Há poucas histórias que realmente conseguem atravessar os séculos e consagrarem-se como atemporais. Dentro do imaginário contemporânea, diversas franquias fantasiosas e místicas emergiram como novas vertentes da cultura pop, citando principalmente Os Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, e Harry Potter, de J.K. Rowling.

É um fato dizer que essas narrativas épicas, como assim foram categorizadas, não são em sua completude obras originais. Todas derivam de outros contos sobrenaturais que povoaram a oralidade de povos da Idade Média – e, utilizando como principal exemplo, podemos falar sobre a novela A Lenda do Rei Arthur, escrito apenas em meados do século XV.

Antes de mais nada, é necessário entendermos que a compilação de aventuras vividas pelo lendário Rei bretão originou-se a partir da junção cultural entre os celtas – povo natural das ilhas inglesas – e os invasores romanos e germânicos através dos anos. Todo o universo ficcional, perscrutado por elementos mágicos como criaturas indestrutíveis, feiticeiros, lutas entre o bem e o mal, entre outros, não partem apenas da religiosidade politeísta dos primeiros povos britânicos, mas também têm suas vertentes espalhadas para toda a idealização católica que se inicia do Império Romano e ramifica-se para a continente europeu.

Em outras palavras, a estruturação de tais histórias não tem um começo datado e marcado na história, provindo de “lendas urbanas”, por assim dizer, que pulularam de geração em geração e acabaram misturando fantasia à realidade de forma extremamente concisa. E para construir o romance Le Morte D’Arthur, principal referência para os feitos e os objetivos conquistados pelo suposto Rei, o ex-soldado Thomas Malory realizou uma extensa pesquisa, com a intenção de consolidar a lenda e atribuir-lhe uma versão impressa definitiva. Para tanto, consultou referências orais de sua época e também referências escritas em séculos anteriores – incluindo poemas, livros e história, manuscritos e narrativas diversas que o inspiraram a compor o Arthur que conhecemos. E diferentemente de epopeias predecessoras – como Beowulf -, tal aglutinação enciclopédica foi redigida em prosa, para aproximar o público da história e se afastar das complexas metáforas poéticas.

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Malory também se valeu das próprias experiências como cavaleiro para relatar as aventuras do Rei Arthur; afinal, o novelista participou da Guerra dos Cem Anos e, depois de ser mandado para a prisão por traição à Coroa, resolveu materializar e endossar a existência de um soberano que fosse construído com as melhores características dos britânicos e que resgatasse o sentimento patriota que acompanhara a sociedade da época – principalmente com a idealização do “cavaleiro herói” – ou seja, uma figura completamente romântica e onírica cujos objetivos visavam à transcendência espiritual e à salvação de seu povo, além de ser descrito com altruísta, humilde, devoto e passivo de aceitação de seu Destino.

É possível dizer que, com o personagem em questão, os ingleses se apaixonaram por toda a atmosfera de fantasia, pompa e tradição que envolve a monarquia – e tal paixão se estende até os dias de hoje. Grande parte dos britânicos (galeses, ingleses, escoceses e irlandeses) amam a monarquia e tudo o que ela representa, por isso eles a conservam. O sistema de administração pública do Reino Unido é uma ode a monarquia, se pensarmos no alto custo para mantê-la. Atualmente o primeiro ministro e os parlamentares é que resolvem as questões administrativas mais importantes. O monarca inglês apenas “reina”. Arthur, então, é a referência inglesa para manter a monarquia. É a esperança de dias melhores, é a boa e eterna lembrança dos dias de glória, bravura e heroísmo dos monarcas.

Especialmente durante a idade média a figura do monarca era confundida com a de um deus, especialmente por conta da destinação familiar em se tornar um monarca. “Reis nascem reis”, repetiam vários monarcas ingleses – e assim acontecia. O rei então era um ser acima dos demais e com Arthur, o aspecto sobrenatural foi humanizado; ele foi um rei-herói, e seu legado permitiu que o povo inglês sempre se inspirasse em figuras palpáveis para buscar o símbolo máximo que precisavam para acreditar na sociedade em que viviam.

A TÁVOLA REDONDA

A famosa Távola Redonda é na verdade uma simples mesa circular, primeiramente citada após o casamento de Arthur e Guinevere, seu amor verdadeiro. Conta a lenda que, quando o Rei fixou sua residência em Camelot, esperou sua mulher chegar acompanhada por cem cavaleiros da Irmandade – ou seja, dispostos a lutar por suas crenças e seus valores nas mais temíveis aventuras possíveis – que trouxeram o objeto para o palácio.

É necessário dizer que a história narrada por Malory – e até as mais recentes como de T.H. White (O Único e Eterno Rei) ou Marion Bradley Zimmer (As Brumas de Avalon) – são essencialmente baseadas na verborragia e recontam de forma épica os perigos enfrentados por cada um de seus soldados mais famosos – e aqui podemos citar uma figura muito conhecida por todos, Lancelot. Dessa forma, se pensarmos numa cronologia fixa, toda a história se passa na Távola. À medida que Arthur, o herdeiro legítimo do trono, proferia o que se sucedeu com seus fiéis escudeiros, nomes bordados em dourado apareciam nos respaldes das cadeiras, deixando apenas duas vazias, como já havia sido profetizado por Merlin, o Feiticeiro.

Tal conto ainda povoa o imaginário do povo britânico e se espalhou pelo mundo com o passar do tempo. Sua simbologia medieval ainda inspira diversas pessoas a criarem valores e uma cultura própria – além de ser alvo de estudos de teóricos do comportamento humano, teólogos, antropólogos, entre outros. Afinal, o próprio arquétipo da mesa está diretamente ligado ao mundo e ao autocontrole humano: sua forma circular conversa com a horizontalidade de diferentes povos e refuta a ideia de soberania, ainda que coloque em pauta até conceitos de democracia que ressurgiriam apenas séculos depois.

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“Nunca cometer ultraje ou assassinato: fugir sempre das traições; não ser de forma alguma cruel, mas conceder clemência àquele que a solicite; estar sempre ao lado de seu rei […]”, tais palavras, cravadas na mesa que se encontra em exposição na Abadia de Westminster, foram, conforme a lenda diz, proferidas durante um dos episódios da Távola, e são ditas e interpretadas com afinco até hoje pelos monarcas britânicos. Há aqueles que defendem a existência de um Rei Arthur, assim como há outros que refutam a veracidade dos contos; de qualquer modo, seu legado ainda é estudado e seguido por muitos – além de ter sido base para a emergência e a reafirmação religiosa do Wiccanismo, por exemplo.

As escolas artísticas medievais e do próprio Renascimento também retrataram as conquistas de Arthur e seu séquito, sempre se valendo de metáforas visuais – como, por exemplo, a retratação constante da natureza invadindo as construções de Camelot. De acordo com o Dicionário de Símbolos, os bosques não apenas simbolizavam um mundo não civilizado, mas também representavam um estado mental, um lugar que se procuraria alcançar; eles faziam parte “Outro Mundo”, uma vasta extensão inexplorada situada nas fronteiras entre o mundo terrestre e os domínios espirituais comandados por seres sobrenaturais como as fadas e as ninfas. Em outras palavras, o misticismo provindo com a representação da natureza e seus mistérios poderia ser encarado tanto como um convite para a vida eterna – encontrada apenas por aqueles mais resolutos – quanto como uma tentação irresistível que os guiaria para o “mal caminho”.

O mistério e o maravilhamento que envolvem as narrativas arturianas ainda são examinados, estudados e procurados até hoje. Ainda que tenha atingido o foro de lenda e mito na contemporaneidade, suas raízes podem estar atreladas à realidade. De acordo com a Historical Miscellanny (compêndio de acontecimentos históricos não organizados) do Museu Britânico, os Anais da Páscoa – tabelas existentes nas antigas abadias celtas – trazem notas e referências a uma possível batalha que ocorreu durante os séculos V e VI depois da Era Comum na província de Badon, na qual o próprio Arthur carregou a cruz de Cristo e os bretões chegaram ao patamar de vitoriosos com a ajuda divina. Além disso, há indícios que remontam a épica disputa entre Arthur e Mordred – seu sobrinho usurpador do trono.

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OS PERSONAGENS DE ‘REI ARTHUR’

Falar ou escrever com propriedade e fidedignidade sobre este assunto não é uma tarefa simples. Afinal, como supracitado, não existe nada historicamente confiável ou provado. Aliás, Arthur é um herói que nem consta nas linhas do tempo da história como a conhecemos – a própria ortodoxia da cronologia e desta linha de estudos nega sua participação como um Rei bretão que realmente tenha sido memorável.

Para suprir essa necessidade, novelistas e cronistas – retomando a prática dos aedos da sociedade greco-romana – visitavam os burgos (pequenas acomodações camponesas que resultaram em vilarejos modernos) para recontar essas histórias de superação, aventura e amor. E, para tanto, não poderiam deixar o Rei sozinho; diversos personagens foram criados, suprimidos, readaptados e expandidos.

Vamos então volta um pouco no tempo para apresentar personagens de suma importância e que interferiram com força na vida e nas conquistas do nosso protagonista: é importante entender que Arthur é fruto de um adultério. Acontece que, muitos anos antes da história que conhecemos, Camelot era governada pelo Duque de Gorlois e por sua esposa, Igraine. De um casamento arranjado pelas duas famílias, vieram duas irmãs – Morgause e Morgana (cujo arco narrativo desprende-se em uma viagem épica através de vingança e feitiçaria).

Em As Brumas de Avalon, as relações femininas são exploradas com muito mais profundidade que em outras adaptações ou releituras. Nesta obra, descobrimos que Morgana foi a escolhida por Viviane, a Senhora do Lago, a viajar para a longínqua terra de Avalon, afim de estudar as práticas mágicas e seguir os mesmos passos que suas ancestrais. Enquanto isso, Morgause acabou se casando aos catorze anos e se mudou para longe, deixando o Reino à mercê de um velho Duque e sua esposa.

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E é aí que as coisas ficam um pouco mais complicadas: Merlin, o Feiticeiro, aparece em cena para ajudar uma outra personalidade – Uther Pendragon. Utilizando seus domínios sobrenaturais, ele auxilia o jovem camponês a se disfarçar com as feições de Gorlois para adentrar os aposentos de Igraine e possui-la. Logo depois, em uma batalha ferrenha, consegue matar o antigo rei e torna-se governante supremo da Bretanha.

Arthur, ainda bebê, é mandado para longe, para encobrir possíveis obstáculos que Reinos vizinhos viriam a ter se descobrissem sua origem, e o novo casal passa a esperar por um novo filho à medida em que são forçados a abrir mão de seu poder. Através mais uma vez de Merlin, que antevê a subida do rapaz ao trono e também a sua própria ruína, ele consegue enfrentar todos os obstáculos dentro de seu Destino e retirar a famosa espada Excalibur da pedra, ascendendo à glória e ao respeito de todos.

Podemos dizer que a vida de Arthur é bem mais complexa e trágica do que parece. Afinal, após encontrar sua ressurreição e encontrar uma paz terrena, ele se relembra das palavras ditas por seu Conselheiro e aguarda pacientemente o momento em que sua nêmese chegará – e ela vem encarnada por Lancelot, um dos cavaleiros da Ordem dos Templários que se torna braço-direito do Rei.

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Se havia uma coisa que a Igreja e as instituições inglesas da época não conseguiam suportar ou dar credibilidade era para os escândalos. E foi justamente isso que perscrutou a vida de Arthur em seus últimos anos como monarca: após casar-se com Guinevere, uma jovem moça que conheceu em sua jornada e que foi responsável pelo transporte da Távola Redonda para Camelot. Mas o que ele não prenunciou foi a traição de sua mulher com o soldado em questão, os quais se envolveram em um caso responsável por uma das reviravoltas mais incríveis de toda a mitologia aqui analisada.

Lancelot é então condenado à morte por seus atos de contestação à família real e, numa decisão quase insana, Arthur parte numa busca pelo Santo Graal, como forma de restaurar o equilíbrio entre seu povo – e entre sua família fragmentada. Entretanto, com o enfraquecimento do Reino e seu abandono por parte de coroas agregadas, uma nova figura mais temível que todas as outras emerge como o usurpador do trono: Mordred.

Antes de conseguir chegar ao governo supremo de Camelot, Arthur foi enviado a Avalon para conhecer mais sobre seu Destino – e assim se envolveu em um ritual de iniciação extremamente bem explicado em As Brumas que teve como palco o jovem rapaz, ainda buscando uma identidade e o livramento de seus pesares, e… Morgana, sua meia-irmã. Durante uma dança espiritual, os dois mergulharam na prática do incesto sem ao mesmo saber disso – e desta troca, surgiu Mordred (um homem movido pelo desejo de vingança).

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E durante sua saída pelo Cálice Sagrado, ele o despôs e tomou controle de tudo e de todos, apenas para criar uma atmosfera propícia para um dos conflitos mais conhecidos – e relidos de diversos modos – da história inglesa: a lendária batalha de Salisbury. Travada entre Mordred e Arthur, a guerra dá um desfecho ao ciclo arturiano das novelas de cavalaria, terminando com a morte do usurpador e com a transcendência espiritual do Rei de Camelot, o qual, após ser gravemente ferido, é levado pelas Feiticeiras e pelas ninfas à mística ilha de Avalon, onde reside até hoje esperando o momento certo de retornar para o povo inglês, conforme ainda contam algumas lendas.

A DEMANDA DO SANTO GRAAL

É um fato dizer que a lenda envolvendo a Távola Redonda é essencialmente religiosa e sempre visa explicar através do enfrentamento de obstáculos espirituais, psicológicos e até sobrenaturais a própria fé – ou seja, algo imaterial que não possui uma explicação pautada em relatos científicos. A partir daí, é possível resgatar o conceito de novela de cavalaria proposta pelos inúmeros estudos dos séculos XV e XVI.

Novelas de cavalaria são longas narrativas anônimas – normalmente em forma de romances – que contam as aventuras de heróis da Idade Média que lutam em nome de sua fé e da supremacia da Igreja Católica pelo mundo. Aqui, o hibridismo entre a construção imagética do povo celta deixa de existir em grande número para ser readaptado às bases do cristianismo e endossar o monoteísmo na Europa medieval.

Dentre os três ciclos descritos por teóricos literários, o mais conhecido é o ciclo bretão ou arturiano, que proveio da poesia lírica trovadoresca e dos recitais que ocorriam nos meios palacianos. Neste meio, circulavam inúmero relatos de amor e cavalaria difundidos em poemas jogralescos e culminando em sua fixação na prosa. Tais narradores se baseavam em contos romanos como Tristão & Isolda para criar uma genealogia que explicasse toda a descendência e o legado de Rei Arthur. Suas escrituras foram traduzidas para o francês e para o galego-português e, por isso, puderam ser difundidas para o restante do mundo.

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A história mais famosa a trazer o Rei como protagonista, justamente por negar toda sua estética narrativa. A Demanda do Santo Graal, apresentada nos anos finais do ciclo bretão, vai de encontro à moral cortês e representa uma inversão de valores. Enquanto nos poemas e prosas líricas o amor é exaltado como o caminho para a felicidade e para a perfeição, aqui todo o amor é considerado pecaminoso e a castidade é recomendada como o ato mais puro que aproxima os meros mortais da salvação eterna. E essa escolha de repudiar um sentimento tão incorruptível provém do relacionamento entre Lancelot e Guinevere e sua traição para com Arthur.

A Demanda é, em suma, um compilado de jornadas heroicas e sentimentais que colocam à prova a virtude e a coragem dos cavaleiros do Rei Arthur – e aqui, outros cavaleiros muito conhecidos são introduzidos, como Perceval, Boors, Galaaz (filho de Lancelot), Galahad, Kay, entre outros. A cristianização de tal lenda pagã transformou a obra  em um retrato vivo da Idade Média teocêntrica e em uma novela mística que traz um ideário utópico para a vida de quem o lê – e sua importância atravessa os séculos como fonte de inspiração para releituras críveis e tão tocantes quanto a obra original.

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