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As coisas estão repetitivas demais em American Crime Story.

Quando Ryan Murphy anunciou que a segunda temporada de sua antologia criminal-realista iria trazer como escopo principal o assassinato de Gianni Versace, é inegável dizer que as expectativas alcançaram níveis altíssimos, principalmente considerando que a temporada anterior, focando no julgamento de O.J. Simpson, tornou-se um estrondoso sucesso no circuito de premiações, além de consagrar-se como uma das melhores investidas do panteão do showrunner. Entretanto, com a entrada da segunda temporada, Murphy parece ter se perdido, juntamente a seu time criativo, em meio a tantas possibilidades e perspectivas para recontar uma das tragédias mais memoráveis da História.

Desde o terceiro episódio, a antologia criminal passou por uma brusca mudança identitária ao resolver trazer como foco o desequilibrado e carente psicopata Andrew Cunanan (Darren Criss) e todas as delineações de sua incrível jornada para se tornar um dos nomes mais procurados do FBI no final da década de 1990. Tudo bem, é certo que a entrada de tal figura é de extrema importância para compreendermos os motivos que o levarão a cometer tal atrocidade, além de servir como base para explanar os fracassos das autoridades estadunidenses dentro de sua filosofia laboral – afinal, como vimos no primeiro episódio, a polícia e até mesmo o governo federal cometeram deslizes indesculpáveis no tocante a alertar a população sobre os crimes cometidos por Cunanan, cuja lista de vítimas apenas aumentava. Entretanto, o roteirista Tom Robb Smith, responsável por adaptar o livro assinado por Maureen Orth para as telinhas, parece ter se perdido em meio a uma ambição desmedida e ter se esquecido dos outros elementos da trama.

A partir do terceiro capítulo, intitulado A Random Killing, Murphy e seu time de diretores resolveu trazer um pouco mais de background para Cunanan, cujo passado foi respaldado pela incrível sutileza interpretativa de Criss, o qual conseguiu perpassar por todas as facetas do serial killer – incluindo sua tendência para a mentira compulsória e sua incapacidade de lidar com decepções – de forma certeira e aplaudível. Mesmo assim, investir cada vez mais em sua história tornou-se uma saída clichê, monótona e irritantemente repetitiva. Já faz algum tempo que a cronologia trilha um caminho reverso e volta cada vez mais para os incidentes que abriram margem para que ele se transformasse no rosto do qual nos lembramos hoje.

Em outras palavras, Smith decidiu explanar de forma poética cada um dos homicídios cometidos, e em Descent, assim chamado o sexto capítulo, somos levados para um passado ainda mais remoto – não tão distante, mas que se afasta dos eventos da trama presente, retornando para o ano de 1996. Aqui, a narrativa principal gira em torno do aniversário do personagem em questão, que serve mais como um encontro de todos os homens que passaram por sua vida e que marcaram sua vida do pior jeito possível. Logo, temos o retorno de nomes já conhecidos – incluindo Finn Wittrock como o ex-cadete da Marinha Jeffrey Trail – e a entrada de mais um rosto que respalda toda a personalidade consecutiva de Cunanan: o exuberante magnata Norman Blachford (Michael Nouri).

Mergulhando dentro de mais um ciclo de mentiras, Andrew foi “adotado” por Norman após aquele ter supostamente sido expulso de casa pelos pais após a revelação da sexualidade e seu desejo de ficar com um homem mais velho. Afinal, uma das bases que são exploradas em The Assassination of Gianni Versace é justamente o preconceito e os tabus acerca da comunidade LGBT, com enfoque nas diversas leis maritais e homofóbicas que impediam a expressão de sua individualidade. Apesar disso, é interessante notar como Smith também traça um paralelo com os obstáculos enfrentados por essa minoria dentro do próprio meio, incluindo o fato desses personagens em questão terem que vestir máscaras sociais e serem impedidos de viver como bem entenderem. Aqui, Cunanan busca por seu individualismo ao mesmo tempo em que não deseja sair de todo o luxo e o conforto que seu sugar daddy lhe trouxe – o dinheiro, as joias, as roupas de grife e um acesso ilimitado à high society.

Entretanto, mesclar-se a essa nova vida de futilidades era apenas um escopo para sua real ambição: ser alguém e ter controle sobre seu destino. Não é nenhuma surpresa que a crescente necessidade de dominação e superioridade (refletida no fetiche sadomasoquista nutrido pelo anti-herói) seja traduzida em sua busca incansável de outros prazeres – como por exemplo no empresário Lee Miglin (Mike Farrell). Só aqui já temos dois arquétipos da vida de Andrew importantes para a explicação de seus atos futuros: a figura do protetor (Norman) e o do amante (Lee). Além disso, temos a insurgência – já explanada em episódios anteriores – de dois escapes românticos que na verdade são mascarados por uma estilização obsessiva, encarnadas por Wittrock e por Cody Fern no papel de David Madson. E o que também começou com uma inocente amizade logo tornou-se um perigoso triângulo amoroso que culminou em nada mais que tragédia e perda.

O grande equívoco, o qual já está sendo ignorado há tempo demais, é insistir que cada uma dessas subtramas tem uma importância muito maior do que realmente se faz necessário. Aqui, a diretora Gwyneth Horder-Payton ainda consegue criar uma atmosfera envolvente, mas a entediante história traça um arco que já conhecemos e que já foi explorada. Sentimo-nos assistindo a uma ode interminável à mesquinha astúcia de Cunanan e como esse “gênio incompreendido” possuía inúmeras facetas que permitiram-no realizar sua obra-prima com a eliminação de Versace. É claro que seu desejo de se tornar um deus é de suma importância, mas já está mais que na hora que essa narrativa em específico continue seu caminho, e não retroceda ainda mais para explicações que, no final das contas, não trazem absolutamente nada de novo para o espectador.

Talvez o que mais seja doloroso e o abandono quase total da incrível estética cênica que nos foi apresentados nos primeiros capítulos. Não temos mais a graça e a leveza da paleta de cores rósea, nem mesmo os filtros pastéis que criam uma ambiência moderna e conversem com os ideais de seu protagonista – que agora tornou-se coadjuvante da própria história. Toda a construção do mundo da moda, incluindo sua imponência e seu complexo funcionamento, é abandonado (seja de forma mais explícita ou implícita), optando por uma veracidade excessiva que eventualmente não deveria existir. Ainda que os esforços de criar uma perspectiva subjetiva carreguem consigo uma inclinação para a realidade, não queremos permanecer nessa bolha o tempo todo, e sim ter alguns escapes para os quais fugir.

American Crime Story parece estar fadado a uma desgraça inescapável. Perdido em sua própria ambição e sua tentativa de uma originalidade desnecessariamente presunçosa, é triste ver que personagens e tramas muito mais instigantes serem desperdiçados para abrir espaço a algo saturado e, por falta de outras palavras, chato.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×06: Descent (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell, Cody Fern, Finn Wittrock
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 55 minutos

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