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A comunidade LGBTQ+ conquistou nos últimos anos um espaço mais do que merecido dentro da representação cinematográfica e seriada. Com inúmeras produções com enfoque nos relacionamentos entre familiares tradicionalistas e filhos que sofriam por adotarem máscaras sociais que oprimiam sua personalidade e quem, de fato, eram. Com o passar dos anos, essa narrativa tornou-se clichê e abriu margem para a construção de laços afetivos, seguindo os passos das dramédias românticas e sempre colocando um fundo de crítica social e que andasse ao encontro da aceitação. Não é nenhuma surpresa que obras como Azul É a Cor Mais Quente e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tenham ganhado bastante aclame por parte do público e da crítica, com o ápice surgindo com o coming-of-age Moonlight – Sob a Luz do Luar, que inclusive levou o Oscar de Melhor Filme para casa.

E então chegamos a Me Chame Pelo Seu Nome. Baseado no romance homônimo de André Aciman, a narrativa gira em torno de um garoto que começa a se apaixonar por um historiador viajante que se hospeda em sua casa durante algumas semanas. A princípio, podemos encarar essa história como o suprassumo das fórmulas dos romances românticos e impossíveis tão explorados pela literatura e pelo cinema desde seu surgimento – mas o diferencial de trazer um casal gay como protagonista realmente é algo a ser levado em consideração. Afinal, se levarmos em conta a história dessa magnânima indústria do entretenimento, pouquíssimas foram as obras que realmente se propuseram a criar algo simples para esses tipos de personagens.

Em seu filme, Luca Guadagnino nos transporta para a beleza e o bucolismo do cenário italiano, mais precisamente viajando em seu interior e nos afastando das grandes metrópoles que normalmente servem como escopo imagético e base transcendental para o romance. É possível até mesmo traçar paralelos, ainda que esparsos, com O Segredo de Brokeback Mountain, visto que os personagens principais se encontram em um ambiente isolado dentro de suas perspectivas e com um cosmos totalmente único para que possam ser eles mesmos. Mas as coisas não funcionam tão rápido assim, visto que nenhuma das duas partes realmente começa a narrativa de modo assumido – e é nesse quesito que talvez a história carregue sua maior falha.

Timothée Chalamet encarna Elio, um jovem de dezessete anos extremamente maduro para sua idade e que tem inúmeras habilidades, incluindo a fluência em diversas línguas como o francês, o italiano e o inglês, e uma afeição inacreditável com o piano. Ele vive com os pais, interpretados por Michael Stuhlbarg e Amira Casar, em uma espécie de sobrado antiquado e muito majestoso, dentro do qual aventura-se através de inúmeros livros e até mesmo do paradisíaco pomar, que emerge como um elemento imprescindível para seu amadurecimento, ainda que não possamos prever isso logo de cara. A pacificidade e a ordem com a qual estão acostumados a viver encontra uma brusca freada com a chegada do professor, historiador, filósofo e seja lá mais o que for Oliver (Armie Hammer).

Primeiramente, precisamos entender que os laços entre Oliver e Elio são encantadores, e isso só ocorre com a pureza e a química que tanto Hammer quanto Chalamet trazem para as telas, movendo-se com graciosidade à medida em que a narrativa perpassa por altos e baixos e cria as condições necessárias para que os sentimentos aflorem e a tão aguardada descoberta seja satisfatória o suficiente para o público. E isso, com todo bom drama, caminha a passos lentos e utiliza-se das brechas para alimentar temas como ciúmes, inveja, ódio e amor: em várias sequências, é possível sentir a tensão entre os dois protagonistas e como ela é enviesada conforme a câmera bem deseja, baseando-se até na constante presença da água para reafirmar sua fluidez.

A história é ambientada nos anos 1980, uma década um tanto quanto paradoxal em relação às questões de gênero e raça – que no caso representavam “assuntos em pauta” no tocante à evolução de uma sociedade movida por valores conservadores. E essa importante informação parece ter escapado aos olhos de Guadagnino ou até mesmo à sua equipe criativa: é lógico que não temos o melodrama novelesco próprio de tramas similares, mas tudo move-se com uma alegria intensa e uma felicidade intangível. Não há obstáculos a serem transpassados, ou pelo menos eles não são visíveis aos olhos do público: os pais aceitam Elio como ele é; Oliver tem uma forte personalidade que parece inquebrantável e intransponível por forças externas, exceto as do menino. Logo, espera-se que pelo menos esse crescente relacionamento tenha, em suas perspectivas únicas, algum modo de se tornar mais palpável – e não é exatamente isso o que acontece até o final do segundo ato.

Elio e Oliver são humanos, e não deuses. Suas caracterizações não transcendem as nossas expectativas e mantêm-se em uma zona de conforto dialógica para com aqueles que os acompanham. Mas o que realmente falta para que essa química alcance o potencial máximo são os obstáculos, ainda que internos, ainda que dentro do mundo que os dois criam. As cenas declarativas e de puro romance – e até mesmo as mais picantes – funcionam como coreografias muito bem elaboradas e odes aos romances românticos que tanto povoam o imaginário popular. Mas ao menor indício de “problemas no Paraíso”, o roteiro busca em um universo totalmente alheio uma saída para que os dois retornem à beleza e à imutabilidade do amor.

Esse excesso de otimismo e felicidade, como se não bastasse, é reafirmado pela paleta de cores essencialmente viva e que apenas consegue encontrar uma identidade própria à medida em que os dois se afastam, sendo trocada sutilmente pela fria e certeira escolha do azul. E é compreensível que a opção por planos mais fechados e que prezem pela intimidade dos personagens muitas vezes esqueça da pura beleza do cenário italiano, mas é também um fato que a fotografia poderia muito bem valer-se desse pano de fundo onírico como modo de suprimir as investidas floreadas do roteiro e reafirmar essa paixão de uma forma menos óbvia.

De qualquer modo, a resolução do filme pelo menos consegue quebrar as premeditações exacerbadas, resolvendo mergulhar no mundo das decepções amorosas e na desilusão do “primeiro amor” ao colocar Elio em um estado de autorreflexão dolorosa e que serve como espelho para inúmeras pessoas que passam pela mesma situação, principalmente em relação à descoberta e à aceitação da própria sexualidade e como cada um lida de modo diferente com aquilo que está por vir.

Estética e narrativamente, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme relativamente satisfatório, ainda que se valha de clichês para compor uma narrativa com potencial imenso. Entretanto, não podemos tirar o valor pessoal e subjetivo dessa história de amor em relação ao seu público-alvo e até mesmo aqueles que necessitam de visibilidade para comporem seu individualismo e se sentirem realmente pertencentes à sociedade em que vivem.

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name – EUA, Itália, França, Brasil, 2017)

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory, baseado na obra de André Aciman
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi
Gênero: Drama, Romance
Duração: 132 min

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