Taboo talvez seja uma das poucas séries em que as entidades ideológicas, políticas e religiosas inerentes ao ser humano e à sua construção social são colocadas em ambiguidade a cada sequência gravada. Como já citei em outras análises, a série criada por Tom Hardy, Steven Knight e Edward Hardy traz elementos próprios do gênero suspense/terror que a priori não são essencialmente originais – vide Penny Dreadful -, mas que culminam em ápices viscerais com um potencial catártico imensurável.

Decidi juntar as críticas do quarto e do quinto capítulos em um só texto devido à suas construções narrativas. Nos episódios anteriores, os arcos se iniciavam e encontravam um término ao longo de seus sessenta minutos, com sutilezas quase imperceptíveis para garantir a fidelidade do espectador à série. Mas aqui, os dois se complementam, criando soberbos arcos e resoluções para cada um de seus protagonistas, adicionando ainda mais complexidade a uma já densa história.

James Delaney (Hardy) sempre foi o anti-herói desta trama histórica e sempre esteve literalmente coberto pelas sombras. Suas ações e seus objetivos permaneceram escondidos e foram se revelando num ritmo mais lento que o normal, contribuindo para que o mistério envolvendo seu passado e seu ódio com a Companhia Oriental das Índias e a Coroa Britânica se tornasse um dos pontos principais a serem descobertos ao longo da temporada. Sua personalidade impetuosa e decidida o permite a criar artimanhas para conseguir aliados de todos os cantos de Londres, mas a falta de senso crítico e de sociabilização também o tornam um alvo fácil de inimigos. Aliás, posso dizer com quase absoluta certeza de que Delaney não tem ninguém em que possa confiar inteiramente – e não fico surpreso: por mais que tudo o que fez até agora tenha sido em prol de enterrar a superficialidade e a hipocrisia da monarquia britânica, ele não é flor que se cheire.

Em Episode #1.04, finalmente damos um basta na pergunta que calcava nossas cabeças desde o piloto: a identidade da série. Taboo realmente é um drama histórico ambientado nas primeiras décadas do século XIX, mas, assim como sua predecessora supracitada, traz elementos sobrenaturais de forma mais sutil. Nestes novos dois capítulos, possessões, rituais pagãos e exorcismos foram coreografados de forma espetacular e em montagens paralelas fornecendo duas perspectivas completamente diferentes. Em uma das sequências mais belas visualmente, Delaney entra em contato com seu alter-ego espiritual – uma mulher vestida em trajes negros e com um rosto pálido – para engolfar-se ao corpo de sua meia-irmã, Zilpha (Oona Chaplin). A construção é brutal e revela os instintos mais animalescos de James, mas a dupla narrativa contrasta com tons de dourado e azul-cobalto que, ao entrar em choque, criam um microuniverso destes dois personagens. Entretanto, sabemos que a personagem de Chaplin não deseja reatar laços antigos com ele – por motivos ainda não revelados, visto que seu relacionamento conturbado desenvolveu-se numa subtrama epistolar recheada de segredos – e de algum modo quebra essa conexão.

Apesar de manter-se fiel ao seu marido, Thorne (Jefferson Hall), as tensões aumentam ainda mais. Ele é arqui-inimigo declarado de Delaney, por seu passado e pelo fato de ter passado mais de dez anos em terras africanas, tornando-se “um negro e uma desgraça para a própria família”, como gosta de frisar com seus ares racistas. Ao final do quarto capítulo, ele, completamente mergulhado numa bebedeira imensurável e na total falta de princípios doutrinários, desafia um dos homens mais misteriosos a viver na Inglaterra para um duelo até a morte.

A batalha se desenvolve já no início de Episode #1.05, dentro de uma belíssima fotografia prezando pelo enquadramento simétrico e valendo-se do total silêncio para expressar o angustiante desenrolar do fatídico encontro e seu consequente resultado. É interessante notar que, diferentemente de outras sequências de confronto, cuja preferência reside em cores mais quentes e cenários mais limpos, o diretor Anders Engström, substituindo Krystoff Nyholm (responsável pelos quatro primeiros capítulos), optou por construí-la numa floresta fechada, à frente de um pântano e com uma paleta mais fria, refletindo de forma coesa e crível o modo cru como as desavenças eram resolvidas naquela época.

Chaplin volta com seu protagonismo nestes dois episódios, fazendo parte de momentos inesquecíveis e dolorosos com Delaney e Thorne – chegando a ser exorcizada por um padre após brutalmente atacada pelo próprio marido – e entregando uma atuação que nos relembra muito a de Eva Green na temporada de estreia de Penny Dreadful – principalmente para revelar suas verdadeiras intenções e colocá-la num arco de vingança que servirá de base para os próximos acontecimentos. Mas é Jessie Buckley que, desde sua primeira aparição, mostra-se muito mais coerente com o tom maduro da série e emerge como uma das personagens mais racionais do grupo protagonista. Lorna Bow, a atriz fadada ao rótulo de seus erros de outrora, mantém o cinismo e a ironia necessários para não deixar a série afundar numa melodramaticidade saturada, e mostra os primeiros sinais de fraqueza ao finalmente descobrir o poder que um coração partido tem e até que ponto chega o homem para reafirmar seu poder.

As subtramas mais interiorizadas permanecem sólidas como nunca, mas a conjuntura maior também tem seus momentos de brilho. Jonathan Pryce, dando vida a Stuart Strange – esquecido por alguns momentos atrás das pilhas e mais pilhas de papeladas – vê seu monopólio comercial virar poeira a cada jogada prevista por Delaney e sua posse do território essencial na América do Norte que lhe concederia o controle das rotas comerciais entre Inglaterra e China. Como símbolo da economia britânica, seus objetivos são bem claros: mercantilização. E para isso, fará de tudo para tirar os obstáculos do caminho. O problema é que Strange não previa que a própria Coroa seria inútil o suficiente – e, de certo modo, um escape cômico para uma série essencialmente trágica – para colocar interesses fúteis acima do dinheiro.

De forma generalizada, é possível dizer que o quarto capítulo de Taboo ainda trazia certa racionalização por parte dos personagens e da história, adornada pela trilha progressiva de Max Richter e por uma escolha estética própria desse tipo de produção audiovisual. O quinto, entretanto, marca uma ruptura no desenvolvimento destes arcos, os quais agora são perscrutados por uma composição tonal e animalesca que desperta o pior lado dos protagonistas: a música tema é transgredida e reconstruída em notas por vezes desafinadas e sutis do violino, as quais transmitem a sensação de insegurança e de perigo iminente a serem enfrentados no futuro. Os instintos são muito mais presentes e tornam-se o principal meio de impedir que o caos se espalhe na cidade – e de forma quase profana, eles são incorporados por máscaras sociais e arquétipos de instituições ditas “éticas”.

Taboo faz bom uso de sua premissa e mostra que veio para ficar. Sua identidade se endossa e se aprofunda a cada novo capítulo – e, dependendo do rumo da narrativa, pode vir a criar um dos arcos mais instigantes da televisão contemporânea.

Taboo (Idem, 2017, Reino Unido)

1×04: Episode #1.04 / 1×05: Episode #1.05

Criado por: Tom Hardy, Steven Knight, Edward Hardy

Direção: Kristoff Nyholm, Anders Engström

Roteiro: Emily Ballou, Ben Hervey

Elenco: Tom Hardy, Oona Chaplin, Jonathan Pryce, David Heyman, Jessie Buckley, Franka Potente, Michael Kelly, Mark Gatiss, Tom Hollander, Jefferson Hall

Gênero: Drama, Fantasia

Duração: 60 min.

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