Em 1990, ano em que Twin Peaks estreou nos Estados Unidos, o público norte americano não estava acostumado a ver na televisão programas similares ao criado por David Lynch e Mark Frost. Coisas como o Black Lodge e personagens no estilo de Dale Cooper (Kyle Maclachlan) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) eram inéditos para um espectador familiarizado com séries criminais e de comédia. Isso acabou por fazer com que a produção revolucionasse a linguagem televisiva, mostrando para os presidentes de emissoras que a tela pequena também tinha espaço para abrigar o universo criativo de artistas ousados e experimentais.

Logicamente, alguns anos depois disso, começou a aparecer um número cada vez maior de séries capazes de competir lado a lado com aquilo que de melhor existia no Cinema da época. Família Soprano, The Wire, Breaking Bad e Mad Men são programas que não devem quase nada às melhores obras cinematográficas do século XXI. Enfim, as convenções televisivas aceitavam a irredutibilidade do tempo, e as estruturas constituídas de episódios que se encerravam em si mesmos, com tramas que tinham começo, meio e fim, iam para o segundo plano, e, no lugar delas, histórias longas, que se estendiam durante anos, tomavam a dianteira.

No entanto, atualmente, quando a impressão era a de que a Segunda Era de Ouro da televisão continuaria a produzir filhotes da mesma espécie, isto é, séries que repetem o caráter novelístico dos títulos mencionados no parágrafo acima, David Lynch e Mark Frost retornam com a sua cria e plantam, mais uma vez, a semente de uma nova e pequena revolução. Pois, quando falamos de Família Soprano, The Wire, Breaking Bad, Mad Men, embora saibamos que a história e os arcos dramáticos dos personagens se encerrarão somente no final da última temporada, ainda assim, cada episódio possui uma estrutura dividida em três atos, na qual um tema ou diferentes temas são discutidos. Até mesmo antologias, como True Detective adotam, em grande parte, esse tipo de estrutura. Já em relação a Twin Peaks, as coisas são bem diferentes.

Como esta quinta parte da nova temporada deixa claro, os 18 episódios que compõem o retorno da série só estão divididos dessa maneira por uma necessidade de mercado. Não há nada que indique que os capítulos funcionem como peças individuais. Na verdade, o que estamos acompanhando é um filme de 18 horas, cuja separação – constituída de partes que são exibidas semanalmente – foi feita tendo-se em mente as exigências de uma emissora como a Showtime. Em um um mundo ideal, o público acompanharia todos os episódios deste intenso comeback em um única sessão.

Afinal de contas, é evidente que os cinco episódios iniciais da nova temporada são o primeiro ato de uma história que, em razão de sua natureza introdutória, apresentou ao público somente as peças do seu tabuleiro. O jogo está apenas começando, e esta quinta parte é uma prova definitiva disso: ao mesmo tempo que nada aconteceu, tudo aconteceu. Como um todo, a trama não avançou, mas novos personagens surgiram e mais informações nos foram dadas sobre a vida profissional e o caráter de Dougie (também interpretado por Kyle Maclachlan). Claramente, como em todas as histórias longas, a quinta parte foi um momento de transição necessário, no qual os avanços (quando acontecem), são tímidos e existem apenas para colocar engrenagens mais amplas em movimentação.

Sendo assim, analisado individualmente, o quinto episódio não sustenta nenhum tipo de crítica inteiramente positiva. Porém, julgá-lo sob essa ótica seria injusto com a intenção da nova temporada. Neste retorno, David Lynch e Mark Frost abandonaram a concepção de cada capítulo justificar a sua existência como uma entidade individual e entenderam que as próprias necessidades televisivas podem ser usadas para originar a sua própria subversão. De fato, Twin Peaks não voltou para ser mais uma entre tantas. Depois de ter clareado os caminhos da glória para as séries que foram lançadas posteriormente, ela retorna para mostrar que ainda há muito a ser desbravado.

Twin Peaks – 3ª Temporada: Parte 5 (EUA, 2017)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Russ Tamblyn, Mädchem Amick, Naomi Watts, Harry Goaz, Michael Horse, Jim Belushi, Amanda Seyfried, Robert Foster, David Patrick Kelly, Peggy Lipton, Wendy Robbie, Tom Sizemore
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos cada episódio

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada

 

 

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