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Nasce da terra, em raízes aéreas. Como no manguezal, pode vir da madeira. Mas Maria (1894–1973) tem mais. A energia pulsante criativa de uma das maiores artistas brasileiras do século XX se alimenta no talhe de blocos sólidos e na criação tangível de formas misteriosas a partir da lenha, terracota, mármore, ao bronze, “a cera perdida que não tem limitações”, como descreve.

Maria Martins, em sua trajetória, recebeu palavras de observadores atentos, como o poeta brasileiro Murilo Mendes, que viu em suas esculturas a expressão das “tensões violentas entre magia e afetividade, entre Eros e morte, entre dinamismo de formas definidas e atmosfera ambígua de sonho”; ou na figura central do Movimento Surrealista, André Breton, que viu nela o “desejo elevado ao poder pânico”. A relação com artistas “do primeiro mundo” começou na Bélgica, em 1926, quando inicia-se na escultura sob a tutela de Oscar Jaspers, mas aflorou principalmente a partir de 1939, quando muda-se para Washington (EUA) com o marido, o diplomata Carlos Martins, e estuda o molde em bronze com Jacques Lipchi. No período, muitos artistas europeus estão exilados nas terras estadunidenses por conta dos conflitos da II Guerra Mundial. No ciclo de Nova Iorque, para onde Maria muda-se e constrói um ateliê, estão Marcel Duchamp, André Breton, Piet Mondriani, Max Ernst e muitos outros. Em março de 1943, a exibição “Amazonia by Maria” na Valentine Galerie, atrai atenção desses olhares.

Maria Martins exprime lendas indígenas de raízes brasileiras, abre caminhos pela representação das desambiguações hídricas da bacia amazônica. É a aranha canibal que devora o macho após a cópula e não lida com a sexualidade feminina de forma passiva, assim como Louise Bourgeois, escultora francesa responsável pela Aranha (Spider), que protege uma das pontas do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e é ponto de encontro no Parque Ibirapuera. O fotografo Miguel Rio Branco diz que a “sexualidade de Maria mordia”, que era invasiva, e comia pedaços das pessoas. Uma destas, um dos nomes mais subversivos e relevantes da arte contemporânea, Duchamp. Parte do documentário destaca a relação amorosa entre os dois, mas não cai na armadilha comumente propagada de que a influência de um no outro era uma via de mão única, partindo do francês. O filme posiciona-se revertendo o pensamento banal, e sugere que os dois tiveram uma relação de troca de grande importância para ambos. A autenticidade no trabalho de cada um já estava estabelecida e não havia como perderem isso. Um era crítico em relação à obra do outro e encorajavam-se a crescer. Eles atraiam-se e repeliam-se, queriam estar juntos, desfrutarem um do outro, mas a o mundo insistia em separá-los. A relação era frustrada, como as lâminas trincadas ao acaso d’O Grande Vidro (1915-23), obra do francês que, no Museu da Filadélfia, aponta para a representação de Maria Martins numa escultura de sua autoria do lado de fora.

A ela atribuem um olhar surrealista, mas Maria não aceita “nenhum dos ismos tão procurados hoje em dia”. Ela via na arte a não necessidade em estabelecer-se em estilos e leis pré-definidos. Mesmo assim, em 1947, na Exposição Internacional do Surrealismo em Paris, Galeria Maeghit, Maria Martins foi incorporada – literalmente – ao catálogo da mostra. O livro de registro feito por Duchamp oferecia um seio de espuma na capa e convidava o leitor ao toque. O molde era de Maria, o que revelava a profunda intimidade entre dois. No documentário, a atriz Malu Mader leva o telespectador ao encontro da publicação. Ela, que se juntou à equipe após ter suas ideias de viver uma versão fictícia de M. Martins no cinema vetadas pelas herdeiras da escultora, tenta tocar no íntimo de sua heroína. O contato lhe é negado pelo arquivista responsável em manter o livro-catálogo intacto, por mais que a encadernação diga: por favor, toque. É como nas esculturas da série “Bichos”, de Lygia Clark, feitas para o tato humano, mas que hoje são apresentadas em caixas de vidro apenas para o olhar, para que a obra seja “preservada”.

No entanto, Maria Martins nunca se preservou. Antes de se casar com Carlos Martins, já tinha a postura “sexualmente ousada”, afinal foi esposa do escritor Otctavio Tarquinio de Souza, mas divorciou-se, numa época em que a ação era malvista. A mãe de Maria, inclusive, tomou o partido do ex-marido e isso fez com que a escultora perdesse a guarda da filha. Maria Martins foi marginalizada, pois não fazia parte da história patriarcal da arte. Seu “excesso de personalidade”, nas palavras do crítico Mario Pedrosa, fez com que a crítica conservadora tremesse. O erotismo agressivo, quase canibal, assustava. Como embaixadora, esperava-se que fosse quieta e cordial, mas, Maria não queria nada disso. Sua força interna ansiava por mais, o que fez com que dividisse a vida em duas partes: das sete da manhã às seis da tarde, vivia fechada em seu ateliê, entregue absolutamente aos seus “problemas de formas, de cores e no isolamento”. Na diplomacia colocava sua máscara, na arte removia-a violentamente.

Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos intercala diversas vozes para iluminar a de Martins. As alternâncias entre amigos, familiares, entendedores de arte – e Malu Mader –, dão ritmo e dinamismo no documentário. Os filhos e netos dirigem passagens nostálgicas pela vida da artista; a atriz Lúcia Romano interpreta suas cartas e o diálogo com Clarice Lispector (na série de entrevistas da escritora, Diálogos impossíveis, publicada pela revista Machete no fim dos anos 60); críticos de arte e artistas descascam suas obras; e estas são expostas com trilha sonora em tempo mínimo e digno para a sua contemplação. Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos passa pelos pontos de potência da obra da escultora, partindo de suas primeiras tentativas em escultura na Bélgica, até sua última exposição, a retrospectiva no MAM do Rio de Janeiro, em maio de 1956. É um documentário tão completo quanto poderia ser, que se aventura não apenas por passagens literais da vida da escultora, mas por alguns possíveis caminhos mentais que ela traçou.

Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos (Brasil – 2017)

Direção: Francisco C. Martins e Elisa Gomes
Roteiro: Francisco C. Martins
Elenco: Malu Mader, Lúcia Romano, Celso Frateschi, Miguel Rio Branco.
Gênero: Documentário
Duração: 80 min

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