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É certo dizer que Gianni Versace é considerado até hoje um dos nomes mais transgressores dentro do mundo da moda. Conforme explanado na crítica anterior, sua visão “distorcida”, por assim dizer, era impulsionada pela constante mudança do cosmos no qual estava inserido e pela ideia de que a arte da costura e da estética era continuamente vista pela sociedade de modo efêmero, passageiro e superficial, mas paradoxalmente adorada e idolatrada por seres movidos pela iconografia e pelo individualismo. Não é à toa que Ryan Murphy tenha investido grande parte de sua habilidade narrativa para transpassar justamente essa sensação para as telas com a segunda temporada de American Crime Story – e, bom, se o primeiro capítulo já conseguiu encantar, o segundo apenas continua de forma gradativa e nos permitir mergulhar nesse perigoso e sedutor jogo.

Em Manhunt, já temos uma brusca quebra de linearidade dentro do roteiro assinado por Tom Rob Smith. Durante os pouco mais de cinquenta minutos de exposição, a grandiloquente montagem oscila entre presente e passado com uma naturalidade assustadora e que em momento algum abre brechas para que o público se perca. É claro que uma atenção a mais se faz requerida dentro desse pano de fundo, mas é muito fácil perceber a transição devido à incrível preocupação e sutileza da própria fotografia e das escolhas imagéticas para o capítulo, que mantêm diálogo com a iteração anterior e já fornece uma identidade invejável para a série – identidade a qual se mostra gratificantemente original em meio a tantas produções que funcionam apenas como reciclagem umas das outras.

Ao mesmo tempo em que essa refrescante perspectiva se desenvolve, Murphy aproveita para colocar seus próprios maneirismos cênicos, incluindo zooms excessivos e enquadramentos que transpassem uma sensação de angústia e tensão – tudo combinado a uma trilha sonora tonal e tétrica que tem a habilidade de fundir-se à atmosfera criada à medida que traça paralelos com o outros show do criador, American Horror Story. Esse novo capítulo traz inúmeras referências a uma temporada em particular da antologia de terror, Freakshow, principalmente por optar engatar as tramas e subtramas através do mais puro silêncio em detrimento de uma investida mais verborrágica e monótona. E é justamente aí que o trabalho dos atores insurge como força-motriz do mais novo ano.

Mais uma vez, o elenco de ponta de linha brilha sem qualquer surpresa. Édgar Ramírez rende-se ainda mais profundamente ao intenso e apaixonado Gianni e já explora seus lados mais frágeis com uma sequência extremamente poética e tocante do momento em que foi diagnosticado com AIDS, acompanhado por seu par romântico e companheiro Antonio D’Amico (encarnado pelo carismático e sedutor Ricky Martin). Através de alguns planos contínuos e dos deslizamentos fluidos da câmera, a química entre os dois personagens é capturada tanto nos momentos mais difíceis quantos nos mais agradáveis, e é reafirmado inclusive nas consequências de seu assassinato.

O foco maior, entretanto, reside sobre duas figuras que desde o primeiro capítulo já mostraram ter uma força incontestável para a reprodução dos fatos acerca da morte de Versace: a primeira delas é Penélope Cruz no papel da irmã do famoso estilista, Donatella, Sua atuação é impecável e definitivamente torna a tão necessidade de diálogos autoexplicativo obsoleta, sustentando todo o peso da cena e arquitetando momentos de pura catarse apenas com os olhos, auxiliados pelas expressões faciais. Sua personalidade complexa também se mantém sob sigilo e sob um mistério extenuante, visto que ela tenta permanecer a maior parte do tempo em uma inexpressividade superior principalmente ao confrontar D’Amico, pelo qual nunca teve muito afeto. Já sabemos desses conflitos desde The Man Who Would Be Vogue, mas aqui a morte de Gianni marca um novo começo para sua relação – na verdade, um término. “Ele morreu, Antonio. Não há mais por que fingirmos”, ela diz em determinado momento.

Cruz e Ramírez também aproveitam os inúmeros e bem colocados flashbacks com uma destreza inenarrável; em uma determinada sequência, ambientada no camarim das modelos de um dos últimos desfiles da Casa Versace, Donatella e Gianni conversam sobre suas próprias visões acerca do mundo da moda e de como sacrifícios devem ser feitos: entretanto, o estilista preza pela vida, pela alegria, enquanto a irmã rende-se à estética corporal, às delineações do corpo e ao blasé. É claro que duas perspectivas tão diferenciadas eventualmente não iriam concordar, e são essas falas que logo mostram a sabedoria de Gianni e como Donatella viria a carregar o legado da família após sua morte, absorvendo o modo como ele lidava com a pressão e com a constante renovação de sua marca.

A segunda irrefutável força vem com a inesperada performance de Darren Criss como o psicopata Andrew Cunanan. Conforme disse no começo do texto, a inclinação para AHS é bastante forte neste novo capítulo, e é Cunana o protagonista desses momentos de pura angústia e terror. Sabemos que as memórias que o cercam e as narrativas que fazem parte de sua construção psicológica não são totalmente verossímeis: para aqueles que não estão familiarizados com os eventos reais, o serial killer cometeu suicídio poucos dias depois de assassinar sua quinta e última vítima – sua obra-prima, Gianni Versace. Logo, nunca houve julgamento ou retrospectiva palpável que permitisse a total compreensão de sua doentia mente, e é justamente nisso que American Crime Story tem maior sucesso.

A série realiza possíveis paralelos com os traços marcantes dessa figura conhecida mundialmente por razões tenebrosas e erradas, incluindo suas tendências às mentiras compulsórias, seu prazer com a dor e a dominação – explícita de forma angustiante através de uma sequência maravilhosamente bem coreografada – e seus transtornos de personalidade. O mais aplaudível, porém, é como a série tem noção de suas próprias limitações narrativas, preferindo mergulhar em suposições sem cair no preciosismo. É justamente por isso que as cenas protagonizadas por Cunanan são construídas respaldadas por um filtro rosáceo, combinando com as escolhas da direção de arte e que demonstra a entrada de certos floreios quanto à veracidade; em contrapartida, cenas de caráter mais conhecido são marcados por cores mais frias e uma iluminação mais dura – e tanto essas quanto aquelas se complementam.

The Assassination of Gianni Versace continua surpreendendo e envolvendo a audiência, entregando-se a uma investida do porte de Ryan Murphy e que, mesmo assim, surpreende considerável e satisfatoriamente.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×02: Manhunt (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Nelson Cragg
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 42 minutos

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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