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Em 1990, ano em que Twin Peaks estreou nos Estados Unidos, a série criada por Mark Frost David Lynch respeitava algumas das convenções da televisão norte-americana – como, por exemplo, a estrutura de soap-opera -, mas, concomitantemente, subvertia-as através da forte presença de elementos sobrenaturais e de comentários ácidos sobre a moralidade corrupta de uma cidadezinha do interior. Já em 1992, quando Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer chegou aos cinemas, Lynch se despiu da estrutura supracitada – abandonando, portanto, o olhar prescrutador sobre uma parcela da sociedade estadunidense – e empregou a sobrenaturalidade da história como pano de fundo de um doloroso conto sobre a perda da inocência.

Agora, em 2017, sob o nome de Twin Peaks – O Retorno, a série voltou às telas pequenas. No entanto, ela não só ignorou completamente a sua caracterização televisiva anterior como também foi mais ousada que os seriados dos últimos anos, principalmente, no que diz respeito à estrutura, concebida como um filme dividido em 18 partes, sem que a maioria dos episódios tivessem o próprio alicerce argumentativo dentro do escopo geral (embora as apresentações musicais no final flertem com esse tipo de coisa). Além disso, os criadores, livres do tom cronista e já tendo narrado a trajetória de perdição da figura máxima da história, optaram por focar nos tortuosos caminhos percorridos por Dale Cooper (Kyle Maclachlan) e desenvolver a mitologia cósmica da história.

Nesta nova temporada, o arcabouço narrativo estabelecido por Lynch e Frost é evidente: inicialmente, há um movimento de expansão para, posteriormente, existir um de contração (apesar de o episódio final expandir novamente).  Em si, essa escolha pode ser vista como um reflexo dos 27 anos que separam uma temporada de outra. Porém, na concepção ampla, ela é mais uma das consequências periféricas decorrentes do tema principal selecionado pela dupla em sua composição imagética-sinfônica: a luta entre as forças indestrutíveis do Bem e do Mal.

Enquanto Dale está preso no Black Lodge e o Sr. C (Kyle Maclachlan) avança em sua missão, a história se fragmenta por várias locações – sendo Twin Peaks apenas uma delas – e as principais características da série – comumente relacionadas à bondade – aparecem raramente. A partir do momento em que Dougie Jones (Kyle Maclachlan) surge e o Bem começa a progredir lentamente em seus objetivos, todas as subtramas – além da principal, é claro – passam a convergir para o coração geográfico da série. Não é à toa que o único momento dramático acompanhado pela canção de abertura é o despertar de Dale, justamente em um instante no qual Twin Peaks e o protagonista prometem se encontrar finalmente (se há uma expansão parcial no último episódio, é porque há um contra-ataque do Mal).

Essa lógica também se aplica à maneira como os coadjuvantes são trabalhados, apesar de seus respectivos tratamentos não apresentarem o mesmo tipo de progressão do exemplo anterior. A maior parte deles não possuem arcos dramáticos nem função narrativa. As suas aparições são sempre breves e, à primeira vista, dão a impressão de terem sido mal incluídas na história. Todavia, essa é uma conclusão rasa. É importante notar como em sua aparente superficialidade, eles refletem a luta que é travada por forças superiores, mas sempre a partir da própria subjetividade e da situações em que se encontram.

Por exemplo: Nadine (Wendy Robie) não sabe se mantém Ed (Everett McGill) preso a um casamento sem romance ou se o liberta para que ele possa viver ao lado de sua grande paixão, Norma (Peggy Lipton); estes últimos, por sua vez, continuam indecisos entre as praticidades sociais e o amor verdadeiro; Benjamin Horne (Richard Beymer) luta contra os próprios impulsos para não se afundar em outra relação infiel com a secretária (Ashley Judd); Shelly (Mädchen Amick) se divide entre a filha (Amanda Seyfried) e mais um dos inúmeros amantes que atrapalham a sua vida, o traficante de drogas vivido por Balthazar Getty etc. Os personagens que não apresentam esse tipo de conflito já foram revindicados, direta ou indiretamente, por um dos lados e se tornaram soldados da guerra cósmica (entre esses, o Bobby de Dana Ashbrook é o que mais destaca, tanto pelo seu desenvolvimento quanto pela positividade que a sua figura emana).

Em um camada acima, essa luta é reverberada no desenrolar do protagonista. Acima dos níveis anteriores, mas abaixo do sobrenatural, Dale, 25 anos após descobrir a existência de um duplo, parte em uma típica jornada do herói atrás do auto-conhecimento pleno (exatamente igual à concebida por Joseph Campbell). Para isso, é necessário que o mundo e os seus instintos mais básicos lhe mostrem a verdade sobre o seu caráter. É nesse momento que entra Dougie Jones e a vida familiar nos subúrbios de Las Vegas. Uma vez redescoberta a essência de sua personalidade (ele sempre foi genuinamente bom), ele precisa destruir o seu dopplegänger – eliminando, assim, toda a maldade latente existente dentro de si – e encarar a sua missão final, que consiste em salvar Laura Palmer (Sheryl Lee) da morte.

Por fim, atingindo o grau mais elevado, espiritual e narrativamente, estão Judy e o Bombeiro (Carel Struycken). Perfeitamente abordados no inesquecível oitavo episódio, são eles que movimentam todas as peças no tabuleiro. Manipulando e influenciando a sucessão de acontecimentos e as ações humanas, os seus objetivos são claros e os personagens, marionetes em suas mãos (sinto que a melancolia dos instantes finais nasce dessa percepção por parte de Dale e Laura). O lema ouvido constantemente ao longo dos episódios (sobre o sonhador viver o sonho) talvez seja uma referência ao poder que essas criaturas têm de criar realidades paralelas e lutar dentro delas.

Assim, conclui-se que, através de camadas, que vão desde a concepção básica do roteiro até o plano em que as criaturas mais espirituais habitam, passando pela realidade concreta dos personagens coadjuvantes e a jornada protagonizada por Dale Cooper e seus duplos, a nova temporada de Twin Peaks foi realizada como um tema musical que alastra o seu poder por todas as ramificações da história. Levando em conta o fato de que entre realidades metafísicas e planos inferiores há sempre uma constante ida de cima para baixo e vice-versa, a escolha de Lynch e Frost está plenamente justificada.

É verdade que nem tudo foi realizado com a intenção de ser encaixado nessa macro-estrutura. As referências que Lynch faz à história do cinema e aos próprios filmes, remetendo ou recriando planos e cenas de obras como Crepúsculos dos DeusesO Mágico de OzEraserheadVeludo AzulSeven – Os Sete Pecados CapitaisEstrada PerdidaCidade dos Sonhos, ou homenageando o humor físico de comediantes do cinema mudo, como Charles ChaplinBuster Keaton e os irmãos Marx, ou potencializando a comédia através da câmera e do tempo cinematográfico, assim como Jacques Tati fazia, são aspectos sempre trabalhados à parte do todo (embora não completamente).

Contudo, como as análises pertinentes sobre a América atual e o brilhante design de som também nos revelam, é evidente que a essência da temporada foi o embate entre a luz e as trevas, e isso é visível na própria estrutura circular, a qual começa mostrando a foto de Laura Palmer e termina exibindo a personagem de costas, o que ilustra a decadência entre o seu surgimento divino e a mortalidade reiteradamente reafirmada por mãos malignas. Porém, não podemos nos esquecer que o rosto de Dale Cooper está à mostra e, apesar de conter uma expressão assustada, a sua face é da bondade. Deste modo, estabelece-se a esperança no universo de Twin Peaks: os dois personagens são peões no gigantesco jogo de xadrez do qual fazem parte e, provavelmente, continuarão sendo até os instantes derradeiros, mas nada disso os impedirá de continuarem lutando. É, o Bem tem essa característica marcante de nunca desistir.

Twin Peaks – 3ª Temporada

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Miguel Ferrer, David Lynch, Laura Dern, Naomi Watts, Jim Belushi, James Marshall, Sheryl Lee, Chrysta Bell, Dana Ashbrook, Michael Horse, Kimmy Robertson, Robert Forster, Harry Goaz, Frank Silva, Don S. Davis, Grace Zabriskie
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos cada episódio

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada

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