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Antes de entrar no mérito de realizar uma análise mais detalhada dos dois episódios (que funcionam melhor como um filme de 90 minutos, daí a razão por ter optado escrever sobre eles de forma conjunta), preciso externalizar uma coisa: o que Sam Esmail alcançou aqui é totalmente singular e eleva a série a um patamar totalmente novo. Dito isso, vamos ao que interessa.

A opção por desenvolver o quinto episódio como um grande plano sequência em tempo real alimenta uma sensação de paranóia e nos coloca no centro do dia mais turbulado da vida de Elliot (Rami Malek). Essa dilatação temporal e continuidade narrativa torna tudo que vemos mais real e consequencial, sendo possível ver desde a chegada de Elliot ao escritório da E-Corp e sua subsequente expulsão, passando pela a confissão de Darlene (Carly Chaikin) à Elliot sobre estar trabalhando para o FBI, indo para um informativo de jornal sobre uma importante votação na ONU, na qual a câmera incorpora uma vinheta de jornal, para então seguir o grupo do Dark Army iniciando a revolta que nos leva novamente a adentrar o prédio e a seguir Angela (Portia Doubleday), que busca anular as medidas protetivas de Elliot e tornar possível o plano do Dark Army. Tudo isso em um plano-sequência só (sim, existem falsos cortes, mas o trabalho é louvável), que torna esse episódio uma aposta quase certa de ser feita no próximo Emmy.

É possível identificar ecos do mundo real no grupo de manifestantes contra a E-Corp. Assistindo ao episódio, é quase impossível não lembrar da onda de manifestações que ocorreram e ainda ocorrem contra o atual presidente dos Estados Unidos, em frente as suas Trump Towers. Tal sentimento é fica ainda mais concreto quando uma jornalista lista os motivos diversos dos protestos da turba ali presente. Não surpreenderia se a série se utilizasse de todo o caos presente no universo diegético da série para explicar a eleição de Donald Trump, uma vez que, na temporalidade da obra, ainda estamos em Setembro de 2016.

Apesar de se passar em tempo real, é um episódio em que muita coisa acontece. Elliot descobre o conluio de sua irmã com os agentes federais e também sobre a ligação de Angela com Tyrell e Mr. Robot (Christian Slater). Isso deixa a um confronto em aberto no final deste magnífico episódio.

Já no sexto episódio, vemos uma recapitulação da infância de Angela, onde ela e o pai de Elliot compartilham um tocante momento, antes de sermos jogados de volta ao centro de todo o caos do presente, no exato momento em que o episódio anterior havia terminado, com Elliot e Angela se encontrando e com a promessa de um confronto entre eles. A forma como essa situação é desenvolvida dá o ritmo frenético do episódio, que apesar de manter a sensação de perigo, ao contrário do episódio anterior, nos apresenta inúmeros eventos de forma caótica e não-continua.

Contrapondo todo o caos presente nas vidas dos americanos médios, vemos Whiterose (BD Wong) em um ambiente hermético, quase como se pairasse no ar sobre todo o caos mundano que assola as ruas. É lá que vemos Phillip Price (Michael Cristofer) barganhando seus interesses com o líder do Dark Army, numa clara crítica à como os poderosos metacapitalistas se alimentam e mantém seu poder e estabilidade através do caos difundido entre a população.

Ao descobrir que o plano de Whiterose está prestes a acontecer, Elliot toma para si a tarefa de impedir que o atentado ao prédio da E-Corp se concretize. Em mais um momento inspirado, a série se utiliza de ferramentas da informática e as incorpora na narrativa. Na situação em questão, vemos Elliot sendo interrompido por Mr. Robot, de forma similar a quando tentamos executar um comando em nossos computadores e o mesmo reinicia. No caso, Elliot encontra-se correndo contra o tempo, tentando vencer seu outro lado em um jogo que não concebe a possibilidade de empate (alusão essa que nos remete ao episódio em que ambas as partes jogam partidas de xadrez, na segunda temporada). A cena possui uma comicidade graças ao humor físico oriundo da situação de Elliot, a qual o mesmo denomina como um “erro do tempo de execução”.

Enquanto isso, vemos a agente DiPierro (Grace Gummer) investigando, através de uma dica dada por Elliot, um estabelecimento da franquia Red Wheelbarrow, o mesmo já visto anteriormente em diversoso episódios dessa temporada, e que a mesma suspeita ser o esconderijo de Tyrell. É finalmente revelado ao executivo, em um momento de ruptura entre o personagem e as forças de Whiterose, que sua esposa foi assassinada. Ele então foge, momentos antes da agente do FBI adentrar seu esconderijos, em uma cena claramente inspirada no filme “O silêncio dos inocentes”.

As primeiras temporadas de Mr.Robot apresentaram plot-twists bastante interessantes e imprevisíveis. É provável que a virada do roteiro dessa temporada tenha ocorrido neste episódio. Após muita dificuldade e de uma conversa improvisada com seu alter-ego, Elliot consegue, com a ajuda do seu outro, impedir que o prédio seja explodido, sendo então tomado por uma sensação de dever cumprido. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, vemos um Tyrell ensandecido sendo preso por policiais e gritando que precisam impedir o ataque. Só então vemos, segundos antes do fim do episódio, que a sede em Nova-Iorque era apenas um dos pontos de ataque e que todas as unidades de armazenamento de dados sugeridas por Elliot no inicio da temporada, para prevenir uma perda total de dados, foram atacadas pelo Dark Army. É uma escolha ousada e não-convencional optar por posicionar eventos tão marcantes e com evidente caráter de uma season-finale no meio da temporada. Essa temporada tem se mostrado uma verdadeira montanha-russa, e, se esses dois episódios não representam a descida resultante da acentuada subida que tem sido essa temporada, então podemos estar diante não apenas de uma revolução ficcional, mas de um produto revolucionário dos nossos tempos.

Mr. Robot – 3ª Temporada, Episódio 5-6 (Mr. Robot: Season 3, Episode 5-6, Eua – 2017)

Showrunner: Sam Esmail
Principais diretores: Sam Esmail, Niels Arden Oplev, Jim McKay, Nisha Ganatra, Christoph Schrewe, Deborah Crow, Tricia Brock
Roteiro: Sam Esmail, Kor Adana, Randolph Leon, Kyle Bradstreet
Elenco: Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday, Carly Chaikin, Martin Wallström, Michael Cristofer, Grace Gummer, Ben Rappaport, BD Wong.

Duração: 49 min (cada episódio)

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