Twin Peaks não está de volta. A série que foi ao ar na década de 1990 e ocasionou uma pequena revolução na televisão norte americana não retornou. É verdade que, nesta temporada que acabou de estrear, a maioria dos atores e membros da equipe técnica são os mesmos, David Lynch e Mark Frost, os criadores, voltaram aos seus postos, e a história se desenrola 25 anos depois dos eventos ocorridos no último episódio da segunda temporada, mas as semelhanças terminam por aí. No que diz respeito à linguagem, atmosfera e tom, tudo mudou. Na cidadezinha que dá nome à série, as coisas nunca mais serão as mesmas.

Saíram o humor recorrente, as cenas breves e informativas, a narrativa estilo soap opera e a sensação de vizinhança e, no lugar, foram colocados o suspense constante e amedrontador, cenas longas que se desenrolam por vários minutos, uma narrativa experimental que flerta com diferentes tipos de linguagem artística e uma história que se estende a centros urbanos, como Nova York, Las Vegas e Dakota do Sul. A nostalgia, um elemento raro nestes dois primeiros episódios, fica por conta somente do prazer de ver as paisagens, os estabelecimentos e, principalmente, os rostos que foram vistos há muito tempo. Mas, ainda assim, no caso destes últimos, o efeito do tempo não deixa de originar também um sentimento de estranheza.

Levando-se em conta o fato de que em 1990 a televisão era muito diferente do que é nos dias de hoje, e, nesse meio tempo, aconteceu uma segunda era de ouro que trouxe qualidade cinematográfica às séries televisivas, faz sentido que o revival de Twin Peaks não tenha investido na maior parte dos elementos que deram certo nas duas primeiras temporadas. Manter a essência do programa e trazê-lo para a atualidade era a intenção. Para a felicidade de todos, David Lynch e Mark Frost foram extremamente bem sucedidos na empreitada.

A solução encontrada pela dupla de criadores foi, aparentemente, deixar que Lynch trabalhasse nos novos episódios com todas as experimentações que fizeram do seu nome um dos mais celebrados dos últimos anos. Portanto, desde as sobreposições visuais vistas em Six Men Getting Sick, o seu curta metragem de estreia, até as inovações com a câmera digital, principal característica de Império dos Sonhos, o seu último longa, passando pela narrativa enigmática e enervante de filmes como Cidade dos Sonhos A Estrada Perdida, Lynch está plenamente à vontade no novo universo de Twin Peaks.

Acumulando também a função de co roteirista, designer de som, compositor (por enquanto, os temas de Angelo Badalamenti estão aparecendo timidamente) e montador, o diretor tomou às rédeas da sua cria e propôs ao espectador uma imersão ainda mais profunda na mitologia da série. As cortinas vermelhas do Black Lodge que aparecem na nova abertura não deixam dúvidas: a partir do primeiro minuto, mergulharemos nas estranhezas e peculiaridades de uma das mentes artísticas mais singulares que surgiram nas últimas décadas.

É impressionante a capacidade que Lynch tem de criar mundos próprios de uma maneira verossímil. Nas mãos de um sujeito menos talentoso, tudo pareceria um pastiche risível. Sob a batuta do experiente cineasta, as coisas passam a serem críveis e pulsantes. E chama atenção como ele parece estar ainda mais seguro das suas escolhas. A confiança do diretor por detrás de cada instante chega a ser palpável. A forma como ele cria um suspense inquietante nas cenas que se passam em Nova York (percebem como a apreensão é gerada pelo simples fato de que sabemos que algo irá acontecer no exato momento em que os dois jovens se beijam e não prestam atenção na caixa) e as andanças pelo Black Lodge, com espaço para inúmeros flertes com efeitos digitais, são exemplos perfeitos de um cineasta que atingiu os 70 anos de idade ainda no auge da carreira.

Aliás, nos dois primeiros episódios da temporada, até mesmo as intenções do diretor no longa Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer se tornaram mais claras. Quando foi lançado em 1992, o filme foi duramente vaiado por não explicar os principais mistérios do seriado e conter uma atmosfera completamente diferente daquela com a qual o público estava acostumado. Porém, vendo o que foi feito no começo desta terceira temporada, fica evidente que Lynch já estava preparando o terreno para algo que desejava abordar com mais profundidade. Porém, o que era incipiente e irregular no filme se transformou em uma obra majestosa nos dias atuais.

Quem também parece ter progredido com o tempo é Kyle MacLachlan. Como vinho, o ator está ainda melhor. Se, em 1990, ele se valia de sua juventude e beleza para criar uma espécie de Cary Grant lynchiano, agora, com 58 anos de idade, se vale de toda a sua experiência para criar dois personagens distintos. Ao mesmo tempo que é o Dale Cooper que os fãs tanto idolatram, ele também dá vida a um dopplegänger (duplo) malvado cujo olhar diabólico e rigidez no andar são de causar espanto. De fato, se há alguém que nasceu para ser um alter ego de David Lynch, este sujeito é Kyle MacLachlan.

Onírico, assustador, macabro e hipnotizante, Twin Peaks já é, até o momento, a experiência audiovisual mais recompensadora de 2017. Só de pensar que boa parte dos personagens ainda não apareceu (alguns novos rostos já surgiram, como Ashley Judd, Matthew Lillard, Jennifer Jason Leigh, Balthazar Getty e outros), a ansiedade aumenta ainda mais. Com 16 episódios pela frente, a série parece não ter limites. O mundo que foi criado na série dá a impressão de que tudo pode acontecer e das maneiras mais surpreendentes. David Lynch, como você fez falta!

Twin Peaks – 3ª Temporada: Partes 1 e 2 (EUA, 2017)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Matthew Lillard, Grace Zabriskie, Jennifer Jason Leigh, Richard Beymer, Ashley Judd, Russ Tamblyn, James Marshall, Mädchem Amick, Balthazar Getty, Ben Rosenfield, Kimmy Robertson, Harry Goaz, Michael Horse
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos cada episódio

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