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O mero pensamento de se fazer uma continuação para o clássico Blade Runner: O Caçador de Andróides deveria ser digna de diagnóstico de loucura. Eu mesmo quando ouvi e li diversas vezes sobre o desejo de Ridley Scott em revisitar o mundo distópico inspirado na obra de Philip K. Dick, torcia para que a ideia acabasse esquecida, mas quando o diretor praticamente reviveu sua franquia Alien com Prometheus (e Alien: Covenant), a realização de uma nova história com Rick Deckard ficava mais próxima de se tornar realidade.

Para bem ou para mal, Scott acabou limitando-se à função de produtor, entregando as chaves de seu reino chuvoso e banhado a neon para o franco-canadense Denis Villeneuve, que é facilmente um dos grandes nomes – e um dos mais talentosos – do mercado americano em atividade. Mas mesmo assim, é preciso mais do que um gigante para aceitar o desafio de continuar Blade Runner, filme que traz um dos mistérios mais enigmáticos da História do Cinema e que a mera sugestão de uma continuação é o suficiente para estragar sua ambiguidade. Felizmente, Villeneuve entrega o melhor que poderíamos esperar de uma tarefa destas, tornando este Blade Runner 2049 uma experiência formidável.

A trama é complicada. Antes de caminhar sobre esses ovos, é preciso elogiar a inteligência do departamento de marketing da Warner Bros/Sony em esconder diversos elementos básicos da história, e fazer o produto final parecer muito diferente do que realmente é; nada próximo de um filme de ação, como muitos trailers e TV spots pareciam sugerir. Dito isso, basta saber que a história começa 30 anos depois do original, onde uma nova linha de Replicantes, mais obedientes e domesticados, vivem abertamente na sociedade como prestadores de serviço. Nesse cenário, acompanhamos o blade runner conhecido como K (Ryan Gosling), que embarca em uma investigação nebulosa quando um misterioso objeto é encontrado, e a busca o fará reencontrar o aposentado detetive Deckard (Harrison Ford).

Sonhos elétricos

É alentador olhar para os créditos e encontrar o nome de Hampton Fancher, roteirista do primeiro filme, entre os envolvidos. Junto com Michael Green (de Alien: Covenant), Fancher elabora uma trama complexa e bem segmentada, que consegue muito bem equilibrar o que se faz uma boa continuação, mas também criar uma história que se sustente sozinha. A conhecida estrutura do film noir do primeiro é bem presente aqui, mas com os esperados toques mais modernos; por exemplo, se o filme de Scott tinha um ritmo bem próximo de O Falcão Maltês, Villeneuve segue mais a escola de David Fincher e Seven: Os Sete Crimes Capitais – seja no ritmo, seja na natureza mais gráfica da violência e da ação.

Impressiona também ver a imaginação da dupla ao expandir o universo do original, antes concentrado apenas na futurista metrópole de Los Angeles. Ainda que a sequência permaneça nela durante boa parte, vemos novos cantos e outros estabelecimentos que surgem como novidade, e que garantem um visual incrível graças ao trabalho do design de produção, mas chegaremos a ele em instantes. San Diego e Las Vegas também ganham uma participação interessante e que seguem o fantástico world building da dupla. Isso também se estende à mitologia dos Replicantes, que ganham uma roupagem muito mais profunda e sentimental, e é inventiva a ideia de mostrá-los sofrendo preconceito e xingamentos com uma palavra pejorativa a eles (chamados de Skinjobs).

Nosso guia durante praticamente toda a projeção, o policial K é desde já um dos personagens mais interessantes e bem construídos deste universo. Com uma performance apropriadamente fria e apática de Ryan Gosling, praticamente um forasteiro em sua própria cidade, temos a criação de um protagonista misterioso e que constantemente coloca nossa percepção em xeque – e não, não é o tipo de dúvida que você está imaginando. Essa postura ganha um balanço muito original com Joi (Ana de Armas), um holograma com inteligência artificial que serve como sua namorada, e rende algumas das melhores ideias de produção – que remetem bastante à Ela, de Spike Jonze, mas com um pé muito mais centrado no sci-fi do que no romance, e o roteiro de Fancher e Green estabelece um bom núcleo amoroso entre o casal, oferecendo diversas questões sobre a natureza artificial da relação dos dois.

Mas o que muitos aguardam de uma continuação de Blade Runner é mesmo Deckard. Seria o caçador de andróides um replicante? O que acontece após sua fuga com Rachael (Sean Young) no final do anterior? Basta dizer aqui, sem grandes revelações, que Fancher e Green não têm medo de apostar em decisões ousadas e que fazem da ficção científica o gênero mais experimental e libertador para ideias. Ford surge extremamente melancólico e traumatizado, mas com alguns raros momentos de humor que nos lembram do carisma incrível do ator, ainda em ótima forma para um sujeito na casa dos 70. São novas revelações e desenvolvimentos que elevam o personagem, mas que também gritavam por um pouco mais de tempo para atingir todo o potencial, especialmente no que diz respeito à entrada do Niander Wallace de Jared Leto, que assume a postura do antagonista principal, ao lado da ótima Sylvia Hoeks, que interpreta seu braço direito, Luv.

Responsável por desenvolver os novos replicantes, Wallace ganha um retrato típico das bizarrices de Leto, com uma voz grossa e eloquente, e é bem capaz de criar uma presença notável em cena. Porém, suas motivações acabam soando genéricas graças ao texto da dupla (mas tendo em vista o resultado de Covenant, vou deduzir que venha de Green), que resumem suas ideias e intenções a longos monólogos com analogias bíblicas e a relação entre Criador e Criatura, tal como vimos entre os andróides de Michael Fassbender no segundo prequel de Alien. Temos apenas duas cenas com o personagem, e não são o bastante para que o personagem ganhe um aprofundamento necessário, ainda mais porque o longa termina sem lhe dar um desfecho apropriado.

É um verdadeiro desafio seguir a análise do roteiro da dupla sem aprofundar em spoilers, mas tentarei ser breve e manter os segredos. Ainda que todos os elementos que convergem no terceiro ato tenham sido trabalhados anteriormente de forma concisa, foi inevitável sentir um certo inchaço durante sua conclusão. Não só saímos com diversas pontas soltas e arcos inconclusivos, mas pontos de história relevantes acabam mostrando-se como meras muletas narrativas, especialmente com um grupo de Replicantes que conhecemos no terço final do longa. Fica clara a ideia de continuar a história e fazer sequências, mas isso acaba prejudicando a estrutura deste filme como um todo.

Milagre visual

Existem deficiências na história e na forma como as amarras se fecham em sua conclusão, mas em termos técnicos e visuais, é praticamente um milagre. A começar pela direção de fotografia do mestre Roger Deakins, que transporta o estilo dos filmes de Villeneuve (cores dessaturadas, baixo contraste) para o mundo deslumbrante que Jordan Cronenweth criou com Scott em 1982, trazendo aquele que indubitavelmente é o mais belo filme do cineasta. Há diferentes tons de azul para ilustrar a presença de uma neve tóxica na cidade, assim como a luz de neon dos diversos billboards e propagandas holográficas (claro que teríamos um logo gigante da Sony em Blade Runner, claro…), com destaque para a maravilhosa imagem onde K encara um holograma gigante de Joi, sendo banhado pelos tons de rosa e roxo da projeção – um efeito atingido de forma prática, vale apontar.

 O visual ainda se reinventa quando apresenta um laranja fortíssimo para o esperado retorno de Deckard – e as condições atmosféricas do local onde o aposentado policial se encontra, afetado pela radiação, justificam essa mudança na paleta; e também na campanha publicitária do longa, que baseou seus cartazes na mistura belíssima de azul e laranja. Eu poderia falar horas e horas sobre a fotografia de Deakins para o filme, mas basta dizer que ser ele não ganhar o tão esnobado Oscar por esse trabalho, a Academia simplesmente deveria cancelar a categoria de Melhor Fotografia. Não vai ter filme mais bonito e deslumbrante do que este no ano. Em muitos anos, talvez.

Igualmente poderoso é o trabalho do designer de produção Denis Gassner, que sabiamente expande o conceito do longa anterior e não perde muito tempo mostrando aquilo que já conhecemos. Temos novos billboards (seguimos no universo paralelo onde Atari e PanAm ainda existem) e uma forte influência árabe nas propagandas e elementos (tal como a japonesa era no original) do centro da metrópole, mas conhecemos bem as áreas mais isoladas e distintas da cidade, que continuam seguindo a estética cyberpunk. O ferro-velho que compõem o distrito de San Diego é fascinante pela quantiade de entulho e os vestígios de uma sociedade enterrados no meio da sucata, passando um extremo desconforto só de se olhar. Gassner também merece aplausos pela forma como a tecnologia evolui no cotidiano, vide os toca-discos com hologramas de cantores ou toda a concepção holográfica de Joi, que é uma das melhores ideias da produção. Mas talvez a jóia na coroa seja a personagem de Carla Juri, responsável por desenvolver e criar as memórias implantadas nos replicantes, e a forma como essa função é representada visualmente, assemelhando sua profissão com a de uma fotógrafa, talvez seja a coisa mais bela e original que vi no cinema em 2017.

Com todas essas ferramentas em mão, o talentoso Villeneuve entrega mais um ótimo trabalho. Seu uso de silêncio e planos de reação ligeiramente mais longos marcam presença aqui, começando já na enquietante e sombria primeira cena, onde K conhece o replicante vivido pelo cada vez melhor Dave Bautista, onde a câmera estática e a variação de planos abertos para fechados (com uma ênfase divertida em uma panela borbulhando no fogão) capta a tensão crescente naquele ambiente. De forma similar, a jornada de K para encontrar Deckard nas ruínas de um cassino é outro momento onde vemos a habilidade do diretor em pegar o espectador pela garganta e prender nossa atenção, dispensando a trilha sonora sintetizada de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch para um silêncio intenso e planos gerais que exploram a profundidade de campo, exacerbando o quão pequeno o protagonista é diante de todas as estruturas; que incluem voluptuosas estátuas de mulheres.

Temos também algumas cenas de ação, e surpreendentemente, essa mesma abordagem silenciosa e intensa se mantém à elas. O primeiro encontro entre K e Deckard é movido por antagonismo, e acaba com um caçando o outro dentro de um salão de festas abandonado, cuja escuridão vai sendo afetada por um sistema holográfico defeituoso, que descontroladamente vai exibindo imagens de Elvis Presley, Marylin Monroe e outros músicos de forma abrupta, em uma conquista visual e sonora impressionante: que é como se o trabalho de Roger Deakins com a silhueta da água viva em 007 – Operação Skyfall levasse uma pancada na cabeça enquanto sob o efeito de LCD, garantindo também um design de som inspirado para distorcer as gravações musicais do holograma. Há uma outra cena mais agitada durante o terceiro ato, mas que infelizmente acaba sofrendo com sua longa duração e a insistência em planos fechados para garantir claustrofobia, mas é o único demérito grave da condução do diretor.

Claro, Blade Runner 2049 nem tinha chance de superar o clássico original, mas diante da tremenda responsabilidade e coragem de ousar continuar uma história tão perfeita, Denis Villeneuve não poderia ter feito melhor. Mesmo com alguns solavancos e decisões atropelhadas no último ato, este novo filme é uma viagem imersiva, cheia de reviravoltas e que nos coloca em um universo de ficção científica que há tempos não presenciávamos, contando também com o auxílio de um elenco fantástico e o melhor dos brinquedos que Hollywood pode oferecer.

É um admirável novo mundo.

Blade Runner 2049 (EUA – 2017)

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Ana de Armas, Robin Wright, Dave Bautista, Mark Arnold, Mackenzie Davis, Barkhad Abdi, Sylvia Hoeks
Gênero: Ficção Científica
Duração: 163 min

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