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Ariana Grande tornou-se um dos grandes expoentes da música pop internacional nos últimos anos – e isso, na verdade, não vem com tanta surpresa assim: a ex-integrante do grupo de televisão Nickelodeon pavimentou seu caminho até o sucesso, lançando-se na carreira solo com seu álbum de estreia Yours Truly, um breakthrough comercial e crítico que a trouxe à tona com comparações dignas de uma das divas da década 1990/2000, Mariah Carey. Logo depois, seu nome rodou o mundo e conquistou inúmeros fãs, alcançando o ápice com o terceiro disco, Dangerous Woman. Entretanto, não se pode negar que Grande, apesar do talento vocal, mantinha-se em uma zona de conforto dialógica com o que o mercado pedia: a artista definitivamente tinha muito mais a oferecer.

Em seu mais recente álbum, Sweetener, Ariana prova que estava pronta até além do que lhe dávamos crédito para mergulhar de cabeça num experimentalismo buscado por suas conterrâneas – como Dua Lipa e Bebe Rexha, por exemplo. Mesmo assim, afastar-se de um rótulo que carregava era um movimento arriscado que poderia colocá-la em uma das piores fases de sua carreira; felizmente, não foi isso o que aconteceu: o CD, composto por quinze faixas que transitam de modo harmônico e fluido, em quase sua completude, pelo trap, pelo R&B e pelo próprio pop, abre margens para explorações vocais extremamente interessantes. É claro, a cantora eventualmente retorna em uma compulsoriedade justificável para as tentativas de hits comerciais, mas procura se manter fiel à mensagem que quer passar.

O início das composições é um tanto quanto assustadora e se inclina para uma outra obra lançada também neste ano (Liberation, de Christina Aguilera): um prólogo abre as portas para o doce mundo de Ariana, explorando sua incrível extensão vocal em soprano, sem qualquer indício instrumental. E é aí que podemos pensar que as transições de pouco menos de um minuto irão pipocar profusamente ao longo do disco – o que, à prima vista, é decepcionante. Mas não é bem por aí que a história segue, e logo depois blazed e the light is coming nos chegam aos ouvidos, ambas as músicas com o toque já conhecido de Pharell Williams (e não, isso não necessariamente é algo bom). A presença do R&B se mistura-se com o funk e cria dois ambientes diferentes, ainda que busquem pela mesma reação do público: nesta, as coisas são desconcertantes, e nem mesmo a chamada de Nicki Minaj ajuda a melhorar; naquela, a narrativa se move com um pouco mais de fluidez.

Sweetener parece demorar um pouco para se encontrar, mas quando o faz, Grande passa a produzir mágica. E ela se entrega a toda a pessoalidade com a qual reveste sua obra muito melhor sozinha; afinal, as grandes canções e singles funcionam como extensões de seus sentimentos conflitantes após os atentados de Manchester que impactaram na produção do álbum e na introdução de faixas que servissem de hinos de superação e de dor. Não é à toa que o título mostra de que forma podemos colocar um certo adoçante nas situações amargas que a vida nos traz – e tais minimalismos não pedantes sem dúvida alguma aumentam sua complexidade.

Logo, encarar o álbum apenas por sua superfície é negar-se a uma compreensão muito mais profunda. As faixas, travestidas com elementos sonoros chamativos e dançantes, na verdade dão margem para uma outra perspectiva de encarar o cotidiano: em no tears left to cry, o título pessimista por aparência traz uma construção incrível e catártica que dialoga com inúmeras outras, incluindo a faixa-título, que brinca com crescendos em seus pré-chorus, logo antes de mergulhar na suavidade do trap e até mesmo abrindo margens para experimentos muito bem-vindos com alguns elementos da música eletrônica – isso sem comentar da letra, que diz inúmeras vezes que um pouco de açúcar consegue ajudar a enfrentar “tudo o que a vida traz de amargo”. Tudo flui com graça e satisfação, próprios da marca vendida por Grande.

O ápice do álbum reside na delineação mais mercadológica, porém prática e incrivelmente apaixonante, de breathin. A canção, passível de cair no gosto popular e se tornar um sucesso nas casas noturnas, abraça com força o apreço pelo R&B em seu início antes de penetrar os outros estilos de forma tão leve e tão límpida que é quase impossível não se apaixonar tanto pelos vocais da artista, quanto pela batida envolvente e que sabe muito bem qual caminho trilhar. Aqui, há o aproveitamento de alguns momentos solo de Grande que preparam terreno a um beatdrop incrível e emocionante.

Entretanto, ainda que os momentos de glória falem mais altos, alguns equívocos são impossíveis de serem ignorados. Além da constante intervenção de Williams, que parece roubar a originalidade e a identidade musical de Ariana, ele também fica responsável pela construção e produção de successful, cuja descrição se resume à seguinte frase: uma tentativa de deboche que cai na própria ruína. Mesmo com o onirismo que insurge com seus primeiros segundos, nem a voz, nem o tom, nem as batidas funcionam. O resultado é uma rendição barata e forçada, uma brincadeira infantiloide e superficial que cede a faixas infinitamente superiores.

Felizmente, o álbum retorna à sua glória e resgata momentos anteriores e inesquecíveis da primeira metade. God is a woman, por exemplo, explora as ilimitadas possibilidades da música e da letra, criando uma narrativa afrontosa e que vai de encontro a quaisquer tentativas de padronização da arte – além de mergulhar em contextos tão diversos que chega a ser cômico. Talvez o único problema da faixa seja uma breve transição do final do primeiro ato para o início do segundo, mas nada que seja ofuscada pela grandiosidade que representa.

Grande também faz bom uso de alguns avisos e mensagens de apoio às vítimas dos atentados, principalmente com o prólogo citado anteriormente, o interlúdio pete davidson, pessoal até demais para a cantora, que fala sem medo de possíveis tabus sobre o noivo e sobre a convivência com conturbações psicológicas. O disco termina em uma curva positiva com get well soon, respaldando-se em esperança e otimismo – mas não livre de certos deslizes: a construção dessa última track funciona mais como um epílogo ou spin-off, assemelhando-se a um fragmento perdido que foi recuperado de última hora e colocado como tapa-buraco (em termos sonoros).

Sweetener representa mais uma vitória para a carreira de Ariana Grande, ainda mais por trazer elementos novos a uma figura que tem tudo para continuar em sua escalada ao topo. Se a cantora já havia provado ser digna de reconhecimento com álbuns anteriores, aqui ela se mostra mais que apta e versátil a experimentalismos que esperamos ser mais recorrentes em projetos futuros.

Nota por faixa:

  • raindrops (an angel cried) – 3,5/5
  • blazed (feat. Pharell Williams) – 3,5/5
  • the light is coming (feat. Nicki Minaj) – 3/5
  • R.E.M. – 3,5/5
  • God is a woman – 4,5/5
  • sweetener – 4,5/5
  • successful – 2,5/5
  • everytime – 3,5/5
  • breathin – 5/5
  • no tears left to cry – 4,5/5
  • borderline (feat. Missy Elliott) – 3,5/5
  • better off – 3,5/5
  • goodnight n go – 3,5/5
  • pete davidson – 4/5
  • get well soon – 4/5

Sweetener (Idem, EUA – 2018)

Gravadora: Republic
Lead: Ariana Grande
Composição: Bob Gaudio, Pharell Williams, Ariana Grande, Maxine Colon, Ilya Salmanzadech, Max Martin, Savan Kotecha, RIchard Görranson, Peter Svensson, Melissa Elliott, Chauncey Hollis, Tommy Brown, Michael Foster, Victoria McCants
Gênero: Pop, Trap, R&B
Faixas: 15
Duração: 47 min.

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