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Me lembro da primeira vez em que assisti Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Era bem mais novo, já conhecia alguns filmes da carreira de Woody Allen e adorei ser ludibriado pelo título traduzido nacionalmente. Ao esperar uma comédia neurótica e pastelona com ecos de paródia nervosa, me peguei encantado por já ter dado boas gargalhadas nos primeiros 10 minutos de projeção e ter sido completamente fisgado pelo texto de Allen, mesmo não entendendo tudo. Hoje enxergo a genialidade do sétimo longa metragem do diretor e roteirista não somente pela escrita mas pelo trabalho milagroso da montagem em conjunto com Ralph Rosenblum.

Para analisá-la, dispenso comentários a respeito da trama. Quanto menos você souber, leitor, melhor. Creio que seja suficiente elucidar somente seu conceito. Andy Singer (Woody Allen) é um humorista divorciado que acaba se apaixonando por Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora iniciante, e conta sua trajetória de crises amorosas, profissionais e conjugais ao ter de se deparar com um aspecto intrínseco de sua realidade: a vida. Pronto, é tudo que precisa saber.

Já nos primeiros minutos de filme, o personagem de Allen quebra a quarta parede, comenta sobre traumas passados, faz piadas, filosofa e mostra uma das marcas que acompanharão o restante do filme: seu charme ao criar um caos narrativo controlado. Para alguns, talvez seja motivo para o longa demonstrar-se desconexo, entretanto a coesão temática e precisão que essas trocas de foco ou experimentos com o humor acontecem garantem que nunca se desloquem de uma unidade criativa.

E assim segue o restante do filme, com interrupções e quebra de expectativa com alguma inventividade humorística – sobrando até para desenhos animados – ao passo que a junção das sequências sirva para criar algo único. O diretor não perde oportunidade de construir seu mundo de forma infalível. Adotando uma abordagem clássica, Allen registra com a câmera todo seu espaço de diálogo ou caminhada, fazendo o possível para imergir o espectador em uma realidade verosímil e, mesmo assim, não tendo a necessidade encher a produção de panorâmicas.

O plano só fecha quando há a necessidade de se objetivar um diálogo mais dramático ou dar mais ênfase e impacto a uma determinada piada. Allen sabe aproveitar o poder do plano estático mas também nunca desperdiça os dollys e movimentos de zoom-in e zoom-out de objetiva. A linguagem cinematográfica é adequada para o gênero que se enquadra e diversa, demonstrando claro domínio de Allen que aos poucos foi absorvendo.

Há uma cena que se passa na fila de um cinema, onde Singer e Annie discutem sobre assuntos pessoais enquanto o homem do casal atrás deles comenta sobre o cineasta Federico Fellini e tece críticas à Marshal McLuhan. A reação do protagonista é impagável. Ao se sentir desconfortável perante as críticas do indivíduo, Singer inicia uma discussão e o leva até o McLuhan em pessoa com este alegando que “realmente, você não entendeu nada de minha obra”. Obviamente, se trata de uma vontade/ilusão do protagonista. Mas ora, é exatamente o que eu pensaria naquela situação! Eu, Leo, já passei por vários situações semelhantes onde minha vontade era de simplesmente dar uma lição a uma pessoa indesejável que exibe seu infundado ponto de vista sobre um determinado assunto. E Allen sabe disso.

A sagacidade dos diálogos é tão fluida e contagiosa que é impossível não simpatizar com o que está sendo transmitido. Desde o relatório inicial de abertura do filme do protagonista sobre o modo de encarar a vida até o plano final – que entra em consonância com o início – onde vemos um plano geral com a câmera se encontrando dentro de um restaurante observando a separação dos dois personagens do lado de fora do estabelecimento.

O trabalho geral de estrutura conceitual acentuado pela cinematografia de Gordon Willims também se revela nos tons quentes empregados em cenas leves, bem humoradas e otimistas – sempre observe o figurino dos personagens, em especial de Allen – e tons mais frios e monocromáticos de cenas mais dramáticas – note também quando há a genial inversão disso – ou no vermelho tomando o quadro em uma cena na cama do protagonista que, em tese, era pra ser um momento sensual e até mesmo em outra mais romântica com baixa cadência de luz com pontos luminosos verdes atrás dos personagens. É tudo tão bem arquitetado em um trabalho de tríade tão harmonioso que faz o público, mesmo que inconscientemente, imediatamente perceber não se tratar de uma simples comédia romântica.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é uma obra suprema em sua conquista. Não é o melhor filme do diretor, mas trata-se de um dos mais inventivos e avantajados de sua carreira. Ao tentar elaborar praticamente uma autobiografia, Allen realizou um longa sobre as inconstâncias e ansiedades da vida criando, no processo, quase a dinâmica perfeita de como ela realmente se apresenta ao próprio espectador, levando em conta aspectos emocionais e os mais concretos. É o caos controlado que, por trás de toda imprevisibilidade e contratempos, há uma unidade de ação temática que fará o personagem/espectador crescer enquanto ser que existe.

Woody Allen existe. Para o nosso contentamento e para o bem do cinema.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, EUA – 1977)

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelley Duvall, Janet Margolin, Colleen Dewhurst, Christopher Walken, Donald Symington
Duração: 93 min

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