A compra da Millarworld deixa claro a mudança no formato da Netflix trabalhar. O maior serviço de streaming de filmes e séries do mundo está expandindo fronteiras, entrando em outras áreas de trabalho. Por sua vez, a empresa de quadrinhos é uma propriedade do quadrinista Mark Millar e já desenvolveu 18 séries originais, sendo que três franquias ganharam o cinema em filmes que geraram quase US$ 1 bilhão de bilheteria global.

» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

A Netflix surgiu há vinte anos como um simples serviço de entrega de DVDs pelo correio, causando uma verdadeira revolução em 2007 ao lançar o serviço de video on demand que tanto conhecemos hoje. Outra grande mudança veio em 2013, com o adição de produtos originais em seu catálogo. Para quem não lembra, tudo começou com a aclamada House of Cards. A partir dessa iniciativa, ela deixou de ser só uma vitrine para filmes e séries online, para tornar-se um novo canal de conteúdo sem a necessidade de assinar uma TV paga.

Entretanto, a Netflix não é realmente dona do que chama de original. Ela distribui conteúdos, mas com contratos de licenciamento. Por exemplo:

  • House of Cards é uma adaptação de uma série da BBC produzida pela Trigger Street Productions, empresa de Kevin Spacey e Dana Brunetti. Inclusive, a série é distribuída pela Sony em mídia física e, em alguns territórios, também não é exclusiva da Netflix. Ou seja, alguns países recebem a série através de canais de televisão tradicionais.
  • Stranger Things é uma criação dos Duffer Brothers. O produtor Shawn Levy viu o potencial do projeto e fechou um pacote de produção com a 21 Laps Entertainment, que vendeu os direitos de distribuição para a Netflix. A empresa financia a produção e banca os custos em troca desse direito.
  • As séries da Marvel também funcionam nesse mesmo modelo, já que a Netflix não tem direitos sobre a propriedade intelectual de personagens com Demolidor, Jessica Jones ou Rei do Crime.

Em fevereiro deste ano, uma declaração oficial da empresa afirmou o interesse em seguir por um novo modelo de negócios:

Estamos apostando em produtos de consumo e em promoção associada, porque acreditamos que isso gerará uma exposição significativa para nossos programas, com formas mais tangíveis de interagir com os nossos conteúdos mais populares. Queremos fazer licenciamentos para ajudar a promover nossos títulos, para que eles se tornem parte cultural por longos períodos de tempo.

Na época, a Netflix fechou uma parceria com a Hot Topic, que gerou produtos como camisetas e canecas baseadas em Stranger ThingsQuem apontava essa nova perspectiva há algum tempo (que deve se expandir para outros títulos), era o site Bloomberg, especializado no mercado financeiro de entretenimento. Ao adquirir a Millarworld, então, a Netflix deixa de ser apenas esse licenciador de conteúdo e passa a possuir propriedades intelectuais, personagens e histórias.

 

A Millarworld

Mark Millar trabalhou durante muitos anos em editoras como a DC Comics e a Marvel, onde produziu HQs como The Authority, Supremos e Guerra Civil. Quando decidiu se dedicar a quadrinhos autorais, criou o selo Millarworld e desenvolveu diversos projetos com artistas convidados. Neste modelo, vieram títulos como Kick-Ass, Supercrooks, Kingsman – Serviço Secreto, Wanted, O Legado de Júpiter, Starlight, Huck, Crononautas e outros.

A diferença entre a Millarworld e empresas como a Marvel ou a DC é que, essas duas, são editoras de quadrinhos. A empresa de Mark Millar não é uma editora, apenas uma gestora de propriedades criativas em HQs que existem por causa das criações do seu dono. Os títulos produzidos por esse selo saem por meio de editoras maiores, como a Marvel, a Image ou a Top Cow. No Brasil, os quadrinhos são publicados pela Panini Comics.

Agora sob a tutela da Netflix, o serviço de streaming pode trabalhar nas adaptações de seus quadrinhos para filmes e seriados. Por sua vez, Millar continua criando e publicando HQs, que devem ser distribuídas com o selo da Netflix.  Essa aquisição também poderia abrir portas para que pudéssemos ter, quem sabe, quadrinhos inspirados em Stranger Things, Marco Polo, Sense8 e nos demais títulos originais. Confira o que dizem as duas partes desta negociação:

Esta é apenas a terceira vez que uma empresa de quadrinhos é comprada neste nível*. Estou apaixonado pelo que a Netflix tem feito, e animado com os planos deles. Netflix é o futuro, e Millarworld não poderia ter um lar melhor. Parece que eu entrei na Liga da Justiça e não posso esperar pra começar a trabalhar com eles – e eu estou ansioso para explicar como eu planejo usar este negócio para nos ajudar a aperfeiçoar a área na qual eu cresci e a qual eu devo tudo. (Mark Millar)

* Mark Millar refere-se à compra da DC Comics pela Time Warner e da Marvel pela Disney.

A aquisição, a primeira deste tipo já feita pela Netflix, é uma progressão natural da empresa em seus esforços para trabalhar diretamente com criadores e adquirir propriedades intelectuais de histórias, com personagens atraentes e entrelaçados mundos ficcionais. (Netflix)

Essa semana também tivemos o anúncio oficial da saída dos títulos da Disney do catálogo da Netflix em 2019. A empresa do Mickey Mouse e suas vertentes, que incluem a Marvel e a Pixar, devem migrar para uma plataforma própria. O mercado está crescendo e a Netflix não quer ser engolida pelo que ela mesma criou, por isso a aposta da vez é o conteúdo exclusivo.

A empresa sabe que, sem isso, todo serviço continua sendo apenas um provedor, seja de internet, televisão ou streaming. Você assina o que está mais barato ou aquele que tem o melhor sinal, e pronto. Está na hora de apostar alto e a aquisição da Millarworld é apenas o começo desta mudança.

Comente!