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Star Trek: Discovery trilhou um caminho muito interessante dentro dos remakes contemporâneos. Para aqueles não familiarizados – coisa que acho muito difícil, levando em conta a proporção que a atemporal franquia tomou desde seu surgimento -, esse panteão intergaláctico que caminha lado a lado com a revolução promovida por Star Wars já sofreu inúmeras investidas para a televisão e para os cinemas, com algumas compondo um sucesso gigantesco e outras permanecendo na mediocridade ou até mesmo abaixo dela. Mas não podemos negar que o revival arquitetado tanto pela CBS All Acess quanto pela Netflix teve uma aceitação muito maior do que se esperava pelo público, pelo simples fato de resgatar elementos nostálgicos da série original, fornecer uma perspectiva moderna para as aventuras dos nossos heróis e até mesmo colocar easter eggs para afofar o ego dos fãs.

E conforme essa crescente audiência foi sendo conquistada, o show idealizado por Bryan Fuller e Alex Kurtzman logo se permitiu mergulhar ainda mais em seu incrível potencial narrativo, expandindo as tramas outrora fechadas em si mesmas para um cosmos totalmente diferenciado e com inúmeras possibilidades – cujo ápice, sem sombra de dúvida, foi alcançado nesse mais novo episódio. E bom, se o retorno da midseason finale representou um incrível resgate do que havia sido deixado no ano passado, Vaulting Ambition não apenas mantém o ritmo frenético e essencialmente angustiante, mas utiliza de pequenas sutilezas para compor uma das maiores viradas da temporada.

A trama da nova iteração tem como foco quatro personagens, cada qual relacionado de forma diferenciada com o panorama geral. Como sabemos, a U.S.S. Discovery, agora apelidada de I.S.S. Discovery, sofreu um salto temporal muito conturbado e acabou ressurgindo em uma nova dimensão – uma realidade muito mais perigosa do que a que a conheciam, no qual a investida terráquea dizimou inúmeras outras raças e insurgiu como a comunidade superior, subjugando os sobreviventes a um reinado de terror e tirania. Apesar dos poucos momentos de união entre diferentes espécies – delineadas no capítulo anterior -, é a desesperança e a total submissão ao reinado de horror da Imperatriz Georgiou (encarnada pelo retorno triunfal de Michelle Yeoh) as forças-motrizes para os protagonistas.

A ação essencialmente se passa a bordo do I.S.S. Charon, uma espaçonave imensa no qual a antagonista da narrativa habita e recebe de braços abertos o retorno de Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), a qual havia sido dada como morta, mas que logo ressurgiu com um grande tributo em mãos: a prisão do desertos Gabriel Lorca (Jason Isaacs). Entretanto, ambos os personagens não pertencem àquela realidade, mas sim a um universo totalmente paralelo onde as rendições da Frota Estelar são as que prevaleceram – o que torna toda essa subtrama muito mais interessante e complexa para os protagonistas.

Mais uma vez, o roteiro, dessa vez assinado por Jordon Nadino, não tem pressa para resolver as questões em pauta e não utiliza-se de saídas convencionais para a resolução ou a continuidade de alguns arcos. Diferentemente da primeira parte da série, que tinha como objetivo a introdução dessa mitologia para o telespectador, esses episódios são dependentes uns dos outros e não funcionam como fragmentos soltos e finalizados em si mesmos; desde o décimo capítulo estamos inseridos juntamente aos personagens principais dentro de uma busca para retornar ao universo que conhecem – e é gratificante saber que eventos deus ex machina são completamente abolidos aqui.

Em contraposição, o reencontro entre Georgiou e Burnham não alcança um ápice completamente satisfatório. Ambas as personagens estrelam uma sequência muito bem dirigida pela incrível mão de Hanelle M. Culpepper, que não apenas preza pelo jogo campo-contracampo, mas também utiliza de alguns preciosismos que são bem-vindos, principalmente ao considerarmos a majestosa nave da Imperatriz. A montagem, oscilando entre planos médios, fechados e detalhe, captura momentos poéticos e ao mesmo tempo carregados de um significado que vai além do que os olhos veem. Durante o jantar de “boas-vindas” à Burnham, Georgiou sutilmente lhe oferece um pedaço de guelra de Kelpian – raça de um dos personagens mais queridos da série, Saru (Doug Jones) -, mas não preza por transformar os pequenos gestos em uma tragédia grega, e sim numa sutileza comovente e assustadora.

Essa preocupação com o imperceptível perdura o episódio inteiro e serve de base para um fechamento de terceiro ato incrível e que tira o fôlego até dos mais céticos. Diferentemente de outras histórias que mexem com viagens no espaço-tempo, não conseguimos prever que a grande virada da temporada na verdade nos foi sendo apresentada desde os primeiros capítulos, através de diálogos misteriosos e duvidosos que, à prima vista, pareciam inofensivos. A catarse é tamanha que toda a nossa visão maniqueísta acerca de certos personagens muda brusca e irreversivelmente.

O ritmo descontrolado, porém de grande funcionalidade para o capítulo em questão, é equilibrado com a pureza e a suavidade da subtrama envolvendo Paul Stamets (Anthony Rapp) que ainda permanece em coma e acaba por encontrar o espírito de seu ex-namorado, assassinado de modo impiedoso, o Dr. Hugh Culber (Wilson Cruz). Apesar do excesso melodramático, essas investidas mais novelescas são ofuscadas pelo crescente embate entre ciência e religião, cujos dogmas paradoxais são colocados cada vez mais em cheque dentro de um cosmos movido, por essência, pela racionalidade.

Star Trek: Discovery conseguiu o impossível: manter e até mesmo superar suas habilidades narrativas e estéticas a cada episódio e chegando a um ápice inimaginável, com uma história tão redonda que chega a ser dolorosa de tão emocionante. Agora, é com muita expectativa que aguardo, ao lado dos outros fãs da série, uma continuidade tão merecedora e que faça jus àquilo que foi criado e mantido por tanto tempo.

Star Trek: Discovery – 01×12: Vaulting Ambition (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Hanelle M. Culpepper
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Jordon Nardino
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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