Vivemos tempos estranhos. Por mais que não se admita – ao menos abertamente –, nunca estivemos tão divididos como sociedade quanto agora. A queda das fronteiras, decorrente da globalização, e a pluralidade das identidades, fruto da pós-modernidade, tão celebradas no início do século XXI como indícios de um mundo mais igualitário, tolerante e pacífico, começam a gerar efeitos colaterais possivelmente irreversíveis. Dentre os efeitos está o conflito entre grupos que, aliados por uma causa comum – o combate à sociedade heteronormativa –, tomaram a narrativa midiática a fim de impor sua visão de mundo ao maior número de pessoas possível.

A Netflix, líder do mercado de streaming, assumiu abertamente a agenda ideológica e, com suas mais variadas produções, passando por longas-metragens, séries, animações e reality shows, é hoje um dos mais influentes canais para a causa dos grupos progressistas. Negros, LGBTs, feministas e demais movimentos sociais em defesa das minorias encontram representatividade nas mais variadas atrações disponibilizadas pelo serviço, o que, nas devidas proporções, é positivo, visto o caráter universalizante da arte. Contudo, quando o discurso ideológico é colocado acima do fazer artístico ou do mero entretenimento escapista, o conflito entre as variadas visões de mundo torna-se inevitável e isso veio à tona com o lançamento do trailer de Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, nova versão para o clássico anime inspirado no mangá de Masami Kurumada.

Na releitura produzida pela Netflix, a mudança do sexo de uma das personagens gerou certa divergência envolvendo dois grupos: gays e feministas. Explica-se: Shun, cavaleiro de Andrômeda na série original, será uma mulher na nova versão (não ficou claro se o nome “Shun” será mantido ou se será substituído por outro). Logo, a armadura da constelação representada pela figura mitológica será defendida por uma amazona. Naturalmente, uma mudança como esta geraria debate entre os fãs, em especial entre os mais xiitas, acostumados a ter calorosas discussões sobre os mais variados detalhes. Porém, numa época em que qualquer coisa gera polêmica, a mudança do gênero de um dos cavaleiros de bronze – protagonistas da série animada – provocou um racha entre os progressistas.

Ao ler a seção de comentários das postagens referentes à notícia aqui referida, vemos que as críticas à decisão tomada pelo roteirista da nova série, Eugene Son, estão calcadas no pensamento ideológico. Nas palavras do escritor, a mudança do sexo de Shun era necessária porque “trinta anos atrás, um grupo de garotos lutando para salvar o mundo sem garotas não era grande coisa. Esse era o padrão de antes”. Eugene continua: “Hoje o mundo mudou. Garotos e garotas trabalhando lado a lado é o padrão. […]E talvez 30 anos atrás ver mulheres dando socos e chutes umas nas outras não era grande coisa. Mas hoje? Não é o mesmo”.

O que temos na visão de Son é a ideia do empoderamento da mulher tomando forma no novo Saint Seiya, o que dialoga perfeitamente com a pauta feminista, uma das mais queridas e exploradas pela Netflix. No entanto, tal opção termina por excluir a pauta LGBT, uma vez que Shun sempre representou uma quebra no estereótipo do guerreiro, este comumente apresentado como duro, insensível, fisicamente forte e invulnerável.

Se, nos anos 1980, as características de Shun tinham por finalidade dar a entender, implicitamente, que a personagem era homossexual, nos dias de hoje, levando em consideração a popularidade dos Cavaleiros do Zodíaco, o cavaleiro de Andrômeda poderia, abertamente, entrar para a galeria dos protagonistas LGBTs do catálogo da Netflix e tornar-se um dos ícones para os nerds homossexuais. Não é o que acontecerá e, por isso, a mudança promovida pela releitura do anime não foi tão celebrada entre gays, lésbicas, trans e afins.

Diante desse cenário, temos um sinal de alerta que vale a atenção dos produtores de conteúdo, em especial da área cultural, já que esta atinge um público tão variado: toda segmentação ideológica é excludente. Ao sermos separados em grupos, o conceito de sociedade se perde, uma vez que cada grupo passa a se preocupar com suas próprias questões. Se antes, entre os progressistas, o protagonismo de uma personagem feminina ou gay era celebrada por todos, hoje provoca estranhamento e desconforto, já que, ideologicamente, há uma luta territorial na busca por (ou imposição da) aceitação.

Vem dessa observação uma frase que se tornou muito popular este ano diante do fracasso comercial de algumas iniciativas progressistas: “quem lacra não lucra”. Por isso, maior reconhecimento tem a obra que expressa valores universais, que atinge a todos, independente do grupo ao qual as pessoas pertencem, enquanto a segmentação ideológica apenas nos enfraquece na coletividade, colocando-nos uns contra os outros. Se antes a cisão era apenas entre conservadores e progressistas, hoje vemos indícios de que os conflitos internos estão ganhando espaço. Se uma atração infanto-juvenil foi capaz de revelar isso, então será questão de tempo até que algumas narrativas esquizofrênicas defendidas pela pós-modernidade venham a ruir.