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Spoilers!

Partindo do gancho do episódio anterior, Preacher estabelece uma viagem para Nova Orleans, onde o trio protagonista segue por sua busca por Deus, que seria um amante de jazz convicto – o que justifica o motivo dos personagens irem para seu local de nascimento, por assim dizer. Tal como Mumbai Sky Tower, este Damsels é um episódio centrado em um bloco de história isolado, com os eventos todos se desenrolando nos bairros da cidade, mas que ao longo do caminho vão oferecendo novas pistas e bons momentos de personagens, e mantém o nível superior que a segunda temporada vem demonstrando até agora.

Novamente separando os personagens, o roteiro de Seth Rogen, Evan Goldberg e Sam Catlin coloca Jesse Custer (Dominic Cooper) nessa busca solitária por Deus, com Tulipa (Ruth Negga) cada vez mais paranóica com as ameaças do misterioso Viktor, que tem um grande poder e influência por Nova Orleans. Com sua namorada decidindo ficar para trás, Cassidy (Joseph Gilgun) a acompanha e abriga-a na casa de um misterioso colega, o francês Dennis (Ronald Guttman).

Tudo o que acontece no núcleo de Tulipa ameaça ficar maçante, visto que novamente a personagem acaba escondendo segredos de Jesse, e por mais que isso garanta momentos de brilhantismo à excelente Ruth Negga, narrativamente vai se tornando um atraso. Nada de especial aconteceu com a personagem durante o episódio, com exceção de termos aprendido que Tulipa tem um passado ali, e que Viktor está em seu encalço. A ótima cena final do episódio revela que os capangas do sujeito enfim alcançaram Tulipa, que parece não se incomodar com a presença do vasto grupo por trás de suas costas. Talvez fique melhor quando descobrirmos quem de fato é o sujeito, já que o suspense criado em torno de sua figura não é exatamente dos mais elaborados, já que nada sabemos sobre ele.

Por falar em nada saber, Cassidy garante bons momentos com o misterioso Dennis. Um homem de meia idade e que o espectador não compreende uma palavra (apenas para os fluentes em francês, claro), fica sugerido que os dois têm um passado juntos, e que o velho claramente não se sente muito à vontade com a presença do vampiro, ainda que não se oponha à sua estadia e de Tulipa.

Já quando voltamos ao personagem titular, as coisas melhoram bastante. Tipicamente da veia de Rogen e Goldberg, a busca de Jesse por Deus é a mais literal possível: o pastor de fato anda pelas ruas e clubes de jazz da cidade perguntando por Deus, rendendo as óbvias reações cômicas dos cidadãos pelo pedido incomum e irônico (um padre procurando por Deus) e também por algumas situações absurdamente inesperadas, como o dono de boate que entende a pergunta de Jesse como pedido de um bizarro show sadomasoquista onde vemos uma mulher pronta para transar com um sujeito vestido de dálmata. Nonsense total, e que serve como uma boa piada após alguns minutos de antecipação, onde o grupo realmente pensa que está prestes a encontrar seu Criador. Porém, fica a dúvida se era mesmo uma divergência, visto que a cena termina com um close no buraco da máscara de cachorro, mas sem revelar seu rosto.

A investigação esquenta quando Jesse recebe a pista de um barman (Malcolm Barrett), que sugere que ele visite a cantora Lara Featherstone (Julie Ann Emery), o que rende uma ótima cena musical com a deslumbrante mulher no meio de uma apresentação de jazz, algo que iconicamente parece ter saído de uma produção de David Lynch. Quando Jesse a questiona sobre Deus, ela tenta fugir, apenas para ser emboscada por um bizarro grupo de homens de branco mascarados que tentam raptá-la, com o pastor facilmente dando conta do grupo – em mais uma exemplar cena de ação da série, comandada com precisão por Michael Slovis, que aposta em planos longos para capturar uma coreografia elaborada.

O encontro não rende tantas informações para Jesse, com Lara revelando que os agressores fazem parte de uma organização secreta, e que já teriam aparecido antes quando outro sujeito – agora morto – também lhe procurou para questionar o sumiço de Deus. Porém, logo quando Jesse segue seu caminho e a loira deslumbrante entra em um táxi para fora da cidade, descobrimos que é tudo uma fachada. Lara entra em uma van com o barman de Barrett, tirando sua peruca e maquiagem e planejando levar uma força-tarefa para capturar Jesse e o Gênesis. É aí que cortamos para a apresentação de um promissor novo vilão, Herr K. Starr (Pip Torrens), que recebe uma pasta com o nome de Jesse Custer. Vale mencionar que sua introdução é perfeitamente demarcada pela montagem paralela onde o pastor assiste a uma apresentação de jazz, com um clarinete distorcido nos dando o primeiro vislumbre do rosto cicatrizado de Starr.

Mesmo com todos esses bons momentos, nada neste episódio foi mais chocante do que o arco de Eugene (Ian Colletti). Sim, o nosso querido Cara de Cu está de volta, e temos um vislumbre mais claro da visão da série para o Inferno em duas sequências assombrosas. Tal como vimos com o Santo dos Assassinos na primeira temporada, Eugene é forçado a reviver uma péssima memória por toda a eternidade, e vemos pela primeira vez o incidente que desfigurou seu rosto, quando o jovem tentou evitar o suicídio de sua amiga Tracy (Gianna LePera), acabando por deixá-la em coma e atirar na própria boca com uma espingarda.

É uma cena difícil de assistir, mesmo com todo o humor negro circulando o evento (“A playlist do meu funeral está na última página”, diz a jovem antes de pegar a espingarda), principalmente pela violência gráfica do tiro na cabeça, que contrasta de forma intensa com as cores vibrantes da direção de arte no quarto e também da paleta quente e agradável da fotografia de Andrew Voegeli. O desespero de Eugene ao tentar juntar os pedaços de cérebro de volta na cabeça é outro exemplo de uma ação ousada demais para a televisão, e Slovis é hábil ao manter uma tensão crescente com a mãe de Tracy batendo na porta, estabelecendo bem o pânico do jovem antes de resolver apontar a arma para sua boca. Sendo isso uma projeção do Inferno, o espectador vê o tiro ao menos umas 10 vezes, já que a montagem de Tyler L. Cook aposta em uma sequência de repetição intensa, criando a sensação de um ciclo infinito.

Só no bloco final do episódio que retornamos à Eugene, onde a simulação da memória é interrompida e vemos o Inferno como uma prisão. Um corredor infinito repleto de celas, e o garoto consegue sair de seu confinamento, que está destrancado, para sua surpresa. Quando observa a longa fila de portas ao seu redor, percebe que todas as celas estão sendo abertas, e ninguém menos do que ADOLF HITLER (Noah Taylor) aparece ao seu lado. Uma fuga em massa do Inferno? Isso sim é uma boa premissa. E assustadora.

Damsels foi mais um ótimo episódio de Preacher, que segue apresentando uma temporada mais caprichada e inventiva do que sua anterior. Ainda temos algumas gorduras narrativas, principalmente envolvendo Tulipa, mas o núcleo principal fica mais interessante a cada episódio, especialmente com os novos vilões que a série promete apresentar.

Preacher – 02×03: Damsels (EUA, 2017)

Criado por: Sam Catlin, Seth Rogen e Evan Goldberg
Direção: Michael Slovis
Roteiro: Sara Goodman
Elenco: Dominic Cooper, Ruth Negga, Joseph Gilgun, Ronald Guttman, Noah Taylor, Ian Colletti, Pip Torrens, Julie Ann Emery, Malcom Barrett, Gianna LePera
Emissora: AMC
Gênero: Aventura, Ação
Duração: 44 min

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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