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Pela primeira vez, nós temos um filme da franquia Harry Potter que não é uma obra de arte, por assim de dizer. Ao contrário de seus predecessores, A Ordem da Fênix foca essencialmente em Harry. Durante a construção do filme, David Yates, substituindo Mike Newell, disse que seu objetivo era delinear um arco narrativo o estado de consciência e de loucura do protagonista. Uma ótima premissa, considerando o retorno de Lord Voldemort (Ralph Fiennes) e suas constantes tentativas de penetrar nos pensamentos mais profundos do bruxinho e deixá-lo confuso sobre o que é real ou não. Entretanto, o diretor segue esse escopo tão ao pé da letra que o acaba realizando em detrimento do próprio longa-metragem.

O filme existe, mais que qualquer outro, em algo que se assemelha a uma névoa turva, tentando chegar a uma clareza inalcançável e utópica. Harry, desde o início, parece se espreitar por esse borrão, transformado em um adolescente angustiado, amargurado e com os hormônios à tona, que parece desprezar qualquer um, tendo ou não motivo. E o misterioso Voldemort continua a tornar a vida do nosso protagonista a mais infernal possível, ainda que indiretamente – e dessa vez decidiu fazê-lo através dos meios de comunicação mágicos! Ao que tudo indica, a comunidade bruxa está abnegando seu recente encontro com o lorde das Trevas, preferindo fechar os olhos para as notícias de que ele tenha retornado. Uma sacada muito interessante tanto do plot do romance quanto da adaptação para as telonas, visto que a manipulação midiática controlada pelo próprio Ministério visa à pacificidade tanto dos bruxos quanto dos trouxas, varrendo os fatos e os relatos para debaixo dos tapetes. Harry é jogado na primeira página dos jornais e utilizado como arma política, que apenas serve para aprofundar sua irritação para com os outros.

Eventualmente, ele retorna para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde entra para seu quinto ano de tutelagem – e descobre que as ações do Ministério tornaram-se tão invasivas que o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas foi designado à Secretária-Sênior de Cornélio Fudge, Dolores Jane Umbridge (Imelda Staunton). E devo dizer aqui que a atriz nos fornece uma das melhores performances de toda a franquia, coroada com uma paleta rosácea extremamente enjoativa e irritante, a qual harmoniza com seus trejeitos escrachados e tão polidos que se tornam o ponto escandaloso do filme. Sua naturalidade em cena é tamanha que desde o primeiro momento nos sentimentos incomodados com sua presença – e não vou negar que nós, o público, simplesmente amamos odiá-la. O contraste do sadismo educacional de Umbridge com a crescente rebeldia do protagonista é um grande ponto positivo que adentra a trama principal mais de uma vez e traz certa profundidade a um roteiro caótico.

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E falando sobre o próprio storytelling, o novato Michael Goldenberg, substituindo Steve Kloves na adaptação para as telonas, parece estar tão perdido quanto qualquer pessoa do elenco ou da produção. Apesar de conservar o essencial mágico dos arcos narrativos, o roteiro traz um salto tão complexo que o corte de cenas muito importantes do material original tornou-se automático e retirou aspectos dramáticos de alguns personagens. Além disso, os coadjuvantes e antagonistas parecem apagados: Harry Potter está nos holofotes e todos agem em sua função – mas ele mesmo não parece ter um arco central. Muitos e preciosos minutos são desperdiçados até que alguma coisa realmente aconteça; entretanto, nunca temos a sensação que isso tenha afetado o bruxinho. E pior, a obra é quase impossível de ser acompanhada por aqueles que não tenham lido, estudado e memorizado cada página dos livros. Personagens terciários são simplesmente jogados ao acaso, como se fôssemos esperados de conhecer a história daquela garota da cena 24 cujo nome foi mencionado uma vez há dois anos.

Apesar de todos esses deslizes, Yates encontra tempo para criar cenas relativamente belas e sensíveis, cujo contraste com o cenário tenso fornece um saldo positivo agradável, como o primeiro beijo de Harry. Outra passagem bem interessante e construída ocorre durante uma conversa entre o bruxinho e Sirius Black (Gary Oldman), seu padrinho, no qual o garoto desabafa sua insegurança de inclinar-se para o mal pelo fato de sempre estar com os nervos quase explodindo, e Sirius, de forma muito sábia, responde que o mundo não se divide entre pessoas boas e ruins; todos temos luz e trevas dentro de nós, e o que conta é o lado que decidimos acolher.

A Ordem da Fênix realmente se torna uma bagunça quando tenta transportar seus personagens para locações diferentes. Saltos no tempo, quebras na cronologias e erros de continuidade acontecem frequentemente ao longo de seus 142 minutos. Sabemos que os personagens são bruxos, mas o inexplicável e o sobrenatural atingem níveis inverossímeis. Em dado momento, um grupo denominado Armada de Dumbledore encontra-se numa taverna caindo aos pedaços; isso deveria nos parecer extremamente natural, considerando o tempo livre que os alunos têm em relação a Hogwarts, principalmente no período de festas, mas a montagem traz consigo cortes tão bruscos que somos levados a desviar o olhar e se acostumar com a mudança nada ascendente de cenário. Os personagens flutuam de um cenário para o outro como lhes convêm – ou como manda o roteiro.

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Sem sombra de dúvida, um dos pontos em que a narrativa mais peca é a atenuação dos arquétipos docentes. Mais uma vez, temos um elenco de peso que conta com nomes como Alan Rickman, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Brendan Gleeson, mas suas aparições mostram-se ínfimas. Todos cumprem o papel que lhes foram designados, mas é muito complicado não se sentir decepcionado pela redução de seus arcos. O único que se mostra realmente presente, inclusive pela indescritível e duvidosa relação paternalista que mantém com Harry, é Michael Gambon, cuja personalidade bondosa transformou-se em poucos segundos num peso rancoroso e solitário que deseja afastar quaisquer pessoas de sua convivência. A presença de rostos novos – como a alegre Luna Lovegood (Evanna Lynch) e a maníaca Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter) – desviam a atenção desse descaso para com outras personalidades, mas não conseguem tomar a atenção em sua completude, deixando-nos meio vazios quando os créditos finalmente chegam.

Um ponto destacável reside na direção de fotografia de Slawomir Idziak, é aqui é possível até traçar uma comparação entre A Ordem da Fênix e A Câmara Secreta: a diferença entre o mundano e o mágico mais uma vez posta-se clara aqui, mostrando um cenário tomado por tons relativamente quentes como o rosa e o laranja em contraste com o abuso de entonações azuladas e esverdeadas, contribuindo para a saída da zona de conforto do protagonista em um ambiente que considera seu lar. Cabe aqui citar que a horrenda e traumática residência da família Dursley mostra-se mais segura que as paredes de pedra de Hogwarts. A fragilidade parece estar tomando cada vez mais conta do complexo educacional, e esperamos que as tramas apenas se tornem mais delineadas daqui para a frente.

A trilha sonora é algo do qual senti falta aqui: se a composição de O Cálice de Fogo, a qual marcou a saída de John Williams da franquia, já não conseguiu superar o tema original de Harry Potter, o trabalho de Nicholas Hooper faz-se visível em pouquíssimas cenas, mostrando-se mais evidenciada em momentos de descontração e rebeldia. Entretanto, quando o peso da cena exigia melodias mais dramáticas, a música simplesmente sumia em meio aos efeitos especiais e às sequências verborrágicas.

Não ouso dizer que A Ordem da Fênix marca um retrocesso para esta série mágica, mas a entrada de Yates e de uma nova equipe definitivamente desequilibrou o andamento da própria narrativa em relação aos longas predecessores. O quinto ano de Harry em Hogwarts foi caótico – tanto no bom quanto no mal sentido -, e esperamos que esse ritmo não se mantenha. Ou então seremos obrigados a saber inclusive o sobrenome de personagens nada relevantes para a trama.

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