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“The Book Of Nora“, o último episódio de The Leftovers, resume perfeitamente o que foi a última temporada da série: uma indecisão narrativa por parte dos roteiristas sobre aquilo que realmente desejavam contar. Ao longo das últimas oito horas, Damon Lindelof e companhia oscilaram entre o desenvolvimentos dos personagens e o desenrolar dos mistérios sobrenaturais, nunca encontrando um ponto de equilíbrio entre as duas abordagens. Abraçar o mistério ou se importar somente com os personagens? Essa parece ter sido a pergunta que se fizeram durante a pré-produção.

No entanto, por que não ir pelos dois caminhos? Muito se falará sobre como não é importante explicar o mistério, já que o seriado girava em torno dos que ficaram para trás e não daqueles que se foram. Mas isso é conversa fiada. Foi a junção das duas coisas que fascinou o espectador e não apenas uma delas. Criar mistérios sem ter de explicá-los é uma tarefa fácil para qualquer roteirista. Deixá-los saírem incólumes disso, ou seja, livre de críticas, é permitir que sejam preguiçosos. Sim, alguns usarão o argumento de que a vida não possui respostas definitivas, portanto, por que haveria de existir numa série de televisão? Porém, não nos esqueçamos que a arte não é a vida e sim um retrato desta, intencionado, criado e manipulado por mãos humanas.

Portanto, é capaz de organizar a experiência humana dentro de um recorte muito mais explicativo e racional, mesmo que esse recorte contenha elementos de ordem sobrenatural. Basta ler os romances de George BernanosGraham Greene, ver alguns filmes de Robert Bresson Andrei Tarkovsky, ou até assistir a Lost, a série anterior de Lindelof, para descobrir que é possível contar histórias metafísicas sem que elas sejam insuficientemente explicadas. Toda criação artística que ande na contramão disso pretende esconder incompletude sob o véu enganoso da ambiguidade interpretativa.

Em “The Book Of Nora“, é inegável que o luto e a perda, temas que estão no coração de The Leftovers desde a primeira temporada, foram finalizados com destreza. O monólogo final de Nora (Carrie Coon) é uma hábil e bonita síntese das derrotas e vitórias que caracterizaram a jornada da personagem. O mesmo pode ser dito sobre as suas conversas com Kevin (Justin Theroux). Excetuando-se a bobeira de ter feito com que este inventasse uma amnésia, as inteirações entre os dois deixou claro para o espectador as intensas emoções existentes nessa relação. Esses destaques, assim como o simbolismo dos colares e das pombas retornando à casa, são méritos irrefutáveis deste último episódio.

Porém, colocando na balança tudo aquilo que não foi desenvolvido ou sequer mencionado, o resultado é demasiadamente irregular. Por exemplo: em certo momento, descobrimos que Laurie (Amy Brennemen) não se suicidou e está vivendo felizmente como avó. Vendo isso, não há como não achar que o episódio “Certified” foi um completo desperdício de tempo e energia. Em relação aos de mais personagens, as dúvidas permanecem. Será que Matt (Christopher Eccleston) simplesmente abandonou a fé de toda uma vida depois de encontrar um fanfarrão que afirmava ser Deus? Como Kevin Garvey Sr. (Scott Glenn) continuou lidando com as vozes que ouvia na sua cabeça? Isso sem falar dos outros personagens, que foram abandonados por Lindelof desde o começo da temporada final. 

Mas se engana quem acha que a lista de questionamentos pára por aí… O que aconteceu com o livro que estava sendo escrito sobre Kevin? Este último era, de fato, uma espécie de Jesus Cristo reencarnado? O que eram as realidades paralelas? Por que somente Kevin conseguia transitar entre os dois mundos? O que fazia dele um ser especial? O dilúvio iria mesmo acontecer no sétimo aniversário da Partida Repentina? Se a resposta é positiva, Kevin conseguiu impedi-lo? Por que algumas pessoas foram levadas de nosso Mundo para essa realidade alternativa? Miracle era mesmo uma cidade abençoada? Como é que Patti (Ann Dowd) continuava viva depois de ter sido morta por Kevin dentro da própria realidade alternativa? E quem era o irmão gêmeo de Kevin?

Essas são apenas algumas das perguntas que ficaram sem respostas. Numa análise final, a terceira temporada de The Leftovers não foi ruim. Alguns episódios foram muito bons e, na maior parte do tempo, o desenvolvimento dos personagens foi competente (apesar de alguns conflitos terem sido repetitivos e exagerados). Mas é difícil negar que a ausência de respostas gerou um resultado insatisfatório. A partir da segunda temporada, quase tudo foi sendo jogado sem um real motivo por trás. Justificar essa lacunosidade como complexidade intelectual é um golpe baixo difícil de ser perdoado. O Damon Lindelof é maior do que isso.

The Leftovers – 03×08: The Book Of Nora (Idem, 2017, EUA e Austrália)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Direção: Mimi Leder
Roteiro:
Damon Lindelof e Tom Perrotta, a partir de uma história concebida por Tom Spezialy

Elenco: Justin Theroux, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Amy Brenneman, Katja Herbers, Alison Bell
Gênero: Drama
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios

 

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