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Sete Minutos Depois da Meia-Noite gira em torno de um garoto comum que se depara com uma força inexplicável que vem para levá-lo a uma epifania pessoal para a qual não chegará sozinho. Tudo bem, a premissa do filme se parece com diversas obras literárias e cinematográficas – e até de outras vertentes – de fantasia que decidem retratar a jornada do herói com a promessa de uma nova e original perspectiva, eventualmente falhando em cumpri-la. Mas J.A. Bayona, o cineasta por trás do aterrorizante O Orfanato e do thriller O Impossível, consegue nos fornecer uma narrativa envolvente pincelada com efeitos visuais que parecem pular para fora da tela, resgatando elementos inclusive da estética expressionista para a construção identitária.

O longa é uma adaptação homônima do romance best-seller de Patrick Ness e, dando nome às cartas do jogo, tem como personagem central um garoto britânico de doze anos cuja vida parece estar desmoronando bem à frente de seus olhos, fazendo o possível para lidar, quase impotentemente, com o câncer que dia após dia corrói as últimas forças de sua mãe e com uma vida escolar desgastante e horrível. Até que, de repente, uma criatura fantástica emerge da forma mundana de um salgueiro para guiá-lo através deste delicados momentos. Tal cenário é tocante e se desenrola de forma tão bem amarrada que diversas vezes somos transportados para o mundo no qual o protagonista vive, visualizando o âmago de nossas próprias personalidades e de nossos mais profundos medos.

O autor também assina o roteiro do longa, e talvez esta decisão entre como a mais coesa no tocante à produção: afinal, o autor consegue encontrar em seus escritos os pedaços-chaves para combinar perfeitamente um mundo fantástico com o sentimentalismo necessário sem deixar que a narrativa sucumba aos clichês dos melodramas de superação, arquitetando viradas ambíguas cujas materializações encontram uma montagem dinâmica e fluida, mostrando os dois lados de uma mesma moeda. No geral, a clareza nunca é total; não sabemos ao certo de o taciturno Conor (interpretado pelo novato Lewis MacDougall) realmente enxerga a criatura ameaçadora (dublada originalmente por Liam Neeson) ou se os acontecimentos se restringem aos sonhos. Ou, divagando ainda mais profundamente, se os futuros traumas foram antecipados com um aviso psicossomático que é tangível apenas para o menino.

O que realmente importa é que o gigante é uma visão a ser admirada. Primeiro pelo fato de uma simples e inofensiva árvore desmembrar seus galhos secos em garras pontiagudas, e segundo por seus olhos. As “janelas da alma” na verdade não refletem a personalidade da criatura, mas sim os anseios e as negações de Conor. Os dois globos amarelados que por vezes cintilam para o negro ou para chamas avermelhadas não conseguem transpassar uma segurança e ao mesmo tempo não nos ameaçam em sua completude; sua aparição é dúbia, assim como o restante do filme.

Além das metáforas, o filme se excede na caracterização do arquétipo – aqui transgredido – do guardião. Diferentemente de outras obras com a mesma temática, a criatura é construída com elementos que nos remetem ao campo dos pesadelos e do desconhecido, a priori nos causando temor pelo modo como se porta, mas depois se mostrando como algo enigmático. A percepção e o enfrentamento da morte através da fantasia se fixa como a principal característica e como o tom de Sete Minutos.

Os parâmetros, querendo ou não, são seguidos. Mas ao contrário de outras histórias, o ceticismo do protagonista ainda se justapõe ao arco da negação. O “suposto antagonista” deveria existir para ajudá-lo, e ainda que Conor não acredite nele, está preso à ordem natural das coisas e não entende como sua presença e seu desejo insano e súbito de proferir três contos paralelos e aleatórios poderá ajudar sua mãe (Felicity Jones) a melhorar. E não importando o quanto rechace essa atitude, ele se deixa levar através das novas narrativas – todas construídas em um mundo em stop-motion à parte, misturado solidamente com estios de aquarela e uma trilha sonora impecável.

A princípio, nem ele nem o público consegue compreender a moral dos contos: um reino castigado pela aparente fúria de uma bruxa nefasta e pelas ações condenáveis de seu futuro rei; um curandeiro que vê suas técnicas milenares sendo corroídas pela modernidade e pelo progresso, e que mesmo assim é abordado por um pastor sem fé; e um homem que nunca foi invisível, mas também não era visto por mais ninguém. Nenhum destes subplots poderia se correlacionar, mas Ness e Bayona conseguem o impossível. Na primeira história, a justiça se mostra turva e nem sempre pune os mocinhos e glorifica os heróis, desmistificando o maniqueísmo presente no julgamento das pessoas para com seus semelhantes; na segunda, um indivíduo que esteja disposto a abandonar seus valores não é merecedor do “felizes para sempre”, mas sim do que aguarda os hipócritas; e na terceira, razão e emoção entram em conflitam para mostrar até que ponto a sanidade humana suporta ser atiçada.

Pelo cenário que nos foi apresentado até agora, é de se esperar que essas morais adentram a vida de Conor. As coisas se estendem além da relação mãe-filho, encarnados pelo senso de justiça falho que resolveu punir a personagem de Jones e não outra pessoa passível de cometer atrocidades; sua relação intransigente com a avó (Sigourney Weaver) contribui para a construção de sua personalidade, a qual vai se tornando mais amarga visto que até suas liberdades pessoais estão sendo arrancadas das mãos. E nada melhora quando seu pai ausente (Toby Kebbell) resolve retornar dos Estados Unidos para prestar algum apoio ao filho que abandonou quando ainda era bebê. Talvez a justiça seja uma peça humorística escrita por um comediante sádico – e isso consegue ser transpassado pelos olhos do próprio Conor. Além disso, sua impopularidade na escola o torna alvo de valentões cujo principal objetivo é forçá-lo a aceitar sua mísera existência e o fato de ser ignorado por todos.

O garoto permite-se ser criança e adulto ao mesmo tempo. Normalmente, essa autoconsciência ainda é muito vaga quando somos mais jovens, mas mostrando-se como alguém “muito velho para ser uma criança”, Conor já traz consigo essa maturidade. Ele precisa se mostrar equiparado às presenças mais experientes e mostrar que pode entender um mundo geralmente incompreensível. O ritmo, logo depois da metade do segundo ato, oscila entre as descobertas do protagonista para o agravamento da condição da mãe, tornando-se um pouco monótono após certo tempo.

Apesar destes pequenos deslizes, os clímaces são tão bem construídos que puxam o foco para si e nos fazem esquecer dos erros. A fotografia opta diversos momentos por se deixar levar para plongées absolutos, mostrando de que modo a criança protagonista de diferencia de seus “colegas” da escola e como seu mundo está dividido: em determinada sequência, vemos Conor estendendo-se no limite entre o abismo do vazio existencial e as fraturas de suas escolhas, representadas por uma planície totalmente castigada por tremores de terra.

Em suma, Sete Minutos Depois da Meia-Noite é um daqueles filmes que consegue abranger diversos temas do relacionamento humano e de como lidamos com situações caóticas sem se deixar levar pelas saídas formulaicas e novelescas. Bayona mostra-se mais uma vez competente ao adaptar um das histórias mais densas da atualidade – e só podemos esperar que este nível seja mantido quando o cineasta se aventurar no perigoso mundo dos blockbusters de Hollywood.

Sete Minutos Depois da Meia Noite (A Monster Calls, 2016 – EUA, Espanha)
Direção:
 J.A. Bayona

Roteiro: Patrick Ness (baseado em seu próprio livro)
Elenco: Lewis MacDougall, Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell, Liam Neeson
Gênero: Drama, Fantasia.
Duração: 108 min.

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