesa voador e levá-lo para a Toca, casa dos Weasley localizado nas planícies interioranas de Londres. Lá, ele se reencontra com Molly (Julie Walters), a matriarca da família, e conhece Arthur (Mark Williams), o pai, e Gina (Bonnie Wright), a filha caçula que entrará em seu primeiro ano em Hogwarts.

Apenas com estas poucas sequências, já é possível determinar qual será o tom deste filme: a contraposição. Entre a Rua das Alfeneiros e a Toca, há uma montagem antitética que oscila entre o monótono, o mundano e o repetitivo (simbolizados pelas dezenas de casas idênticas que ocupam a tela) e o mágico, o distorcido e o sobrenatural (representados pela arquitetura um tanto quanto expressionista da casa dos Weasley. Até a própria paleta de cores contribui para este contraste; ora, as paredes da casa dos Dursley possuem um tom enjoativo de pêssego e rosa, enquanto a Toca traz cores gritantes que inclusive se metamorfoseiam em outras.

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Ao finalmente retornar para Hogwarts – após eventos infelizes na Travessa do Tranco e uma sequência muito bem filmada envolvendo o mesmo Ford Anglia de antes – Harry, Rony e Hermione finalmente entendem os misteriosos avisos do elfo doméstico: aparentemente, há uma força misteriosa atacando os alunos nascidos trouxas, deixando-os petrificados e condenando o sentimento de segurança que a escola sempre passou a seus residentes. Mensagens escritas em sangue adornam as paredes, dizendo que uma tal de Câmara Secreta foi reaberta e que os inimigos de um herdeiro desconhecido devem ter cuidado.

Isso parece perigoso. E perigo é como perfume para nossos protagonistas: a partir daqui – e de um resgate nostálgico do primeiro filme -, a obra transforma-se numa narrativa de mistério à la Agatha Christie. O trio parece encarnar os trejeitos de Hercule Poirot, e as investigações se iniciam: eles desejam descobrir o que está ameaçando os alunos em Hogwarts e o que é esta Câmara. As descobertas mostram que um monstro mortal está à solta e está sob controle de alguém que deseja reemergir o legado de Salazar Sonserina (um dos fundadores do complexo educacional).

Seguindo os mesmos padrões de A Pedra Filosofal, as pistas apontam para uma gama de suspeitos inocentes – e nesta lista, há a presença surpreendente de Rúbeo Hagrid (Robbie Coltrane) e sua famigerada história com criaturas fantásticas e, na maioria das vezes, mortais. Apesar de todo o suspense, a identidade narrativa segue a idade dos personagens: Harry, Rony e Hermione são pré-adolescentes, e a própria caracterização de suas roupas e dos cenários que habitam sugerem um leve amadurecimento; eles sentem que conhecem tudo e que são imunes a ameaças externas, e o choque com a mortalidade é de suma importância para sua própria evolução.

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Permeando a trama principal, A Câmara Secreta desenvolve outros arcos narrativos que contribuem para o molde de arquétipos futuros: aqui, temas como provações e inimizades são constantes, simbolizados pela relação conflituosa entre o trio, Draco Malfoy (Tom Felton) e agora seu pai, Lúcio (Jason Isaacs). Através de diálogos muito bem ritmados, até assuntos mais densos, como preconceito e a dualidade entre tolerância e intolerância, são citados. A expressão que resume a pseudosuperioridade e o egocentrismo da família Malfoy – sangue-ruim – equivale às frases racistas e machistas que são despejadas a rodo na sociedade contemporânea.

Obviamente tantos acontecimentos não poderiam acontecer no mais puro silêncio, e é aí que entra o fabuloso trabalho do compositor John Williams. É possível ver que ele não se preocupa em reciclar a trilha sonora do filme original, e de modo algum isto a torna menos especial: a composição tem a mesma base, mas avanços e mudanças pontuais a tornam mais intimista e mais envolvente, contribuindo para a reafirmação do próprio suspense e dos crescentes perigos que rondam os terrenos do Castelo. A música não chega a ser tétrica, mas nos causa angústia – principalmente quando comparamos a escolha de Williams para momentos de tensão e aqueles mais alegres.

Outro dos pontos a serem destacados é a incrível direção de fotografia de Roger Pratt, sua primeira colaboração para a franquia Harry Potter. E em vez de falar dos aspectos gerais, gostaria de focar no uso particular de um plano perigoso – o plano holandês. Ainda que sutilmente, os enquadramentos de diversas cenas são inclinados, principalmente quando há um close-up dos personagens mais velhos ou em momentos catárticos. A preocupação aqui era se seu uso excessivo poderia quebrar o ritmo da narrativa e tornar as cenas leves demais para o tom do filme, mas a excepcionalidade com que Pratt e Columbus trabalham nem passam perto disso: a composição sugere instabilidade, e é assustador perceber que até as figuras adultas de A Câmara Secreta não sabem o que fazer contra o perigo iminente.

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Todos os momentos e as decisões tomadas ao longo dos 161 minutos inclinam-se à batalha final – e o próprio longa parece nos preparar para isso. Enquanto no primeiro ato as cores quentes são predominantes – uma composição harmônica de vermelho e amarelo -, transmitindo segurança e conforto tanto para os personagens quanto para o público, os atos subsequentes são gradativamente engolfados em tons mais frios. A ameaça é crescente, e sabemos que, quando tudo estiver tomado pela escuridão, não há mais volta: faz-se necessário enfrentar o perigo para que, enfim, possamos voltar para a luz.

Uma das grandes sacadas da narrativa – e aqui refiro-me tanto ao livro quanto ao filme – é a utilização da inocência e do charlatanismo como catalisadores de conflitos. Personagens cujo semblante pacífico e apaziguador se tornam alvo das forças místicas e derradeiras das trevas, mostrando que nem mesmo o mais puro dos corações está livre de cair em tentações mortais; e contraditoriamente, há aqueles – como Gilderoy Lockhart (uma presença muito bem-vinda do fantástico Kenneth Branagh) – que utilizam-se de artifícios duvidosos para propagar sua fama, fazendo jus à frase “nem tudo é o que parece ser” e tendo seu arco montado sobre o escape cômico.

Harry Potter e a Câmara Secreta é uma belíssima continuação de uma franquia fantástica, marcando uma evolução técnica e narrativa capaz de encantar até os mais céticos espectadores – e nos apresentando a pontos de vista nunca imaginados.

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