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Análise | Assassin’s Creed Valhalla – Uma novidade incrível que peca pela duração absurda

É difícil acreditar, mas a franquia Assassin’s Creed já possui mais de dez anos de história. Nascida em 2007, revolucionando todo o gênero stealth, a saga conquistou uma legião de fãs fiéis que acompanharam até agora todas as transformações que o jogo passou nas mãos da Ubisoft. 

Com edições anuais explorando diferentes civilizações e também mitologias, era questão de tempo até que os vikings fossem o alvo da vez e isso finalmente aconteceu agora em 2020. Lançado entre gerações, Assassin’s Creed Valhalla já é histórico e realmente apresenta aprimoramentos necessários na fórmula que foi criticada na iteração passada com Odyssey

Porém, isso não significa que Valhalla está livre dos pecados da pretensão surreal da Ubisoft que parece ouvir sempre seus fãs, menos uma parte importantíssima das críticas. 

Uma jornada de liberdades criativas

A narrativa de Valhalla é seu pilar central. Não há dúvidas disso. Encarnamos Eivor, um ou uma viking do ano 873, no século IX, durante as incursões vikings à Inglaterra. No game, somos o braço direito do líder do Clã dos Corvos, norueguês, liderado pelo irmão de guerra Sigurd. 

Descontente com os rumos da unificação dos clãs sob um só rei norueguês, Sigurd decide migrar com seus aliados para a Inglaterra pretendendo criar um novo assentamento e conquistar alianças para depois, quem sabe, expandir seus territórios. 

Logo, depois de um prólogo de quatro horas para fechar a história de origem de Eivor e o jogador compreender sua personalidade, o verdadeiro game começa e cabe totalmente à nós trabalharmos arduamente para conquistar aliados ao longo de todo o país dividido em quatro reinos: de Mércia, Ânglia Oriental, Wessex e Nortúmbia. 

Por mais que o game ofereça um contexto histórico satisfatório, é curioso como o povo viking é retratado em uma versão muito diluída para não ofender parte alguma. Um exemplo disso é que durante as incursões, missões especiais optativas para obter recursos para expandir seu assentamento, Eivor não pode matar camponeses ou cristãos se não o jogo cancela a incursão automaticamente. Algo bastante bizarro já que o povo viking não é muito lembrado por sua delicadeza em invasões. 

Aliás, por mais que Eivor seja um protagonista interessante e conte com uma das melhores dublagens originais da franquia – o ator Magnus Brunn consegue carregar arcos inteiros do game apenas com seu trabalho excepcional, os traços mais rudez do personagem contrastam diretamente pela suavidade de sua fala, praticamente um poeta. 

Isso, embora não te retire da atmosfera do game, torna as coisas um tanto estranhas. Aliás, mesmo contando com o assentamento para mostrar mais como uma aldeia viking funciona, rapidamente os costumes e hábitos desse povo é deixado de lado para a história prosseguir, aos trancos e barrancos. 

O problema da narrativa de Valhalla não reside por si em sua qualidade. A história é boa, mas não é ótima e isso custa caro. O jogo é planejado em forma fragmentada. Quando chegamos à Inglaterra, temos diversas regiões do mapa para explorar e forjar alianças possíveis no momento, limitadas ao seu nível de poder – em breve chegaremos a essa parte da análise. 

O que se sucede, então, é uma sequência de pequenos episódios que variam entre duas a quatro horas de duração com missões centralizadas em um arco narrativo para selar a aliança e expandir sua influência no país. De primeiro momento, é tudo fantástico. As primeiras horas de Valhalla são excepcionais e realmente achei que a Ubisoft tinha finalmente retornado à boa forma com a saga. 

Já quando estava fazendo a mesma coisa pela oitava vez, algo por volta da metade da campanha que pode durar mais de 60 longas e repetitivas horas, repensei meu entusiasmo. As histórias e personagens coadjuvantes novamente são bons, mas nada muito significativos.

Algumas narrativas se tornam mais cativantes que as outras como as centradas nos filhos de Ragnar Lothbrok, Ivarr e Ubba, ajudando a depor um rei traiçoeiro, enquanto outras simplesmente são totalmente esquecíveis. 

O jogo é tão longo e massivo que, por conta de sua natureza fragmentada e dos personagens coadjuvantes sumirem por pedaços expressivos do game, quando finalmente há os preparativos da batalha final, você mal consegue se lembrar exatamente qual aliado pertence à qual história. 

No meio disso tudo, o Credo dos Assassinos finalmente retorna à saga através de dois personagens importantíssimos que vão definir o futuro da franquia. Através deles, a narrativa principal do jogo se desenrola trazendo mais detalhes da relação de fidelidade extrema entre Eivor e Sigurd até que diversas outras coisas começam a acontecer.

Aliás, pontos positivos pelo retorno das clássicas cenas de assassinato que marcam o diálogo final entre Eivor e o vilão caído da vez. Todas são bastante interessantes e motivam o jogador a procurar todos os integrantes da Ordem dos Anciões.

Como disse, a narrativa de Valhalla é boa, mas está longe de alcançar a qualidade de outrora. Ao menos, desta vez, a história situada no presente consegue resolver todas as pontas e confusões provocadas em Odyssey e Origins, além de apresentar uma nova proposta para a franquia e para o uso de Layla Hassan nos próximos games. Certamente é um futuro promissor, mas que pode se tornar uma confusão gigantesca mais uma vez. 

Já a parte envolvendo Eivor, infelizmente não há nada que justifique a dilatação temporal inacreditável da campanha. É apenas satisfatório, mas a sensação de tempo perdido angustia. Ao menos, dessa vez, suas escolhas realmente importam e podem originar dois desfechos distintos de belezas diferentes. 

Um novo mundo medieval

Desde o começo de Valhalla, o jogador é impressionado pela qualidade visual do game. Usando o motor gráfico AnvilNext 2.0, engine usada há bem mais de cinco games principais, não há dúvidas que aqui está seu ápice mesmo que apresente as limitações tradicionais de um motor antigo. 

A começar, a Noruega e seus alpes nevados com enormes lagos congelados e toda a identidade arquitetônica, além da sempre presente aurora boreal simplesmente são mais que o suficientes para cativar qualquer jogador curioso. O cenário é tão belo que nos motiva a explorar e entender as novidades mecânicas que a Ubisoft apresenta no game que remove boa parte dos problemas que amaldiçoaram Odyssey

Podendo ser acessada a qualquer momento, a Noruega é apenas a ponta do iceberg já que o trabalho de apresentação visual continua incrível na Inglaterra. Em uma época histórica tão pouco representada no audiovisual como o século IX, com certeza o game se torna referência. 

Aqui é possível ver as fundações de uma antiga Inglaterra decadente de monumentos romanos abandonados após a queda do Império Romano como a ascensão da arquitetura tradicional inglesa entre os diferentes reinos, afinal cada região tem sua própria cultura e costumes.

Com a civilização ainda tão tímida, grandes centros são raros e a vida selvagem permeia o mapa que esconde pântanos, planícies cinzentas e vales floridos para a exploração que continua necessária para adquirir recursos (esses se tornam muito importantes no final do jogo quando é preciso aprimorar seu equipamento). 

Em cada região, inúmeras atividades livres e programadas estão disponíveis ao jogador. Os segredos do mundo, como são chamadas as quests secundárias totalmente optativas que nunca vão travar o seu progresso para avançar na campanha, são interessantes e na maioria das vezes valem a pena conferir. 

Historinhas curtas com drama, romance e piadas dão vida à população inglesa trazendo histórias interessantes. Algumas são bonitas como a da menina que aguarda o retorno do pai que prometeu voltar da guerra antes de uma última folha do carvalho cair no outono. Outras são totalmente infantis como a que precisamos auxiliar uma senhora a soltar o peido mais fedido da vila. 

Então nota-se que é uma caixa de surpresas. Felizmente, a maioria diverte, mas revela o caráter desconjuntado de Valhalla evidenciado pela campanha segmentada com diversas nuances de qualidade. Felizmente também esses pontos de interesse agora são muito menos invasivos, convidando o jogador a explorar mais o terreno. 

De resto, há tesouros e artefatos espalhados no mapa. O loot, por exemplo, é um ponto polêmico de Valhalla. Como em Odyssey o jogador tinha uma vastidão exageradíssima de equipamento, a Ubisoft decidiu cortar em MUITA quantidade esse conteúdo chegando até mesmo a ser um tanto prejudicial. Foi literalmente de ir para um extremo ao outro. 

É uma tarefa inglória conquistar um jogo completo de armadura já que as peças podem estar espalhadas em diversas regiões fora que um jogo novo nunca será tão bom quanto outra peça de equipamento já aprimorado.

Aliás, elevar seus equipamentos de nível também é uma tarefa dificultada pela raridade dos itens necessários no mapa. É preciso separar uma boa parte do seu tempo para adquirir os ingredientes certos. 

Um dos maiores destaques do game é o tão falado assentamento que permite aprimorar sua vila recém inaugurada na Inglaterra. Ao longo do jogo, conforme a reputação do lugar cresce, novos edifícios ficam disponíveis para a compra que é feita através de matérias-primas e recursos adquiridos nas incursões. 

Esses modos de jogo divertem e são o que tornam Valhalla bastante único. Chegar com seu dracar totalmente sem aviso e soar a corneta enquanto seus companheiros começam a tocar o terror nos monastérios é bastante divertido.

Logo, como uma coisa alimenta a outra, há um vínculo saudável que motiva o jogador a progredir e aprimorar o assentamento, além disso liberar missões secundárias para conhecer seus compatriotas exilados. 

Nas cidades e vilarejos, temos os tradicionais mercados, um joguinho de dados muito bem feito e curioso que peca pela duração exagerada de cada partida e também alguns NPCs dispostos a duelar nos repentes que ficaram conhecidos como “batalhas de rap vikings” sendo que na verdade é algo um pouco diferente. 

O repente é um duelo de palavras floreadas repletos de rimas inteligentes que aprimoram Eivor e seu carisma no jogo. Vale a pena duelar sempre que possível, pois esse talento libera novas opções de diálogo muito úteis. 

Mecânicas reformadas com um grande porém

O que é se sentir como um viking no século IX? Provavelmente ninguém sabe dizer isso e eu honestamente não faço a menor ideia se Valhalla consegue replicar esse sentimento abstrato, mas com certeza há a tentativa. 

O sistema de combate de Assassin’s Creed passou por uma reformulação completa desde Origins e aqui atinge um novo capítulo. Agora deixando as habilidades mais restritas, assim como a esquiva através de poucas barras de adrenalina e stamina, pode-se acreditar que Valhalla é desafiador, mas isso é coisa de primeiro momento. 

O game na verdade se trata de um dos mais fáceis da franquia até então o que é bastante curioso. Como o jogo visa retratar Eivor como um guerreiro quase mitológico, o cenário é rapidamente tomado por inimigos que revelam a natureza mais hack n’ slash do título. 

Os combates com machados, martelos, lanças, porretes, espadas gigantes, entre diversas outras armas de uma ou duas mãos, são relativamente rápidos e potentes, até mesmo bastante violentos. É bastante divertido jogar com Eivor enquanto arruinamos vinte NPCs inimigos em questão de poucos minutos, além de observar finalizações realmente brutais. 

Porém, como o game realmente te torna bastante poderoso, é preciso estar em um nível de poder muito abaixo do recomendado para que qualquer inimigo se torne um desafio e te force a pensar em uma estratégia. O nosso cérebro é bastante esperto então obviamente procurará sempre a saída mais facilitada possível que no caso é ficar apertando os botões de ataque igual um animal treinado. 

O stealth finalmente agora retorna de verdade no jogo permitindo até mesmo que os alvos sejam assassinados do modo clássico que coroou o gameplay da saga. Porém, para que ser furtivo e gastar milhares de minutos na sutileza quando é 10x mais fácil simplesmente chegar em qualquer acampamento, castelo ou vila inimiga através da porrada bruta? Logo, ele fica completamente de lado, apesar da opção ser bem-vinda deixando esse game tão diferente com uma cara mais tradicional de Assassin’s Creed

Através do mapa e da exploração, o jogador encontrará livros que presenteiam com habilidades tanto para combate próximo quanto para à distância. No total, podemos equipar oito habilidades que gastam as barras de adrenalina. Fora isso, o sistema de nível de poder dessa vez funciona para comprarmos atributos. A cada novo nível conquistado, ganhamos dois pontos de atributos. 

A árvore de atributos é enorme se dividindo em três vertentes: combate físico, stealth e combate à distância. Em cada “constelação”, geralmente há um atributo de maior utilidade como desacelerar o tempo em uma esquiva perfeita ou diminuir o dano de queda, mas infelizmente esses novos jogos de atributos ficam escondidos até você conquistar um atributo próximo. 

Além disso, trata-se de um sistema de elevação de níveis a la “formiguinha”. Subir de nível em Valhalla não se traduz em se tornar mais poderoso imediatamente. Cada atributo melhora algumas características do personagem como força e vitalidade através de pontos minúsculos. Logo, vai demorar horas até você realmente sentir a diferença das horas investidas no game durante o gameplay. 

Então, se o sistema é interessante e funcional, o que há de tão errado? Bom, apesar de algumas características mecânicas quebrarem a funcionalidade de certas abordagens como o stealth, o jogo só perde pontos por conta de sua duração absurda. 

É divertido fazer incursões, arrebentar meio mundo em uma invasão à um castelo protegido ou entrar em brigas tradicionais contra vinte inimigos ao mesmo tempo. É divertido por algumas horas assim como todo jogo. O que torna tudo enjoativo, cansativo e repetitivo é justamente essa dilatação intensa da campanha. 

Em uma projeção otimista, você terá que investir 50 horas para encerrar a história principal e isso não significa que você terá conquistado os finais verdadeiros que também requerem a completa destruição da Ordem dos Antigos e conquistar mais um mapa inteiro de nível de poder recomendado em 320. É simplesmente insano. 

Não tenho nada contra jogos grandes, mas às vezes menos é mais. Assim como The Last of Us Part 2 foi criticado por seu tempo excessivo, o mesmo se aplica a Valhalla. Este seria um jogo perfeito e redondo, satisfatório e divertido na marca das 30 horas de duração para encerrar a campanha e as linhas secundárias importantes, mas não é o que acontece. 

Como sempre se trata dos mesmos objetivos sem apresentação alguma de evolução de mecânica ou um evento narrativo de alto impacto como acontece em Red Dead Redemption 2, ou com qualidade narrativa excepcional como a de The Witcher 3, você simplesmente fica sem motivação para continuar. Logo, o que era um prazer, vira um esforço e isso é simplesmente imperdoável. 

O mesmo acontece na dinâmica do parkour e das criptas que finalmente retornaram. As fases são mais elaboradas, mas a movimentação de Eivor é tão repetitiva e sem fluidez que esses pontos ficam contrastantes. Principalmente quando se trata de uma caverna com armadilhas para adquirir algum bom equipamento em um baú. Quando finalmente o desafio é superado, descobre-se que precisa de uma chave para abrir o bendito cofre e ela sempre está convenientemente distante. 

Aliás, localizar chaves se torna praticamente o único ofício da ave, um corvo, que nos acompanha na jornada. Em Origins e Odyssey, a águia certamente era mais funcional e ajudava a economizar um bom tempo para localizar alguns pontos de interesse no mapa. 

Eterno jogo de perdas e ganhos

É difícil compreender exatamente o que acontece dentro dos estúdios da Ubisoft. Já fazem mais de quatro anos que os produtores se esforçam em ouvir a comunidade e solucionar os problemas que criam, mas ao mesmo tempo que algumas coisas são resolvidas, outros desafios totalmente novos aparecem no caminho. É bizarro. 

Aqui, a calibragem do combate, do visual mais arrojado, apresentação de cutscenes muito mais aprimorada, da ausência da obrigatoriedade de quests secundárias genéricas para avançar na campanha, animações faciais e dublagem vastamente superiores a outros títulos da franquia são pontos muito positivos. 

Entretanto, enquanto se acerta nisso, a repetitividade de objetivos, a falta significativa de equipamentos, o controle de qualidade deficitário que deixa escapar uma montanha de bugs visuais e sonoros e a duração prolongada além do necessário prejudicando ativamente a narrativa com arcos totalmente inúteis retornam a se tornar verdadeiras pragas no game.

Esse problema em jogos de mundo aberto está mais presente do que nunca e em particular, a Ubisoft por investir em tantos jogos nesse formato, acaba como um dos estúdios mais prejudicados por essa característica. Ainda assim, é impressionante o empenho dos produtores e desenvolvedores em conseguirem finalizar um jogo dessa magnitude em pouco mais de dois anos. Isso chega a ser quase que surreal. 

Assassin’s Creed Valhalla é um game que mostra o empenho da Ubisoft em tentar realizar o melhor possível, mas ao mesmo tempo também revela uma enorme teimosia. Valhalla é o fim adequado da trilogia iniciada em Origins e deixa um novo caminho para a saga se reinventar na próxima iteração que com certeza virá muito em breve. 

Agradecemos profundamente à Ubisoft pela cópia gentilmente cedida para a realização da análise.

Assassin’s Creed Valhalla (Idem, 2020)

Desenvolvedora: Ubisoft
Gênero: RPG em 3ª pessoa
Plataformas: PC, Stadia, Xbox One, Xbox Series X|S, PS4, PS5

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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